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Jornal de Espiritismo nº 27 · Março 2008Página 153 min
Opinião Educar: a arte de manejar caracteres PUBLICIDADE PUBLICIDADE foto loucomotiv Hippolyte Léon Denizard Rivail, com o pseudónimo de Allan Kardec, trouxe ao mundo o Espiritismo, em forma de conhecimento e prática, numa abordagem científica, essencialmente filosófica que visa o aperfeiçoamento moral e espiritual do homem. O seu trabalho como codificador da doutrina espírita é sobejamente conhecido e divulgado, mérito que Kardec afirmava ser dos espíritos.
O que muitos desconhecem é o trabalho de uma vida inteira dedicado à educação. Entre 1814 e 1822, Rivail estudou no Instituto de Yverdun, na Suíça, fundado e dirigido pelo pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi. Tendo em conta o seu empenho na arte de educar, é inegável que a sua vivência escolar naquele instituto, e a convivência com Pestalozzi, influenciou o modo de ver a educação. E esta ganhou de tal forma importância que em 1834, num “Discurso pronunciado na distribuição de prémios” , Rivail afirma que “a educação é a obra da minha vida, e todos os instantes são empregados a meditar sobre esta matéria”.
Em 1823, Rivail já tinha publicado o seu primeiro texto pedagógico (“Curso prático e teórico de Aritmética Segundo os Princípios de Pestalozzi, com modificações”), e em 1825 fundava em Paris uma escola do 1.º ciclo da qual foi director durante nove anos. Contam-se, entre manuais, cursos e textos, cerca de 30 trabalhos escritos por Rivail sobre Educação, num período que durou até 1850. Depois desta data os seus trabalhos dedicam-se essencialmente ao espiritismo.
Na análise dos seus textos pedagógicos encontramos em Rivail uma vontade firme de propor uma ciência da educação, de sobretudo despertar nos educadores a preocupação pelos valores morais, porque não se pode obter “uma boa educação moral, se não se tiver uma massa de educadores que compreendam verdadeiramente o objectivo da sua missão e que tenham as qualidades necessárias para cumpri-la” . E a que qualidades se refere Rivail?
À liberdade de cada um escolher o seu caminho, tendo como exigências “o carácter e talento necessários” . A sua preocupação com a formação de educadores estava na directa proporção com a relevância do acto de educar, porque “os resultados da educação são muito importantes para confiá-la levianamente a qualquer um.” Mais tarde, com o pseudónimo de Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, vai reforçar esta ideia no comentário à pergunta 917: “A educação convenientemente entendida constitui a chave do progresso moral.
Quando se conhecer a arte de manejar caracteres, como se conhece a de manejar inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tacto, muita experiência e profunda observação.” Não é por acaso o seu apelo constante, tanto nos textos pedagógicos como nas obras espíritas, à formação moral dos educadores. Sendo que educadores são todos aqueles que educam, essa tarefa não é apanágio apenas daqueles que estão nas escolas.
Somos educadores em casa, na família, no trabalho, no centro espírita, em sociedade. A proposta de Allan Kardec é simples e objectiva: “Faça-se com a moral o que se faz com a inteligência e ver-se-á que, se há naturezas refractárias, muito maior do que se julga é o número das que apenas reclamam boa cultura , para produzir bons frutos.” Manejar caracteres consiste em formar homens de bem, “fazer eclodir neles os germens da virtude e abafar os do vício” .
E como colaborar na arte de educar sem que cada um se auto-eduque? Sendo que “a educação se compõe de todos os instantes da vida” , educa-se e é-se educado, num processo recíproco que, se partilhado por todos num verdadeiro esforço de transformação moral, e de forte vontade em superar as más inclinações, obteremos o progresso espiritual que nos leva à felicidade, sentimento natural a que todos aspiramos. Resumindo: o fim da educação, bem como o do espiritismo, é o progresso individual e social do ser.
Façamos a avaliação do nosso empenho nessa tarefa, como o fez Rivail em 1834: “Disse, no começo, que a educação é a obra da minha vida, não faltarei á minha missão, pois penso compreende-la. Inimigo do charlatanismo, não tenho o tolo orgulho de acreditar cumpri-la com perfeição, mas tenho ao menos a convicção de cumpri-la com consciência.” Por Regina Saião reginasaiao@gmail.com http://pedagogiaespirita.blogs.sapo.
