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Pesquisa Espiritismo e MedicinaQual a relação?

Jornal de Espiritismo nº 31 · Novembro 2008Página 106 min

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Foi este o tema do projecto que eu, enquanto aluna do primeiro ano de Medicina da Universidade do Minho, realizei no final do passado ano lectivo na ADEP. Partilharei convosco, então, como foi. Na Escola de Ciências da Saúde, todos os anos, no final do ano lectivo, podemos realizar um projecto sobre um tema à nossa escolha na instituição que quisermos, que no meu caso foi a ADEP, sendo-nos atribuído um orientador do local escolhido.

Ao fim de três semanas na instituição, redigimos um relatório escrito e, no final da quarta semana, fazemos a apresentação do nosso projecto a um júri de professores e aos nossos colegas. Espiritismo e Medicina parecem duas áreas distantes e sem relação para quem não conhece o Espiritismo ou para aqueles que acham que o papel do médico é unicamente tratar de doenças. Primeiro, tanto o conhecimento espírita quanto o médico trazem bem-estar ao ser humano.

Segundo, o bem-estar vai muito além da saúde física. Terceiro, o conhecimento da doutrina espírita pode abrir os olhos do médico para determinadas situações que de outro modo se poderiam confundir com patologias e explica alguns fenómenos com os quais este tem muitas vezes contacto. Quarto, pode estar aqui, na doutrina espírita, um importante contributo para a ciência, em especial para o conhecimento do funcionamento da mente e da relação mente-corpo.

Sendo já conhecedora da doutrina espírita, escolhi este tema pois, vendo pontos de contacto entre esta e a Medicina, queria aprender mais sobre o assunto, ver de que maneira a Ciência ia de encontro ao Espiritismo e desmistificar um pouco esta doutrina junto dos meus colegas, pois sei que pouca gente sabe do que ela trata realmente. Os meus objectivos eram ver de que maneira é que a componente espiritual do ser humano era importante para a Medicina e conhecer estudos científicos relacionados com o assunto, explorando tópicos como a ética médica, o bem-estar do ser humano, a terapia de passes, diferenciação entre doentes psiquiátricos e médiuns, regressão a vidas passadas e alguns fenómenos paranormais com os quais os médicos terão mais contacto e que são evidências para a existência do espírito.

Claro que tantos assuntos não podem ser devidamente aprofundados em tão pouco tempo. Aprofundar cada um deles ficará para outras oportunidades. Porém, este trabalho serviu para me inteirar do panorama científico na questão da existência e sobrevivência da alma após a morte e ver de que modo este tipo de conhecimentos é importante para a saúde e, portanto, para a Medicina. Para além de acompanhar o funcionamento da ASEB (Associação Sociocultural Espírita de Braga), entrevistei médiuns, procurei opinião médica na AME-Porto e fiz muita pesquisa de artigos científicos relacionados com o tema.

Ouvir as histórias de vida de alguns médiuns talvez tenha sido o que mais me tocou neste projecto. Passaram por muitas dificuldades, desde problemas de saúde de causa desconhecida a charlatanismo ou mesmo tentativas de suicídio. Nenhum daqueles que afirmaram ter procurado o médico aquando o despertar da mediunidade conseguiram uma ajuda satisfatória por parte deste. Os inconvenientes da mediunidade ostensiva descontrolada não cessavam e as pessoas procuraram outros meios, nem sempre os melhores.

Apenas sentiram algum alívio quando encontraram um centro espírita, onde lhes explicaram qual era o problema e os ajudaram como podiam, desde usando o passe para trazer algum equilíbrio à pessoa até, o mais importante, ensinando a pessoa a controlar a mediunidade. E o melhor é que, após algum tempo, passaram a ter uma vida normal. E estas pessoas contavam depois ao seu médico que descobriram a causa de todos aqueles sintomas estranhos?

Não, pois receavam que este as considerasse loucas. O diagnóstico médico era frequentemente depressão, cansaço ou diziam que a pessoa tinha tido alucinações. Outras vezes diziam simplesmente que não sabiam onde estava o problema. A mediunidade ou problemas espirituais não vêm nos livros de Medicina, mas há vários estudos sobre médiuns, os quais estes médicos, a quem algumas das pessoas com quem falei recorreram, certamente não conheciam.

Há tantas evidências para a existência e comunicabilidade dos espíritos que os médicos deviam começar a ter mais em conta estas hipóteses quando lhes surgem casos anómalos. Há cada vez mais estudos e mais cientistas a defenderem estas possibilidades. As visões de entes queridos falecidos no leito da morte, se podem ser explicadas por demência do moribundo, a mesma explicação não lhes pode ser atribuída para compreender como é que por vezes os familiares do doente também testemunham o fenómeno ou porque aparecem somente falecidos, por vezes sem que o moribundo tenha conhecimento do seu falecimento.

As experiências de quase-morte (EQM) são outro enigma para a ciência, pois o cérebro, com uma actividade quase nula, não pode criar uma experiência tão detalhada e rica quanto a pessoa descreve. As experiências fora do corpo (EFC), que podem ocorrer ou não durante uma EQM, são outro desafio, pois quem as vivencia consegue descrever situações que se passaram longe do alcance dos seus cinco sentidos. Que dizer então de cegos que fazem descrições visuais exactas do que vivenciaram durante uma EQM ou uma EFC?

E as crianças com memória de outras vidas, que fornecem dados exactos sobre a sua anterior identidade, como nome, morada e identificação dos anteriores familiares? E pelos vistos nem só nestes casos se tem acesso a memórias de outras encarnações. A regressão a vidas passadas sob hipnose é outro caso, que muitas vezes é usado por psicoterapeutas como terapia para fobias sem origem aparente na vida actual. Tudo é explicado pela existência e sobrevivência da alma após a morte.

Há tantas evidências para a existência e comunicabilidade dos espíritos que os médicos deviam começar a ter mais em conta estas hipóteses quando lhes surgem casos anómalos. A terapia de passes, usada em muitos centros espíritas, encontra fundamentação científica em estudos sobre curar com intenção ou através de magnetismo. E os estudos sobre a mediunidade demonstram que esta não está relacionada com distúrbios psiquiátricos.

Nada disto é surpresa para os adeptos da doutrina espírita e tudo encontra evidências na Ciência. Gostava de saber o que diriam os médicos dos médiuns com quem falei ao ver como os seus pacientes, a quem medicaram, fizeram exames e internaram sem solução, passaram a ter uma vida absolutamente normal após a ajuda de um centro espírita. Mostrariam preconceito ou ficariam interessados em estudar o assunto? A doutrina espírita, para além do equilíbrio que traz a quem a compreende e usa como guia, é uma luz para a Ciência.

O médico, que é muitas vezes a primeira ajuda que as pessoas procuram, se tiver conhecimento desta doutrina, vai conseguir chegar mais longe, dar mais respostas, compreender melhor o ser humano na sua totalidade e melhorar a sua relação com o paciente. Ainda há bastante preconceito no meio científico em relação à existência de uma realidade imaterial e os estudos, embora em número crescente de dia para dia, continuam a ser poucos, mas, contudo, já são alguma coisa.

Insensato seria ignorar o que se está a descobrir devido a ideias pré-concebidas. Mas sempre vai havendo alguma abertura e acredito que, um passo de cada vez, a componente espiritual do ser humano deixe de ser remetida para o domínio das crenças pessoais e passe a ser certeza no campo da Ciência. Está diante dos nossos olhos. Agradeço às pessoas que entrevistei pelo seu precioso contributo para este projecto, à Dra. LÌgia Almeida pelo tempo dispendido e pela significativa ajuda e aos membros da ADEP e da ASEB por todo o apoio, em especial ao meu orientador, Ulisses Lopes, que me forneceu contactos e muita informação, à Noémia Margarido, por todos os documentos e livros que me emprestou e à Eugénia Rodrigues, que me acompanhou mais de perto e me aconselhou.

Foi um trabalho que me deu imenso prazer realizar. Embora o projecto tenha sido curto, aprendi muito e muito mais há para aprender.