Opinião Carnaval O mês de Fevereiro é aguardado por muitas criaturas q
Jornal de Espiritismo nº 14 · Janeiro 2006Página 74 min
Opinião Carnaval O mês de Fevereiro é aguardado por muitas criaturas que sonham com os prazeres imediatos que a euforia carnavalesca atrai. Mas desconhecem os indeléveis registos que a sua incúria cinzela nas consciências Aproxima-se o Carnaval. Festa popular com raízes em rituais expurgatórios da Anti- guidade, onde homens, mulheres e crianças pintavam os rostos e também os corpos, ao mesmo tempo que se deixavam enlevar pelo ritmo da dança e pela sedução da festa.
Com o tempo, a sociedade trans- formou-se. E encontrou novos rumos de pensamento, mas o homem moderno perpetua-a, deixando-se conquistar pelos encantos, mas também pelas consequên- cias que a mesma carrega: embriaguez e desregramentos morais. Os vários estudiosos que ao longo dos tem- pos se têm debruçado sobre a verdadeira origem do Carnaval vão divergindo nas afir- mações. Alguns asseguram que é herança das festas pagãs Saturnais – em honra de Saturno – deus da agricultura na mitologia romana, de origem etrusca, que ocorriam no mês de Dezembro.
Outros referem que, com as suas danças, Roma homenageava o deus Pan, protector dos pastores e dos rebanhos, em meados de Fevereiro. Ainda para outros, são os egípcios que, honrando a deusa Ísis, 2000 anos A.C., estarão na base das festividades que, com certa tolerância, a Era Cristã anexou ao calendário religioso. Valerá a pena referir que, ao longo dos tem- pos, foram tantos os exageros e os excessos praticados durante estas festas, que Roma terá proibido, por muito tempo, a sua ocor- rência, principalmente na Gália.
Entretanto, no século XV, o papa Paulo II terá permitido que numa rua muito próxima do seu palá- cio se reiniciassem os festejos, com corridas de cavalos, bailes de máscaras, desfiles de carros alegóricos, lançamento de ovos e outros divertimentos. E assim foi decor- rendo... Na França, nem mesmo a Revolução Fran- cesa, que alterou hábitos e entendimentos, quebrou os bailes e desfiles alegóricos que o Entrudo preconizava.
Nos nossos dias, o Carnaval continua fiel aos seus princípios e é um “desaguar” de íntimos anseios e imprevidências, onde as criaturas desavisadas procuram alegrar-se, através dos prazeres da matéria. E, por falar em alegria, será que os desejos incontidos e as fantasias dos “dias de festejos anteriores à Quarta-feira de Cinzas” facultam manifesta- ções passíveis de felicidade? O materialista responderá que “a vida é para ser vivida” em toda a plenitude e que “as regras destroem as ocasiões”.
Não perde tempo a analisar o desequilíbrio da balança humana onde, do outro lado do planeta, seres miseráveis, pobres, cheios de fome e de doenças, estendem mãos que suplicam um olhar benévolo daqueles que enchem os “luxuosos” salões da festa e se obrigam às mais variadas permissividades, escondendo-se atrás das máscaras da sua própria leviandade. Sem olhar a meios, lança-se em infortúnios que o obrigarão a chorar em futuros próximos.
Abusa das bebidas alcoólicas, dos estupefacientes e da actividade sexual, pondo em prática acções que julga subtrair-lhe as agruras e as interrogações que a alma alberga. E colhe: acidentes na estrada, assassinatos, suicídios, estupros, gravidezes indesejadas, abortos, doenças sexualmente transmissíveis, como a SIDA, e, acima de tudo, ulcerações morais que o marcarão profundamente mais tarde ou mais cedo. Aí, interrogar-se-á: “Porquê a mim”?
Em contrapartida, o espírita, que conhece os atributos da alegria saudável, olhará os festejos pela janela da razão. Porque compreende as condições e a finalidade da vida e porque distingue os motivos que originam o sofrimento, analisa-os e vive- -os sob o prisma da responsabilidade e do bom senso. Participa da festa, mas procura a alegria íntima, aquela que é capaz de gerar a felicidade no encontro com o seu “eu”. Não se entrega a fáceis deleites, ora em plena Natureza e trabalha em prol dos que precisam, porque sabe que o trabalho di- gnifica o homem.
Usa os prazeres espiri- tuais, porque são eternos, e lhe alimentam o espírito. Enquanto ser equilibrado, conhecedor da intervenção dos Espíritos no mundo corpóreo (capítulo IX de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec), afasta o acesso das forças trevosas e procura a luz, colaborando com os Espíritos Superi- ores na reedificação dos bons costumes para o bem de todas as almas. Além disso, compreende que a indisciplina sentimental decorrente das festas carnavalescas convida ao adormecimento das consciências, atra- palhando o exercício do dever.
O Carnaval vem a caminho… Incontestavelmente, é tempo de alegria, enquanto sentimento nobre que dignifica quem o cultiva, mas vale a pena reflectir sobre o que ele representa para cada um de nós, tendo em conta o cumprimento dos deveres sociais e divinos. Será óptima opor- tunidade para não esquecer que “larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que seguem por ele”, terá dito Jesus.
