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Jornal de Espiritismo nº 23 · Julho 2007Página 147 min

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19 Internacional Vitória da luz No decorrer do século XVIII, o iluminismo francês irriga a Humanidade, com a bênção da Enciclopédia, trazendo as estrelas da esperança, sobre a Terra. A França ergue-se e, a 14 de Julho de 1789, proclama a necessidade da liberdade, da igualdade, da fraternidade, para, logo de- pois, no Setembro negro de 1791, tombar na intelorância fraticida, para que se escre- va, nas páginas serenas da justiça, o Código dos Direitos Humanos.

Mas, naquele mesmo período, em 1793, alguém, fascinado pela sua autoprosápia, se levanta, em Notre-Dame e diz, atormen- tado, perante Deus: “Estamos cansados de Deus; não temos necessidade da fé; expulsemos, da França, Deus, a religiãoeafé, porque são artigos desnecessários, para a nossa cultura; meu Deus, o nosso Deus, é a razão!”. E, naquela mesma hora, um simulacro de procissão abandona Notre-Dame, faz o contorno da imensa Catedral Gótica, car- regando aos ombros, uma jovem bailarina, travestida da deusa razão.

Mas, logo depois, no ano de 1802, Napo- leão Bonaparte, para se manter à frente do governo francês, assina uma concordata, com o Vaticano, para no dia 2 de Dezembro de 1804, ali mesmo, na gloriosa Catedral, se sagrar imperador dos franceses, diante do papa Pio VII, que veio especialmente do Va- ticano e ele, Napoleão, desobedecendo ao programa, toma, das mãos do papa, a coroa e autoproclama-se imperador dos france- ses, indo, ele próprio, coroar Josefina.

Deus eafé, que haviam sido expulsos, de França, pelo discurso entusiasmado, de um revolucionário, voltavam, de novo, à França, através de um documento lavrado, à base de um decreto medieval e firmado pela pena guerreira de um conquistador. É, nesse momento, nesse mesmo ano de 1804, que, os céus compassivos fazem reencarnar, na Terra, na cidade de Lyon, em França, no dia 03 de Outubro, Hippolyte Léon Denizard Rivail, no seio de uma família da média burguesia, que tem a tarefa elo- quente, de conduzir a Humanidade, ao seu grande final.

Estudando, posteriormente, na Suíça, com o extraordinário Pestalozzi, o pai da Escola- Nova, este jovem, Denizard Rivail, retorna a Paris e consagra-se como um pedagogo eminente. E, por volta de 1854, o Professor Rivail ouve, pela primeira vez, falar de um fenómeno que vinha perturbando toda a Europa, o fenómeno das mesas girantes. Naquele período, em que as ideias nasciam, em Paris, pela manhã, amadureciam ao meio-dia, envelheciam ao cair da tarde e morriam ao anoitecer, para serem figu- ras do passado, na manhão seguinte, ali no meio daquela cultura revolucionária, que acabava de exilar Victor Hugo, onde as penas luminosas dos extraordinários pensadores, pareciam, momentaneamente, silenciadas, pelo retorno ao império, já que, Napoleão III traiu a república e restaurou a velha monarquia, é nesse período que as mesas falantes revolucionam a cultura francesa.

No princípio, foi a curiosidade, mas, aquelas mesas, que falavam, mereciam toda a aten- ção; mereciam a consideração dos observa- dores e um velho amigo, do Professor Rivail, teve a oportunidade de lhe falar sobre o singular fenómeno. O Professor responde, que não pode acre- ditar, numa coisa tão pueril! Diz ele: “Eu não posso crer, que uma mesa que é destituída de nervos e de cérebro, possa pensar, até que se me prove o contrário!

” O Professor Rivail revelava a inteireza racio- nal, da sua personalidade iluminada, pela cultura e pela razão! Posteriormente, o Professor é convidado, para observar o fenómeno e, na primeira terça-feira, do mês de Maio, do ano de 1855, ele vai à residência de madame Plai- nemaison, a um sarau e ali, diante de um grupo, ele vê magnetizar uma dama, ma- dame Roger e observa a mesa a agitar-se e responder a questões, que o impressionam.

Não obstante, homem de raciocínio frio, ele questiona a mesa que se agita. Do ponto de vista científico e cultural, aqui- lo era impossível! A mesa não podia pensar, porque a arte de pensar é consequência da manifestação cerebral! Voltando-se para a mesa, cujas respostas eram dadas, através de sinais, previamente combinados, ele indaga: “Como pode uma mesa, que não tem cérebro nem nervos, falar?” E a mesa responde-lhe, através dos sinais: “Mas não é a mesa que pensa!

” “Somos nós, as almas dos homens, que vivemos na Terra, aqueles que pensamos!” “Somos os espíritos! Chamai-nos como vos aprover! Somos os seres que viveram na Terra, os homens, agora fora da matéria!” Abria-se uma era nova! O fenómeno mediúnico não era desconhe- cido, da História. Em todas as épocas de cul- tura, ele está presente, sob denominações variadas. Os antropólogos e paleontólogos encontram-no no grande período glacial.

A História da Antiguidade Oriental é um manancial de comunicações, entre o cha- mado mundo dos espíritos e o denomina- do mundo dos homens. O Cristianismo é toda uma epopeia de comunicações, entre anjos, homens, demó- nios, criaturas, demonstrando que a vida é inteiriça, com interregnos no corpo e fora dele. Ao Professor Rivail coube a tarefa, inaprecia- da, de contestar a informação dos chama- dos mortos… Diante daquela resposta, ele percebeu que estava a enfrentar, um mundo, inteiramente, novo.

Aquela resposta, de que a morte não mata- va a vida, abria-lhe o leque de informações, para o discurso moderno. Ele não se deteve e examinando a proce- dência da informação, elaborou várias teses, para negar, aquela que se apresentava, como fundamental. A hipótese da electricidade, então desco- nhecida, a hipótese da fraude, da prestidigi- tação, do fluído magnético… E, de hipótese em hipótese, que os espíritos foram demo- lindo, o Professor Rivail começou a ques- tionar e veio a saber, que, morrer é, apenas, transladar-se de um estado vibratório, para outro.

O seu amigo, que já havia realizado ex- periências daquela natureza e que tinha anotado 58 cadernos, com questões que havia proposto aos espíritos, brindou-os ao Professor Rivail, que, servindo-se desse ma- terial, ao qual juntou outras interrogações, utilizando-se da paranormalidade de vários sujeitos, surpreendeu-se, um dia, quando, pela mediunidade de uma jovem menina, recebeu a informação, de que a sua tarefa era a de divulgar essas informações, para o mundo.

Ele, então, questiona: “Como divulgar? E se falhasse?” A resposta veio, imediata: “Outro te substi- tuirá!... Porque, nas leis de Deus, ninguém é indispensável!” O Professor Rivail continuou a sua investiga- ção e veio a saber que, há quase 20 séculos atrás, ele havia vivido antes, ali mesmo, em França, quando eram as Gálias… havia sido um sacerdote Druida, que acreditava na reencarnação, na comunicabilidade dos espíritos, que era vegetariano e acreditava num deus, denominado Deus Pater, o deus da fraternidade e que se havia chamado Allan Kardec.

Estimulado a divulgar o resultado das suas observações, fê-lo, no dia 18 de Abril de 1857, há 150 anos atrás. Numa manhã de primavera parisiense, em que os céus de Paris, ainda estavam cinzen- tos, na Galeria de Orleans, em Palais Royal, na livraria Dentu, aparece uma obra, que é o amanhecer de uma nova era. O Livro dos Espíritos, firmado por um estranho Senhor, Allan Kardec. O Professor Rivail preferiu adoptar o pseudónimo, para ocultar a grandeza da sua inteligência, a fim de que, aqueles que lessem a obra, se interessassem mais, pelo seu conteúdo, do que pelo seu autor.

Não era o autor, que daria brilho à obra… A obra, pelo seu conteúdo excepcional, dignificaria o seu verdadeiro autor, que, aliás, não era ele. Os autores eram os Espíritos! A sua tarefa foi a de coodificar as informações; caldeá-las; examiná-las em profundidade; seleccioná- las e observar o seu carácter universalista, porque a verdade não é património de um povo, de uma casta, de um indivíduo; ela tem um carácter universal e para que essa comunicação fosse verdadeira, ela deveria repetir-se, através de vários médiuns, que não se conhecessem, que não mantives- sem qualquer contacto, entre si e que, no conteúdo, não obstante a forma, dissessem a mesma coisa.

Era o critério da avaliação, da universalidade do ensino e Allan Kardec o lograva, naquela manhã cinzenta, na livraria Dentu, com o lançamento do Livro dos Espíritos. Entre aqueles que o vão folhear, um dos primeiros, é o admirável Nicolau Camille Flamarion, que, aos 19 anos de idade, era considerado omaior astrónomo da Europa, no seu tempo. Flamarion examina a obra e fascina-se, pelo seu conteúdo de filosofia ideológica, pelas aberturas que enseja, à observação científica e pela porta que se abre, à religião cósmica do amor.

Esta magistral obra, O Livro dos Espíritos, que, naquela manhã de Sábado, 18 de Abril de 1857, se encontra exposta, nas prate- leiras e vitrina, da livraria Dentu, em Paris, à disposição de todos, era o raiar de uma nova luz! Eram as ideias espíritas desfazen- do as trevas, procurando banhar de luz, as consciências amadurecidas, predestinadas a inaugurar uma nova era, religiosa, filosófica e científica! «O Livro dos Espíritos», na sua primeira edi- ção, tinha um conteúdo de 501 questões, divididas em 3 partes.

A edição definitiva, que é a que temos hoje, lançada a 16 de Março de 1860, refundida e consideravel- mente alargada, porque os ensinamentos dos Espíritos, continuava, tem um conteúdo de 1019 questões, algumas desdobradas em alíneas, num total de 197, mais 19 ítens e 211 comentários, do próprio coodificador; uma introdução que é, simultaneamente, um tratado de sabedoria; os Prolegómenos e uma conclusão, apresentando-se dividi- da em 4 partes, ou 4 livros, para facilitar o estudo sistemático, da obra, estabelecendo uma ordem lógica e explicitando relações entre as 4 partes e os seus capítulos.

Cada fase é preparatória, da fase seguinte. Por António Aveiro (parte do texto apre- sentado nas XVII JORNADAS ESPÍRITAS organizadas pelo CENTRO ESPÍRITA PERDÃO E CARIDADE, em 27 de Maio de 2007).