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Jornal de Espiritismo nº 19 · Novembro 2006Página 94 min
Entrevista PUBLICIDADE PUBLICIDADE Manoel Simão: por uma pesquisa científica da espiritualidade Manoel Simão é psicólogo clínico e espírita, membro da Associação Luso-Brasileira de Transpessoal (Alubrat), da Universidade da Paz (Unipaz) e do Instituto Nacional de Pesquisa e Terapia Regressiva Vivencial Peres (INPTVP). Juntamente com o Dr. Alexander Moreira de Al- meida é um dos directores do NEPER – Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religio- sos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universi- dade de São Paulo onde concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Espiritismo.
O que é o NEPER – Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo? Manoel Simão – É um núcleo de estudo e apoio a pesquisas relacionadas com o estudo da espiritualidade/religiosidade e a sua relação com a saúde – doença e pro- cessos de cura, qualidade de vida, sobre- vida, experiências anómalas, etc. Como surgiu?
M.S. – O NEPER surgiu devido à necessidade da formação de um grupo de pesquisas em religiosidade e saúde na Universidade, particularmente no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Através do incentivo do Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto e com o entusiasmo do Dr. Alexander Moreira de Almeida o grupo surgiu em 2002 discutindo o artigo de D. Lukof (1992) sobre problemas religiosos e espirituais. Existiu algum catalisador?
M.S. – O Brasil é rico em todos os tipos de fenómenos da Consciência e práticas religiosas institucionais e livres. Devido à sua formação sócio-histórica, envolvendo a mistura de povos e religiões, sistemas religiosos fundem-se e novos são criados. Há um campo muito propício ao estudo de fenómenos espíritas, e outros na questão da assistência, tratamento e correlação com as- pectos ligados a saúde e cura, daí a neces- sidade de um grupo que ao apropriar-se de metodologia científica adequada se propõe estudar e divulgar achados que confirmam ou não aspectos teóricos.
Que intenção? M.S. – A intenção é fortalecermos o conhe- cimento efectivo de pesquisas e práticas para constituir uma praxe capaz de orientar novas tecnologias em tratamento e reabili- tação no campo da saúde. Periodicamente, são realizados seminários de discussão de artigos e projectos abertos a todos os pro- fissionais da área de saúde. Desejamos que o NEPER colabore na reversão da falta de conhecimento nesta área na Psiquiatria e Psicologia, na produção e difusão do saber ligado aos temas espirituais e religiosos e sua relação com saúde e qualidade de vida.
Quem compõe o NEPER? M.S. – Profissionais pesquisadores de vários campos da ciência interessados na pesquisa científica de temas ligados a religião, espiri- tualidade, práticas religiosas, experiências anómalas ou diferenciadas da consciência. Onde se reúnem? M.S. – Reunimo-nos no departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Uni- versidade de São Paulo. Quais os vossos propósitos? M.S. – O objectivo do NEPER é o estudo, a pesquisa e a assistência de questões religiosas e espirituais segundo o enfoque científico da moderna psiquiatria e psico- logia, não vinculada a nenhuma corrente filosófica ou religiosa.
Incentivamos formar pesquisadores mestres e doutores neste campo de pesquisa. O Brasil, devido à sua grande diversidade religiosa, encontra-se numa posição privilegiada para fazer avan- çar o nosso conhecimento sobre o tema. Aprimorar as metodologias de pesquisas capazes de investigar a fenomenologia da consciência envolvida nestes processos, os aspectos socioculturais presentes assim como aspectos cognitivos e fisiológicos envolvidos estão em nossos propósitos.
Que actividades têm? M.S. – Nas nossas reuniões, discutimos projectos de pesquisa com os nossos colaboradores. São apresentados artigos científicos para discussão metodológica e de seus resultados. Convidamos pesqui- sadores de outros Centros Universitários e independentes para troca de experiência e conhecimento dos seus trabalhos. O que estudam na relação do binómio espiritualidade e saúde? M.S. – Diferentes temas relacionados com o espiritismo foram objecto de estudo pelos membros do NEPER, como tratamento, assistência, diagnóstico diferencial e a própria história da evolução do movimento assistencial espírita a portadores de doen- ças mentais no Brasil.
Menciono a seguir alguns temas e seus pesquisadores que fizeram parte das pesquisas apoiadas pelo NEPER: Estudo sobre práticas espirituais nos tratamentos de portadores de deficiência mental (Dr. Frederico Leão, psiquiatra); Me- dicina e religião num espaço hospitalar es- pírita (Rodolfo F. Pittini, antropólogo); Uma fábrica de loucos: espiritismo e psiquiatria no Brasil (1900-1950) – (Angélica A. S. de Almeida, historiadora); Fenomenologia de experiências mediúnicas, perfil e psicopato- logia de médiuns espíritas (Dr.
Alexander M. Almeida, psiquiatra). A vivência da espiritualidade reflecte numa melhor qualidade de vida? M.S. – Sim, pesquisas têm mostrado que grupos religiosos pontuam melhor quali- dade de vida, maior sobrevida, menor uso de substâncias – álcool, cigarro, outras, melhor resiliência e maior tolerância a even- tos negativos de vida. Ao que tudo indica os grupos religiosos evidenciam saúde social formando muitas vezes uma rede de apoio social, o que acaba levando a uma menor prevalência de transtornos mentais.
Têm alguma parceria com outras institu- ições científicas? M.S. – A nossa parceria ocorre com a participação de pesquisadores da área de espiritualidade e saúde provenientes do Instituto de Psicologia da USP, Escola de Enfermagem da USP, Instituto de Psiquiatria e da Filosofia da Educação da Universidade de Campinas – Unicamp, Departamento de Neurologia e de Psicobiologia da Universi- dade Federal de São Paulo – UNIFESP, De- partamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
