Editorial Nem estava muito calor, mas na praia, perto das ondas que se
Jornal de Espiritismo nº 24 · Setembro 2007Página 28 min
esvaíam na areia, duas meninas cooperavam a escavar. Ali perto dois meninos competiam: ora vai um chuto na água para molhar o outro, e vice-versa. Em menos de um minuto o pequeno chapinar do início tornou-se um acto enérgico com contornos de agressãoea brincadeira descambou para o preâmbulo da estalada... Ora aqui vai uma, ora aqui vão duas. À medida que crescia o empenho na resposta entre um e outro, não se podia deixar de perceber que quando não nos colocamos no lugar de outrem mais tarde ou mais cedo, invariavelmente, as relações entre pessoas tendem a agudizar-se.
Como os atletas do ténis de mesa – mais conhecido como pingue-pongue – que se empenham em enviar a bola ao adversário, de forma a que este não consiga devolvê-la dentro das regras da vitória do jogo. Na verdade, estava à vista o padrão de grande parte da génese dos conflitos nesta grande escola que é a Terra. No inconscien- te predomina ainda a «verdade» evolu- tiva atrasada de que só se resiste a uma agressão enviando outra mais potente, se possível.
Entre conflitos familiares, de bairro até as guerras entre nações, a capacidade de usar a linguagem ou outros métodos pacíficos para solucionar disputas é posta de lado, sem pensar. E surgem as figuras explanadas há 2 mil anos: no quadro da suposta mulher adúl- tera disse «quem estiver sem pecado atire a primeira pedra», e desenhou na terra; «se alguém te bater numa face oferece-lhe a outra»; etc. Que grande trabalho de educação temos pela frente em nós próprios.
E que imenso serviço têm os pais para, pelo exemplo, aproveitar a oportunidade das idades mais permeáveis para o plantio da sabedoria e da paz nas suas crianças... Afinal, se nos tempos primitivos a agressão nos resolvia os problemas imediatos da fome, da integridade física e até do frio, hoje vivemos noutro contexto, com maio- res coordenadas de informação que nos podem aproximar dos seres mais luminosos que passaram em todas as culturas da Terra, na sua história.
Para os estudiosos da história natural, mais ampla do que a antropologia, o ensaio na praia, das meninas, é o treino de capacida- des de cooperação úteis à educação dos seus futuros filhos; a chapinadela dos meni- nos é o ensaio de estatuto social na tribo a que pertencem, prevenindo violência maior quando tiverem mais força e mais técnica na luta corpo a corpo, como futuros guer- reiros que viriam a ser, tarefa acumulada ou não com a de camponês ou pescador.
Para nós, espíritas, as considerações passam pela compreensão da génese dos impulsos a fim de melhorar as respostas no dia-a-dia: se a bola branca do ténis de mesa repre- sentar a violência, se não a devolvermos, o jogo pára. Se um deixar de chapinar e se afastar, o outro cansa-se por não ter resposta. A agressão não aguenta a solidão, quer sempre a sua gémea, quer ouvir o seu eco, não se revê se não houver estímulo.
Quando alguém nos provoca, mesmo que seja só pela palavra, se não dermos troco a violência acaba por se esvair, tal qual as ondas que atingem a praia. Por isso, ficou escrito para todos os que queiramos ler: «Bem-aventurados os mise- ricordiosos, pois alcançarão misericórdia». Onde é que já ouvimos isto? Texto: Jorge Gomes A descoberta de Dr. Corujão O clima era de festa na Floresta Encantada naquele dia. A bicharada aguardava ansiosa a chegada do mais ilustre habitante da floresta, o Dr.
Corujão, o novo médico da Floresta Encantada. Saíra jovem ainda de casa para estudar fora, noutras florestas maiores, com outras inteli- gentes corujas e agora retornava. Os seus pais estavam muito felizes, não viam a hora de reencontrar seu filhote. Elegante e bem vestido com uma malinha de médico já nas mãos, finalmente chegou o Dr. Corujão. Não parecia o mesmo, tinha um ar distante e muito orgulhoso, tanto que nem percebeu a quantidade de bichos que estavam à sua espera.
A bicharada havia feito uma festa surpresa para o Dr.Corujão que, para decepção de todos, não “deu a menor importância”. Quase não reconheceu nenhum dos presentes, pois só falou praticamente com os seus pais. Disse que estava cansado e queria repousar, quem quisesse falar-lhe que marcasse hora no seu consultório. O que Dr. Corujão não sabia é que o seu novo consultório tinha sido feito com a ajuda de to- dos os bichos que se revezavam na construção na ajuda aos seus pais.
Com o passar dos dias os pais de Dr. Corujão perceberam que o seu filho aprendera bem mais do que medicina, já não era a mesma criatura doce e simples que sonhava em ser “Doutor” para ajudar a todos os que dele preci- sassem. Só atendia com hora marcada e no seu con- sultório, nunca ia na casa dos bichos por mais que solicitassem, mal examinava os pacientes pois não gostava de tocar em animal doente, não conversava outro assunto além da receita que passava, e acabava por não perceber que muitas vezes os animais estavam muito mais doentes da alma e que precisavam de algo mais do que remédios para o corpo.
O tempo passou e Dr. Corujão resolveu casar, queria formar uma família, ter os seus filhos. Além do mais, simpatizava muito com Rosalva, uma jovem coruja que o auxiliava no consul- tório. Casaram-se sem muita festa ou muitos con- vidados, pois Dr. Corujão não gostava de “se misturar” com todos os bichos. Logo tiveram o primeiro filho, uma pequena corujinha que ficou com o nome Rosinha, pois representava mesmo uma rosa que nascia no jardim do coração do Dr.
Corujão. Dr. Corujão ganhara nova vida, já não era o mes- mo bicho sisudo e sem graça. Começava a ter mais alegria de viver, apreciava mais os passeios, as festas e as comemorações da floresta, pois sempre tinha a companhia de Rosinha ao seu lado; eram inseparáveis. Que grande amor unia Dr. Corujão a sua filhinha! Rosinha crescia feliz fazendo a cada dia novas descobertas ao lado de seu pai: -“Pai, quem criou as estrelas que iluminam a noite escura”?
-“Paizinho, quem criou as nossas penas que nos aquecem durante a noite”? -“Quem criou as árvores onde fazemos os ninhos, papai”? -“Paizinho, quem criou a alegria que a gente sente dentro do coração quando encontramos alguém de quem gostamos”? Enchia o pai de interrogações. Dr. Corujão ao mesmo tempo que se admirava da esperteza da sua Rosinha, ficava sem jeito pois não sabia responder a todas aquelas perguntas que aca- bavam por o deixar cheio de indagações.
O certo é que Rosinha encantava a todos não só com sua inteligência, mas principalmente com a sua meiguice e simplicidade. O pai, Dr. Corujão, a cada dia amava mais aquele filhote que encantava e alegrava a sua vida. Através de Rosinha começava a pensar mais sobre a vida e sobre Deus. Um dia Rosinha acordou indisposta, não tinha vontade de fazer nada, nem passear com o pai, seu programa predilecto. Sentia o seu corpito cansado e dorido.
Dr. Corujão examinou-a sem encontrar qual- quer razão. Os dias passavam e Rosinha piorava, estava fraquinha e magra. Já não se alimentava, só dor- mia. A única hora a que ainda sorria era quando o seu pai chegava, os seus olhos brilhavam como estrelas na noite. Dr. Corujão definhava junto com a filha, não tinha ânimo para nada, a não ser para estudar tentando descobrir que doença tinha a sua doce Rosinha. Não podia admitir como ele sendo médico curando tantos animais , não conseguia curar sua própria filha.
Naquele dia Rosinha piorara, já não acordava, já não tinha força nem para abrir os olhos. Dr. Corujão não sabia mais que fazer. Como sofria o pobre Corujão! Então recorreu a algo que nunca havia feito an- tes: resolveu orar a Deus. Com os olhos cheios de lágrimas pediu pela sua filha. Enganara-se, achava que tinha todo o poder do mundo só porque era médico, mas percebia agora que existia “algo” que dirigia o seu cami- nho.
Adormeceu a chorar e a orar. Sonhou que um espírito aparecia e o convidava a conhecer o mundo espiritual, ele aceitava e viajavam por muitas cidades, e numa delas paravam para visitar um amigo que Dr. Corujão reconhecia como sendo seu avô que já havia desencarnado: -Avô, o que está a fazer aqui?, pergunta assusta- do Dr. Corujão. -Filho, eu vivo aqui. Aqui trabalho, estudo, ajudo os animais na Terra e preparo-me para voltar como fez Rosinha.
Respondeu o avô. -Rosinha, minha filha? Ela já morou aqui?, per- guntou surpreendido o Dr. Corujão. -Sim, foi aqui que ela se preparou para o que iria passar. Escolheu voltar ao seu lado pelo grande amor que tem por ti. Queria fazer-te despertar para as coisas de Deus, transformando-te num ser bondoso e caridoso com os bichos da Floresta Encantada. -Como assim?, perguntou Dr. Corujão. -Meu filho, na vida passamos por dores e dificuldades, não por castigo de DEUS mas para que aprendamos, para que não caiamos nos mesmos erros e soframos novamente, e assim, possamos distinguir o caminho do bem e do mal.
Rosinha viu que precisavas de descobrir Deus de alguma forma, mesmo que fosse sofrendo uma grande perda... Explicava carinhosamente o avô. -Agora entendo avô e prometo que vou tentar mudar... Naquele momento, o Dr. Corujão acorda assus- tado com Rosalva a chamar: -Depressa Corujão, anda cá, é Rosinha, a nossa filhinha.... Dr. Corujão voou rápido e para sua surpresa en- controu Rosinha sentada na cama de olhinhos abertos abraçada à sua mãe, sentia-se melhor.
Dr. Corujão entendeu naquele momento a infinita bondade de Deus, agradeceu pela oportunidade que lhe foi dada e assumiu um compromisso consigo mesmo. Não se sabe bem o que foi, mas o certo é que a partir daquele dia Dr. Corujão transformara- se. Onde houvesse dor ou sofrimento, ali se encontrava o Dr. Corujão. Não media esforços para ajudar, a qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite. Ele sempre estava a disposição para curar todos, das dores do corpo e da alma.
Acabou até por receber o apelido carinhoso de “Conselheiro da Bicharada”, pois justiça, amor e compaixão era o que não faltava ao Dr. CORUJÃO. In http://www.evangelizar.org.
