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Jornal de Espiritismo nº 31 · Novembro 2008Página 24 min
Editorial A janela foto loucomotiv Ele deu-se conta que tinha vários programas preferidos. Um relatava factos de uma das suas áreas de interesse, uma paixão de infância. Outro ligava-se a um passatempo recente que lhe atraía inelutavelmente a atenção. Num destes fins-de-semana apercebeu-se que não conseguia fruir nem de um nem de outro, quando de tanto querer ocupar- -se de um o outro o atraía. E, feito o balanço, com os pés em pranchas diferentes, não caminhava nem num, nem noutro sentido.
Situação patética. Estava à vista a incapacidade de tomar uma decisão, de optar numa dada hora por algo em desfavor de outra ocupação, ou vice-versa. Seria ganância? Ou incapacidade de definir o que realmente gostava de fazer? Terão um dia perguntado a um homem sábio, num momento em que sachava a sua horta, na moldura do riso das crianças que brincavam à distância e o som das aves nas redondezas: «Se soubesse que vai morrer dentro de um par de horas, o que gostava mais de estar a fazer neste momento?
». Apoiado na enxada, pensativo, conclui: «Estaria a fazer isto mesmo que estou a fazer agora». A competiçãoeo turbilhão de situações em que se vive no dia-a-dia, o excesso de propostas com que os cidadãos hoje se vêem bombardeados, sobretudo na época Certa vez, dois homens estavam seriamente doentes na mesma enfermaria de um grande hospital. O quarto era bastante pequeno e nele havia uma janela que dava para o mundo.
Um dos homens tinha, como parte do seu tratamento, permissão para sentar-se na cama durante uma hora todas as tardes (algo a ver com a drenagem de fluido dos seus pulmões). A sua cama ficava perto da janela. O outro, contudo, tinha de passar todo o seu tempo deitado de barriga para cima. Todas as tardes, quando o homem cuja cama ficava perto da janela era colocado em posição sentada, ele passava o tempo a descrever o que via lá fora.
A janela aparentemente dava para um parque onde havia um lago. Havia ali patos e cisnes, e as crianças iam atirar-lhes pão e colocar na água brinquedos com forma de barco. Jovens namorados caminhavam de mãos dadas entre as árvores, e havia flores, relvados e havia equipas a jogar à bola. E ao fundo, por trás da fileira de árvores, avistava-se o belo contorno dos prédios da cidade. O homem deitado ouvia o sentado descrever tudo isso, apreciando todos os minutos.
Ouviu sobre como uma criança quase caiu no lago e sobre como as garotas estavam bonitas com os seus vestidos de Verão. As descrições do seu amigo eventualmente o fizeram sentir que quase podia ver o que estava a acontecer lá fora... Então, numa bela tarde, ocorreu-lhe um pensamento: Por que é que o homem que ficava perto da janela deveria ter todo o prazer de ver o que estava a acontecer? Por que ele não podia ter essa oportunidade?
Sentiu-se envergonhado, mas quanto mais tentava não pensar assim, mais queria uma mudança. Faria qualquer coisa! Numa noite, enquanto olhava para o teto, o outro homem subitamente acordou a tossir. As suas mãos procuravam o botão que faria a enfermeira vir a correr. Mas ele o observou sem se mover... mesmo quando o som de respiração parou. De manhã, a enfermeira encontrou o outro homem morto e, silenciosamente, levou embora o seu corpo.
Logo que pareceu apropriado, o homem perguntou se poderia ser colocado na cama perto da janela. Então colocaram- -no lá, aconchegaram-no sob as cobertas e fizeram com que se sentisse bastante confortável. No minuto em que saíram, ele apoiou-se sobre um cotovelo, com dificuldade, a sentir dores, e olhou para fora da janela. Viu apenas um muro... natalícia, aturde a mente, amorfiza a alma. E a noção de agir bem parece até assumir contornos de nevoeiro.
Na rotatividade dos minutos tudo se passa como se os momentos em que se torna preciso pensar mais alto fossem sugados pelo relógio apressado das solicitações profissionais, familiares ou mesmo de ócio. Entre dois patamares, passando por ora na dimensão mais material, as barreiras vibratórias, as limitações mediúnicas, o esquecimento superficial de vidas passadas são cercas de Deus no trânsito pela presente fase evolutiva.
Seria muito confuso ter os pés no plano físico e a mente suspensa nos interesses da pátria diáfana de onde viemos. À maneira de lei da natureza, que limita para beneficiar, vemo-nos longe de faculdades fantásticas ou de uma janela permanente para o mundo espiritual. É bênção: só assim, nas vidas em que sonhamos ir mais longe, acabamos por definir objectivos, delineá-los bem e, depois, «dando a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», logramos alcançá-los passo a passo, nos bastidores do quotidiano, com o prémio na consciência do dever cumprido com abnegação, aquela forma singular de expressar inteligência em forma de amor.
