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Editorial Hoje e amanhã foto loucomotiv À partida, por que razão miste

Jornal de Espiritismo nº 36 · Setembro 2009Página 23 min

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Editorial Hoje e amanhã foto loucomotiv À partida, por que razão misteriosa atrairia aquela criatura, desde pequenita, sobre si a herança de roupa, de livros escolares ou do calçado do primo e do irmão mais velho? Seria decerto porque fazia jeito ao orçamento familiar. Além disso, não apreciava procurar roupa pela cidade, nem calçado, e tão-pouco se sentia atraído pelas enfadonhas grelhas escolares do século XX, salvo honrosas excepções.

Desinteressado desses pormenores de usados e novos, encaixava as benesses sem mácula na alma. Lá no fundo nem se apercebia do facto, até que, homem feito, veria o fenómeno a repetir-se com o cunhado, mais novo, o que agudizava a tendência. Aqueles sapatos castanhos, de Verão, estavam como novos. Mas, o do pé esquerdo, parecia revoltado assim que o calçava, quiçá por se encontrar numa hierarquia vertical inferior, e apertava a base do dedo grande.

Quanto mais andasse, mais pisava. Pensava o herdeiro: «Esta coisa de aceitar tudo, que aborrecimento! Até parece que não trabalho e não tenho direito a usar sapatos novos, confortáveis, meus», pensava. Mas, reflectia, «os sapatos estão novos, que pena não os poder usar». Vinham a calhar, até porque iria ter de comprar em breve. Num vislumbre, resolveu não desistir. No meio de uma mão-cheia de pensamentos diversos, lembrou-se de fazer uma experiência: se andasse com os cordões afrouxados, talvez resultasse...

aos poucos. Bem, como não tinha de jogar futebol com eles, a cada dia que os usava mais certeza tinha de que ele e o tal sapato do pé esquerdo se iriam entender. E assim foi. Pouco a pouco via que o sapato ia amansando... Sapatos e pessoas, tão diferentes, tão iguais. O tempo empurra-nos para diante e os caminhos abrem-se para escolhas pessoais, intransferíveis. Ano a ano, todos encaixamos na vida situações que não são propriamente as que mais gostaríamos de ter.

Como o sapato. As atitudes face a isso são ora a revolta, ora a maceração psicológica, ora a sabedoria de se defender com a paciência enquanto se cria condições para mudar para melhor. Domar a vida eanós próprios, paulatinamente, parece ser o caminho por onde nos deslocamos em busca de cenários mais atractivos, e, uma, mais fraternos, mais pacíficos, mais luminosos. Mais do que amansar sapatos rebeldes, com paciência, importa ver os outros nas suas melhores características potenciais, retirar das circunstâncias difíceis os ensinamentos construtivos, a fim de podermos ver além do imediato e perceber neste relógio grande a perene sabedoria de Deus, onde todos encaixamos no complexo mas perfeito puzzle da evolução.

Por Jorge Gomes Ali vai a lagarta, peluda que eu sei lá: corre no caminho sem apelo nem agravo. Olho-a e parece dizer: “Que vai ser de mim, agora que não consigo comer mais?”. Manda o instinto que se enterre adiante em terra fofa. Depois de perder o tino, em tempo certo, eclode, parece uma flor a linda borboleta. Ao ouvir a dentada de gigante na maçã, a pequenina semente estremece perante a morte: “Acabaram-se-me os dias!

”. Quando o burrico defeca sai estonteada... porém, incólume. Desmaiada por semanas, acorda na escuridão: “Nunca serei uma grande árvore...”. A chuva contradi-la. Toca-lhe. Discutem as células, dividem-se: umas mandam-na abrir-se, enlamear-se e subir; as outras afundam em sentido oposto. Uma luz surge, é a esperança, pensa... não, é o sol! “Poderei vencer cascos, doenças, predadores e vir a ser uma árvore generosa?”.

Passa o vento e diz: “Verás que sim”. O momento mais escuro da noite dá o sinal de partida ao Sol, do outro lado do Globo, para correr a alumiar a vida, ensina o Espírito Maria Dolores num dos seus livros de poemas psicografados pela mão de Francisco Cândido Xavier. Os dias difíceis de hoje são a passagem que nos transporta para um amanhã melhor. Não há por que sofrer demasiado ante as pontes do tempo. Mesmo sem asas, conseguiremos voar entre as constelações.