Literatura O Livrinho dos Espíritos É dever moral dos adultos espírita
Jornal de Espiritismo nº 24 · Setembro 2007Página 198 min
Literatura O Livrinho dos Espíritos É dever moral dos adultos espíritas darem uma educação espírita às crianças e jovens a seu cargo. Não se trata, obviamente, de fazer novos adeptos da doutrina, mas de lhes proporcio- nar esclarecimento espiritual e maior acesso a valores morais sadios. O Saber não ocupa lugar, e o Espiritismo é cultura. Palais Royal “O Livro dos Espíritos” pode ser lido e enten- dido por jovens a partir dos 14 anos, desde que tenham interesse e maturidade para tal.
Mas é possível dar a conhecer a obra basilar da doutrina dos Espíritos mais cedo. Foi o que fizeram a escritora e roteirista brasileira Laura Bergallo, e o seu marido, o médico, professor e co-autor de livros espíritas Gilberto Cardoso. Quando os filhos do casal tinham 10 e 12 anos, resolveram apresentar-lhes “O Livro dos Espíritos”, nas sessões de estudo que realizam em casa. Adaptando a linguagem ao entendimento dos meninos, escolhendo os temas mais do seu interesse, introduzindo comentários que lhes facilitassem o entendimento, o trabalho revelou-se um êxito.
Assim nasceu “O Livrinho dos Espíritos”. Esta obra não pretende resumir, e muito menos substituir “O Livro dos Espíritos”, mas sim servir-lhe de introdução, preparando uma leitura mais aprofundada quando a maturidade dos jovens o permitir. Pode ser um auxiliar precioso na preparação de actividades de evangelização infanto-juve- nil, e, quem sabe, pode também interessar a alguns adultos que têm dificuldade em mergulhar nos conceitos e na linguagem das obras básicas, a despeito de possuírem muitas vezes vasta cultura e inteligência apurada.
“O Livrinho dos Espíritos” é publicado pelas Edições Léon Denis – www.edicoesleonde- nis.com. Muito bem escrito e sequenciado, conta ainda com as ilustrações singelas e cativantes de Ana Cláudia Oliveira. Uma obra a ter em atenção, a bem da correcta divulgação da doutrina espírita. Texto: Roberto António Nosso Lar «Estas informações são como as fontes da estrada. Cada qual enche o seu cântaro e conduz o que pode suportar.
» Numa pesquisa inédita realizada por Or- ganizações Candeia pouco antes final do II milénio, que consistiu em perguntar a várias centenas de estudiosos da Doutrina Espírita (escritores, dirigentes e demais trabalhadores espíritas), quais os dez livros espíritas mais importantes do século XX, constatou-se que o primeiro livro de André Luiz NOSSO LAR , que teve a sua primeira edição no final de 1943, foi o mais votado com destaque sobre todos os outros.
Hoje já foram publicados mais de milhão e meio de exemplares, só em português, pois que também já foi traduzido para vários idiomas incluindo o japonês. Quando tal obra surgiu, os espíritas na sua generalidade ficaram chocados, incluindo muitos estudiosos e dirigentes, pois as novas revelações eram tão inusitadas e perturbado- ras, em confronto com o pensamento habi- tual a respeito do além-túmulo, que houve quem acusasse o médium do «Parnaso» de perturbado e fascinado.
Mas o trabalho hu- milde e perseverante de Francisco Cândido Xavier, no silêncio, sempre de renúncia aos louros de César e o auxílio do tempo, foram levando tais espíritas a mudarem de atitude, de visão, em relação à nova série de revela- ções que se iniciava com NOSSO LAR, sendo hoje aceites por todos os espíritas estudiosos e simpatizantes sensatos. Actualmente não temos dúvidas em dizer que André Luiz era a ponta do icebergue, o Espírito «encarregado por uma comissão de sábios da Espiritualidade Maior para levantar o espesso véu que se interpunha entre os homens e a vida espiritual», como observou Geraldo Lemos Neto na Introdução do livro «Sementeira de Luz».
Com Allan Kardec o conhecimento que tínhamos do Mundo dos Espíritos, mundo normal primitivo, era muito precário, muito limitado. Conhecíamos apenas o estado moral dos ditos «mortos», que viviam no céu ou no inferno das suas consciências, confor- me a vida que levaram enquanto estiveram mergulhados na carne. Analisemos os 65 testemunhos que compõem a segunda parte da quarta obra da codificação espírita . O Céueo Inferno.
Ao lermos atentamente esses casos não conseguimos vislumbrar o ambiente espiritual em que tais Espíritos se encontravam, como era o meio em que vi- viam. As nossas ideias a respeito do ambiente em que viviam eram muito nebulosas, abs- tractas. A maioria de nós, como não víamos, julgávamos que os Espíritos vagavam pela atmosfera, como ainda podemos verificar em muitas obras espíritas. Com André Luiz, o nome que escondia o do médico e cientista brasileiro Carlos Chagas, passamos a ter uma visão in loco do Mundo invisível ao olhar humano.
Foi uma verdadei- ra revolução nos conceitos que tínhamos do Mundo Espiritual e dos seus habitantes. Se com Kardec tivemos a prova da imortalidade e da existência do Mundo dos Espíritos, a partir de investigações feitas do Mundo ma- terial, sem contudo chegarmos a saber bem como era esse novo Mundo; com André Luiz, agora a partir do Mundo espiritual, podemos observar como se víssemos um filme, esse Mundo tão misterioso para nós encarnados.
André Luiz funciona como um verdadeiro repórter que nos vai relatando o seu dia a dia dentro das comunidades invisíveis. O seu notável espírito de observação e curiosidade desvenda-nos os escaninhos «materiais» (1) desse mundo. São o relevo, o clima, a vege- tação, as cidades com as suas habitações, as escolas, os hospitais, os animais, as industrias, a organização social, etc., etc. André Luiz tem a virtude de nos fazer ver e sentir como se estivéssemos no local do Mundo Espiritual, tal a forma como nos descreve os momentos por si vividos e observados, desmistificando por completo a morte, que para muitos de nós é o fim ou a instalação definitiva em locais que as religi- ões nos apontam.
Questões como a vida social no além-túmu- lo: trabalho, vida conjugal, namoro, estudos, diversões, etc., tudo nos é relatado com gran- de beleza e realismo, o que nos leva quase a sentir as emoções do nobre e invulgar relator e a ver com os seus olhos, provando à saciedade que a natureza não dá saltos, mostrando-nos que continuamos tal e qual como éramos quando estávamos na carne. Mas a mais importante contribuição que André Luiz nos traz, é o conhecimento da alma humana.
Com ele a alma humana é escalpelizada pelo bisturi da sua sensibilida- de e inteligência. Através da sua experiência pessoal íntima (introspecção) vivida como desencarnado, acompanhamos o seu grande poder de observação e análise, qual repórter da alma que nos descreve com simplicidade e mestria ímpares, os juízos de valor que a todo o momento faz. Esses juízos fruto da sua ignorância, reve- lam uma curiosidade invulgar aliada a uma grande humildade, que possibilitaram os esclarecimentos dos Espíritos mais experien- tes e evoluídos, que corrigem, sem ofende- rem a sua ignorância, mostrando-nos assim, de forma racional o que lhe parecia absurdo e muitas vezes anti-caridoso.
São lições impressionantes que contribuem de forma decisiva para mudarmos comportamentos, que ajudam o nosso progresso intelectual e moral, ou seja, a nossa evolução espiritual. André Luiz confirma-nos exaustivamente as consequências do nosso pensar, sentir e agir em relação ao outro, tanto na vida material como na vida espiritual; mostrando-nos como devemos utilizar o pensamento e a vontade. Hoje, assuntos tão candentes na sociedade, como o aborto, a eutanásia, os desregramen- tos genésicos, são analisados com clareza meridiana, mostrando-nos pelos factos as suas consequências deletérias.
A questão do segundo casamento, no caso da viuvez de um dos conjugues é-nos relatado, mostran- do-nos com grande lucidez a experiência íntima vivida pelos intervenientes, depois de regressarem à vida espiritual. Questões controversas para os espíritas que não tem o hábito de leitura e estudo, como a existência de vários planos no Mundo dos Es- píritos, a alimentação dos Espíritos, as formas de comunicação dos Espíritos, os meios de deslocação dos Espíritos (marcha, volitação, etc.)
, o desdobramento do perispírito, etc., são também esclarecidos. Em suma tal livro engana o leitor despreve- nido, como disse o professor Herculano Pires em relação à leitura de O Livro dos Espíritos, pois não existe nenhum parágrafo, período, ou uma simples palavra ou sinal de pontu- ação que esteja colocado por acaso nesta obra, como nas que se lhe seguiram, na série de relatos de André Luiz, que constituem mais dez livros reportagens.
Antes de André Luiz, registamos as mensa- gens recebidas pelo reverendo britânico Vale Owen, no início do século XX, mas que não atingiram a profundidade destas. Na pré- história do Espiritismo, temos os relatos de Swedenbourg, finais do século XVIII, eivados de misticismo e fantasias, resultantes das suas crenças e convicções. Não podíamos deixar de registar a obra prima de Dante Alighieri, a «Divina Comédia», do início do século XIV, que nos relata as suas intuições e inspirações dos diversos planos invisíveis ao olhar humano.
Mas, só as revelações de Yvonne do Amaral Pereira, a «Heroína Silen- ciosa», se aproximam em minúcias da grande revelação de André Luiz. Registamos alguns extractos de mensagens íntimas que o Espírito Neio Lúcio, (2) deu à fa- mília do Eng. Rómulo Joviano, chefe de Fran- cisco Cândido Xavier na Fazenda Modelo, nas reuniões íntimas semanais no seu lar, a partir de 1935 até 1949, referentes às revelações da série Nosso Lar.
Disse o seguinte: «E creiam que as narrativas são pálidas no confronto com o real! Não existe vocabulário para a figuração de uma experiência tão adiantada quanto essa.» (05/08/1943); «É muito grande a movimentação do plano espiritual no sentido de articular os princípios da verdade renovadora com vistas à nova era!» (04/10/1944); «Serviço muito meditado e medido, espera- mos que as mensagens desse nosso amigo possam acordar a muita gente que dorme.
» (06/12/1944); «Constituem como que um curso de intro- dução ao entendimento das actividades do homem além do túmulo.» (1/04/1945). (1)«Materiais» porque não deixa de ser maté- ria, embora em outra dimensão, se assim nos podemos exprimir, é também fluido cósmico universal, a matéria prima de toda a matéria, a matéria primitiva. (2)Ver livro «Sementeira de Luz» do Espírito Neio Lúcio, psicografado por Francisco Cân- dido Xavier, organizado por Wanda Amorim Joviano, filha de Rómulo Joviano, que partici- pou nessas reuniões familiares.
