Opinião A terra prometida A terra prometida A A revista portuguesa VIS
Jornal de Espiritismo nº 21 · Abril 2007Página 197 min
Opinião A terra prometida A terra prometida A A revista portuguesa VISÃO (nº 720, 21/12/2006) entrevistou uma alta figura das nossas finanças privadas. Num clima mundial de temores e ansiedade, o motivo destacado dessa entrevista aborda algo de reconfortante e animador: o empenho de 110 grandes empresários portugueses em desenvolver, metodicamente e com recursos materiais de vulto, uma poderosa acção de inclusão social.
foto loucomotiv A dolorosa atmosfera de catástrofes, natu- rais ou desencadeadas pelo Homem, de extrema carência material, social e moral do mundo apocalíptico de hoje, paralela às mais opulentas sumptuosidades, não impe- de a aproximação duma prometida aurora mundial de esperança e harmonia. A doutrina espírita classifica a Terra como um mundo de expiação e de provas, cami- nhando irreversivelmente para a condição evolutiva bem mais feliz que se lhe segue, de mundo regenerador.
Aí não mais preva- lecerá o mal, o orgulho, a inveja, o ódio… (capítulo III de O Evangelho Segundo o Espiritismo). O nosso planeta vem realmente evoluindo sob todas as formas. Geofisicamente, já foi muito diferente do que hoje o conhecemos; no padrão moral e intelectual da Humani- dade que o povoa, também. Por exemplo, a área penal do Direito apresenta uma enorme diferença na natureza e aplicação das penas hoje existentes, em relação às de há milénios: a conceituação penal moderna privilegia cada vez mais a ideia de reabili- tar e reinserir socialmente o prevaricador, enquanto no passado predominava o uso (quantas vezes cruel) de punir por punir, de dissuadir brutalmente pela violência.
No domínio económico-financeiro, as épocas sucessivas foram introduzindo novos con- ceitos, novos institutos e produtos, na vida de relação da área, com crescente utilidade, complexidade e eficácia. No conhecimento científico e técnico vêm sucedendo-se as conquistas, sem cessar. Enfim: transfor- mação, progresso, evolução nos planos material, intelectual e moral, constituem uma dinâmica intrínseca em todos os seres e no seu conjunto, nada se conhecendo de estático, parado ou definitivo, em todo o Universo.
No Novo Mundo, sobretudo nos Estados Unidos, o século XIX viu medrar uma notável tradição de pensamento e acção filantrópicos. Ficou célebre a ampla genero- sidade de magnatas famosos, como Andrew Carnegie (1835-1919), John D. Rockefeller (1839-1937), Henry Ford (1863-1947). O primeiro ponderava criteriosamente que morrer rico é morrer desgraçado. No início deste século, a solidariedade filan- trópica privada atingiu naquele país uma expressão gigantesca, no tocante ao valor das cifras disponibilizadas e à grandiosidade dos objectivos programados, inclusive para o exterior das fronteiras, ao encontro de extremas necessidades em países subde- senvolvidos.
Na Europa, a solidariedade social instituída é obviamente mais antiga, inicialmente com motivações e conotações de índole religiosa. Em Portugal avultam as Misericór- dias, desde 1498; e quando em 1525 faleceu a rainha D. Leonor, sua ilustre promotora, já funcionavam em todo o País cerca de 60. Permanece até hoje o eminente carácter social das actuais cinco centenas dessas instituições, em todo o País, movidas pelo conceito: Se não tomarmos conta dos po- bres, eles tomarão conta de nós.
Em 2006 aconteceu algo deveras notável. Não de esferas religiosas, mas da magistra- tura política do nosso Estado laico, partiu o incentivo dum repto à sociedade civil, a favor da inclusão social. O presidente da República, no discurso comemorativo da revolução dos Cravos, privilegiou o tema, lançou o repto e obteve como resposta formar-se a associação EIS (Empresários pela Inclusão Social). A entrevista acima referida confirma o decidido propósito da EIS, de al- cançar resultados; ela propõe-se utilizar não só um significativo investimento financeiro e a proverbial eficiência empresarial privada, mas também a assessoria dum conselho científico.
Este é formado por personalida- des com o melhor conhecimento, em Portu- gal, acerca dos vectores socioeconómicos a equacionar com vista ao projecto. De registar, ainda, a preferência da EIS não por uma lógica assistencialista, de dar um peixe, mas antes pela ideia de privilegiar a educação e formação: ensinar a pescar e a vender o peixe, passando por estudos para reduzir drasticamente os elevados índices nacionais de abandono escolar.
O projecto audacioso é mais um indicador da maturação evolutiva da nossa sociedade, sob o dinamismo universal de transforma- ção que tudo move. Sobretudo no seu capítulo XV, o livro supra- citado versa um lema fundamental do Espi- ritismo: Fora da caridade não há salvação. A caridade, pérola das virtudes, não é necessa- riamente confessional nem privativa deste ou daquele grupo, religioso ou não. Sentida, meditada, vivida, ela vai-se esmerando sem- pre, desdobra-se em respeito, fraternidade, diálogo, solidariedade, acção benevolente… entre pessoas, entre grupos, entre nações.
Poderosa alavanca de ascensão e progresso, constitui expressivo indicador do fenómeno evolutivo humano e universal. A lógica e o bom senso não permitiriam considerarmos o dinamismo universal da evolução, inteligente e determinado, como um acaso, um destino cego e caprichoso. Muitas vias conduzem a repelir tal ideia. Será relevante lembrar o célebre pensamento de Albert Einstein, que abandonou as concep- ções materialistas do início da sua carreira científica; tornou-se deísta convicto (sem nenhuma filiação confessional) após o seu estudo sobre a reprodução celular à luz dos princípios da termodinâmica, e declarou mais tarde: Deus não joga aos dados.
Mas algumas décadas antes, a doutrina es- pírita fora a primeira a apresentar uma visão lógica e integrada sobre a origem, natureza e evolução do Universo; ela declara logo na primeira questão de O LIVRO DOS ESPÍRI- TOS: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”(negrito nosso), o que exclui toda a noção de acaso. Mais adiante, na questão 628, o mesmo livro pondera: Não há para o homem de estudo nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligen- ciar, porque todos encerram o germe de grandes verdades, que embora pareçam contraditórias… são hoje fáceis de coorde- nar graças à chave que vos dá o Espiritismo para uma infinidade de coisas que…vos pareciam sem razão… Com efeito, usando a chave espírita vamos encontrar na Bíblia (erradamente invocada como cond enando o Espiritismo) a noção de uma governação cósmica presidindo à evolução da Terra, com exclusão, pois, do acaso.
Várias passagens (Génesis 12.7; 26.3; Êxodo 6.8; e outras) falam da terra prometida à descendência de Abraão. Podemos ampliar o sentido dessa promessa, associando-a não apenas à ideia de um mero território prome- tido a um “povo eleito”, mas sim às reiteradas promessas bíblicas ulteriores, referentes à Terra inteira, transformada para todo o povo de Deus. Isto é: para nenhuma nação ou etnia específica, como tal, mas antes para o conjunto de todos aqueles que “no fim dos tempos” tenham alcançado as metas do seu ciclo evolutivo de aperfeiçoamento, no seio de qualquer povo, de qualquer religião ou ausência dela.
Pela boca de vários profetas, a Bíblia repe- tidamente prognostica (na sua linguagem peculiar) a transformação da Terra, em consonância com aquilo que a Doutrina Espírita viria a denominar mais tarde planeta de regeneração: “não mais haverá luto e lágrimas” (Isaías 35.10); “os povos converte- rão as espadas em arados e as lanças em po- dadeiras, uma nação não se levantará contra outra, nem aprenderão mais a guerra” (Isaías, 2.
4); “o lobo habitará com o cordeiro…, o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos e um pequenino os guiará” (Isaías 11. 6,7); “ninguém precisará de dizer ao seu irmão ‘conhece o Senhor’ porque todos O conhecerão e terão impressas no coração as Suas leis” (Jeremias 31. 33, 34). Estas e muitas outras predições bíblicas, ajustam-se às características atribuídas pela codificação kardeciana aos mundos regene- radores, por exemplo no já citado capítulo III de O Evangelho.
A visão de João (Apocalip- se 19. 20), dos réprobos sendo precipitados num lago de fogo e enxofre, alude ao exílio reeducativo, mais ou menos prolongado mas não “eterno”, dos espíritos endurecidos, refractários ao esforço de aperfeiçoamento, para mundos primitivos como a Terra já foi (confrontar O Livro dos Espíritos, Questão 1019). A preferência da EIS não por uma lógica assistencia- lista, de dar um peixe, mas antes pela ideia de privi- legiar a educação e formação: en- sinar a pescar e a vender o peixe Ensurdecidos pela avalancha noticiosa de violência, destruição, cupidez, indiferença pela extrema carência e privações de tantos seres, mal reparamos no Bem.
Mas ele actua sempre, sem ruído nem agitação como lhe é natural. Raramente se torna objecto de noticiários, mas subjaz a tudo, persevera e diversifica-se em novas formas de actuação visível, ao mesmo tempo que interage salu- tarmente com a nossa psicosfera colectiva. Esta, por sua vez, funciona como inesgotável manancial de mais inspiração e criatividade. Enfim, em todos os domínios da vida, a acção do Bem edifica serena e solidamente os fundamentos da “nova Jerusalém” (Apoc 21.
2), isto é, da Terra inteira transformada num éden, como vem sendo longamente prometido à Humanidade sofredora.
