Editorial Antigamente, nas sociedades agrícolas celebravam-se nesta ép
Jornal de Espiritismo nº 30 · Setembro 2008Página 24 min
Editorial Antigamente, nas sociedades agrícolas celebravam-se nesta época as colheitas. No ocaso do Estio, sabe-se que o ritmo do clima trará frio num par de meses e só quem semeou sob as bênçãos da natureza guarda recursos para atingir bem uma nova Primavera. Na história da humanidade, antes do alvorecer da agricultura, frutos e cereais eram colhidos da versão selvagem de plantas que hoje conhecemos como macieira ou pessegueiro, centeio ou cevada, trigo ou milho.
Quando se dominou os ritmos desta flora e se aperfeiçoou o plantio, criou-se um conhecimento que permitiu realizar colheitas mais fartas e de melhor qualidade. O melhor grão não serve para moer e deglutir: serve para ser semeado, pois só assim colheu o camponês melhores sementes no porvir do horizonte agrícola. Semear e colher, agir e reagir, causa e efeito. No dia-a-dia de cada um, as semeaduras e as colheitas sucedem-se.
Só que por vezes, distraídos, parecemos ignorar essas relações de causa e efeito. João queixa-se que ninguém entende as suas melhores intenções, mas não exercita o autoconhecimento para saber em que medida deseja servir ou ser servido. Não se acha Maria ligada ao cônjuge ideal, porém nunca fez contas ao número de vezes em que poderia ser gentil no dia-a-dia, em casa, conforme faz quando fala com pessoas fora do círculo familiar mais próximo.
Decepciona-se todo o dia Fernando com a sua profissão, como se a luz do salário não surgisse em tempo certo ao fim do mêseo trabalho não fosse lei da natureza. Lamenta Joana a dificuldade de ter filhos, descurando o facto de existirem tantas crianças ansiosas por se enquadrarem numa família. Sem cada um avaliar os recursos fartos que já angariou vida após vida, nunca abordará o seu uso fértil. Ainda assim, não basta inventariar talentos e poli-los, necessário é realizar.
Agir e reagir acima dos meros hábitos, «observar tudo, reter o bem», como escreveu Paulo de Tarso numa das suas cartas, é o ensaio de milénios que temos pela frente desde já. Semear equivale a agir e só depois do labor construtivo, esquecido o cansaço, será lícito a todos recolherem a bênção da colheita. Por Jorge Gomes A ponte Conta-se que, certa vez, dois irmãos que moravam em quintas vizinhas, separadas apenas por um riacho, entraram em conflito.
Foi a primeira grande desavença nas suas vidas. Sempre tinham trabalhado lado a lado, repartindo as ferramentas e amparando-se mutuamente. Durante anos eles percorreram uma estrada estreita e muito comprida, que seguia ao longo do rio para, ao final de cada dia, poderem atravessá-lo e desfrutar da companhia um do outro. Apesar do cansaço, faziam a caminhada com prazer. Mas agora tudo tinha mudado. O que começara com um pequeno mal entendido, finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas de semanas de total silêncio.
Numa manhã, o irmão mais velho ouviu baterem à sua porta. Ao abri-la notou um homem com uma caixa de ferramentas de carpinteiro na mão. - Estou à procura de trabalhodisse ele. Talvez tenha um pequeno serviço que eu possa executar. Simdisse o fazendeiroclaro que tenho trabalho para si. Veja aquela quinta além do riacho. É do meu vizinho. Na realidade, meu irmão mais novo. Nós tivemos um conflito e já não o posso ver. Vê aquela pilha de madeira perto do celeiro?
Quero que construa uma cerca bem alta ao longo do rio para que eu não precise mais de o ver. - Acho que entendo a situaçãodisse o carpinteiro. Mostre-me onde estãoapá e os pregos que certamente farei um trabalho que o deixará satisfeito. Como precisava de ir à cidade, o irmão mais velho ajudou o carpinteiro a encontrar o material e partiu. O homem trabalhou arduamente durante todo aquele dia medindo, cortando e pregando.
Já anoitecia quando terminou sua obra. O proprietário chegou da sua viagem e os seus olhos não podiam acreditar no que viam. Não havia qualquer cerca! Em vez da cerca havia uma ponte que ligava as duas margens do riacho. Era realmente um belo trabalho, mas o fazendeiro ficou enfurecido e disse: olhe que foi muito atrevido ao construir essa ponte após tudo o que lhe contei. No entanto, as surpresas não tinham terminado.
Ao olhar novamente para a ponte, viu o seu irmão a aproximar-se da outra margem, e a correr com os braços abertos. Por um instante permaneceu imóvel do seu lado do rio. Mas, de repente, num só impulso, correu na direcção do outro e abraçaram-se efusivamente no meio da ponte. O carpinteiro já ia embora com a sua caixa de ferramentas, quando o irmão que o contratou lhe pediu emocionado: - Espere! Fique connosco mais alguns dias.
O carpinteiro respondeu: - Adoraria ficar, mas, infelizmente, tenho muitas outras pontes para construir.
