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Crónica Saber ser… professor Como professor seria imperdoável deixar p

Jornal de Espiritismo nº 37 · Novembro 2009Página 146 min

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Crónica Saber ser… professor Como professor seria imperdoável deixar passar o dia 5 de Outubro em “branco”! Não pela Proclamação da República em 1910! Não pela Independência de Portugal através do Tratado de Zamora em 1143! Mas sim por se celebrar, desde 1966, o Dia Internacional do Professor pela UNESCO. Como em todas as datas comemorativas, (que um dia não vão ser precisas), procura- -se reflectir sobre o evento em causa.

Antes de mais agradecer a todos aqueles que como Professores/Educadores formalmente ou informalmente contribuíram para o meu desenvolvimento “integral”( mesmo sem disso terem consciência!) Somos professores, somos os primeiros agentes de mudança (reconhecidos profissionalmente) para uma sociedade mais livre, mais justa, mais pacífica, mais ética, mais ecológica, enfim, mais espiritual…. Assumimos assim, elevadas responsabilidades sociais que muitas vezes negligenciamos!

Pode parecer ao professor comum algo “esquisito” falar-se de espiritualidade, quando normalmente esse campo é visto como crença pessoal, íntima, que não se deve mexer, quase como se de um tabu se tratasse. Para esse professor convém lembrar o seguinte, tendo em conta o D.L. n.º 49/2005 ( Lei de Bases do Sistema Educativo): “O Sistema Educativo Organiza-se de forma a: (Artigo 3.º) b) Contribuir para a realização do educando, através do pleno desenvolvimento da personalidade, da formação do carácter e da cidadania, preparando-o para uma reflexão consciente sobre os valores espirituais, estéticos, morais e cívicos e proporcionando-lhe um equilibrado desenvolvimento físico; c) Assegurar a formação cívica e moral dos jovens; d) Assegurar o direito à diferença, mercê do respeito pelas personalidades e pelos projectos individuais da existência, bem como da consideração e valorização dos diferentes saberes e Culturas”.

Assim, nada mais normal, que submeter à reflexão consciente os valores espirituais (e não apenas de uma crença, religião, doutrina…), valorizando assim os diferentes saberes e culturas! Poderíamos também consultar o relatório “Educação: um tesouro a descobrir” Comissão Internacional para a Educação séc.XXI – UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Aqui apresentam-se os principais “Pilares da Educação” a saber: 1 – Aprender a Conhecer.

2 – Aprender a fazer. 3 – Aprender a Viver Juntos. 4 – Aprender a SER. Salientamos o último pilar, onde se pode ler: aprender a ser. A Comissão reafirmou que a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa, isto é, espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade. A educação tem como papel essencial “conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos do seu próprio destino”.

Por sua vez a Convenção dos Direitos da Criança ratificada por Portugal em 21/9/90, diz-nos no artigo 27.º: «1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito a um nível de vida suficiente, de forma a permitir o seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social». E, artigo 32.º, «1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito de ser protegida contra a exploração económica ou a sujeição a trabalhos perigosos ou capazes de comprometer a sua educação, prejudicar a sua saúde ou o seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral ou social».

Pelo que atrás foi referido, fica reconhecida a importância do desenvolvimento espiritual na criança e, automaticamente os professores estarão implicados nesse processo! A questão que se coloca é, como o fazer? Como o professor despertará o outro para a espiritualidade, quando ele ainda não faz? Como poderá faze-lo aquele que é agnóstico, ateu, ou se encontra dogmatizado nesta ou naquela doutrina? Assim, antes do desenvolvimento espiritual do aluno o professor é responsável pelo seu próprio desenvolvimento, pelo seu despertamento, pela sua busca interior, pelo seu estudo….

de todas as doutrinas, filosofias, crenças! Afinal só assim estará em condições de racionalmente, com dados objectivos e científicos seguir o seu caminho… espiritual! Nós, professores, que já fizemos (e continuaremos a fazer) esse caminho de estudo, de análise em primeira mão das Verdades Universais (reveladas pelo Espiritismo e não exclusivas dele!) temos de parar e reflectir… na nossa reforma íntima, promovendo a dos outros pelo nosso exemplo.

Assim a Pedagogia Espírita, em primeiro lugar, “aplica-se” ao Professor (como criador de espaços/momentos de “aprendizagem”) pois é dele, da forma como “percebe” o (conceito de) “aluno” que utilizará a prática pedagógica mais adequada! É aqui que a Pedagogia Espírita baseada na Codificação da Doutrina Espírita revela todo o seu potencial dando mais um (grande) passo em frente em relação a outras pedagogias espiritualistas existentes (Transpessoal, Waldorf, Krishnamurti, …).

Passaremos a expor alguns pontos achados fundamentais pela Pedagogia Espírita no relacionamento Professor-Aluno: reconhecer que o aluno é tal como o professor um espírito encarnado; reconhecer que o aluno é um irmão espiritual; reconhecer que esse aluno pode estar mais evoluído (moralmente e intelectualmente) e ser mais velho que o professor; reconhecer que esse aluno, tal como cada um de nós, tem todo um passado que o condiciona, e que tem todo o potencial para evoluir, moral e espiritualmente rumo à perfeição; reconhecer que esse aluno (até cerca dos sete anos) apresenta condições mais favoráveis para a assimilação de valores mais elevados; reconhecer que esse aluno (na adolescência) evidencia de forma mais intensa o seu verdadeiro carácter espiritual, resultante das aprendizagens das vivências anteriores; reconhecer que esse aluno, não aluno de determinado professor por acaso, que pode ter tido com ele e vice-versa inúmeras relações “afecto e/ou desafecto” que tem de harmonizar; reconhecer que esse aluno tem o direito a ser Livre, Curioso, Feliz, a Ter RESPOSTAS, e que só com o despertamento espiritual é possível!

Contudo, tal não significará jamais doutrinação espírita; reconhecer que o aluno é “livre” de não “aprender” formalmente, mas que jamais deixa de apreender e que tal influência (presencial ou não) resistirá a inúmeras reencarnações; reconhecer que esse aluno tem direito ao único ambiente potenciador de evolução (moral/intelectual) que é a paciência, carinho, ser ouviiiiiiiiiiiiido, enfim ao AMOR; reconhecer que a relação professor / aluno é uma relação de espírito para espírito; reconhecer que ser professor é um acto de AMOR!

E como tal tem a assistência do mundo espiritual; reconhecer que o professor tem a responsabilidade de desenvolver nos jovens o sentido de “Saber Ser” em todas as suas dimensões (Espiritual, Psíquico, Físico, e Social). Estes, entre outros, são aspectos que alargam a nossa consciência na tentativa de perceber o (conceito) de aluno. Assim, antes da prática pedagógica espírita, temos de estudar, reflectir e evoluir nosso Ser, num sentido conducente com a mensagem de Jesus e com os princípios assentes na Codificação Espírita!

Nenhum professor pode transmitir (e não digo pela palavra) paz, tranquilidade, saúde, alegria, sabedoria, espiritualidade… se não a possui! Este é o primeiro grande passo do ProfessorConhecer-se… Ficam, finalmente algumas ideias para reflectir, cujas ilações levarão a que a Pedagogia Espírita, cresça, solidifique e que se apresente como uma alternativa reconhecida para revolucionar o nosso Sistema Educativo: “Aqui não há ninguém a ensinar nem ninguém a ser ensinadocada um de nós está a aprender.

” – Krishnamurti. “As crianças não são animais de estimação para serem domesticadas; não são barro para moldar, não são computadores para programar e, acima de tudo, não são vasos para se encher.” - Alfie Khon. “Não acredito no currículo, não acredito em notas, não acredito em avaliações feitas por professores. Acredito em crianças aprendendo, com o nosso apoio e encorajamento, as coisas que elas querem aprender, quando as querem aprender, da forma como as querem aprender e porque as querem aprender.

” John Holt. “As nossas escolas transformaram-se em fábricas enormes para a produção de robôs. Nós já não mandamos os nossos filhos para a escola para serem ensinados e para que lhes sejam dadas ferramentas para pensar; nem sequer para serem informados ou adquirirem conhecimentos, mas para serem “socializados” - o que, na semântica actual significa serem submetidos ao sistema e forçados a se conformar.” Robert Lindner, (1956).

“Aprendemos para obter uma recompensa ou para evitar um castigo. Aprendemos a fazer qualquer coisa para ganhar a vida. Mas agora pergunto: há outro tipo de aprendizagem? Vocês têm de ir trabalhar para a fábrica ou para o escritório todos os dias das vossas vidas. Levantam-se às 6 horas, vão para o trabalho e depois trabalham, trabalham, um trabalho rotineiro, durante 50 anos, dão-vos chutos e pontapés, são insultados, mas continuam devotos ao sucesso.

Essa é uma vida monstruosa. E é para isto que estamos educando os nossos filhos?” Krishnamurti. Votos de boas reflexões.