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Editorial foto loucomotiv Alimentar a alma Apesar da distância no cale

Jornal de Espiritismo nº 43 · Novembro 2010Página 25 min

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Editorial foto loucomotiv Alimentar a alma Apesar da distância no calendário, o ritmo do comércio já começou a gizar a quadra natalícia e, mais tarde ou mais cedo, nalguma cidade teremos de calcorrear um centro comercial. Dependendo das tendências, há quem goste. E por que não? Numa dessas idas incontornáveis a este tipo de mercado, doutorado na ciência do consumo, eis-nos a subir escadas rolantes, a descer, a subir, a descer… Numa dessas incursões, parece mentira, uma escada livre, a subir.

Para quê ficar parado? Temos objectivos? Claro, é mexer as pernas. A função faz o órgão, já professava o velho Lamarck. Bem, nestas diferenças todos vêem o assunto de maneira peculiar. Chegado lá cima, onde pára a família? Há que aguardar. Dali não é viável fechar os olhos: a escada rolante que desce vai apinhada e, para não variar, está tudo parado. Ali até dá para imaginar que se vai de teleférico. Para quê dar trabalho ao corpo?

A mente continuaria livre. O dispositivo de transporte de clientes adivinha o desejo de quem apanha a boleia e os donos do mercado criam desejos a quem ali anda. Mentes estagnadas levam-se melhor. Parece que – em tempo de crise, a mais grave de que há memória nas últimas décadas – as facilidades desejam-se. Se não se precisa de mexer uma palha, para quê pensar em agitação? Que canseira. Só que esta também se cultiva.

É uma questão de atitude. Se calhar não há uma diferença tão distinta entre a materialidade e o espiritual. Este último elemento acaba por estar em tudo, por dentro, por fora do que se oferece à vista. E quantas vezes – sem qualquer presunção de uma superioridade – numa reunião mediúnica em que se atende alguém ainda aturdido com a mudança para o plano espiritual, não se verifica que “os outros” estão no lugar do que o “eu” poderia ter já feito por si próprio, englobando os outros nessa mesma atmosfera de fraternidade?

Para todos nós, a passagem pelo planeta obedece a planos maiores e encontramo- -nos com frequência no lugar do viajante que caminha dezenas de quilómetros numa planície. O horizonte é acanhado. Mas aquele que subiu a uma montanha consegue ver mais longe e, após as vicissitudes de um certo troço do percurso, percebe que há um ganho de maturidade, capaz de melhorar o longo percurso que ainda vem pela frente. Dizem os espíritos sábios que já vivemos muitas vezes e as leis naturais não se restringem ao mundo material.

Existe outro tipo de leis, as morais, que regem e se manifestam especialmente no imo do ser. Num dos seus ângulos uma é a da caridade, “tal como a entendia Jesus”. Bem, agora estou na última escada rolante e estão vinte pessoas à frente… paradas. Se não os podes vencer junta-te a eles, é rápido. Ou então tens de te fazer ouvir vinte vezes: «Dá-me licença?». Ufa! Já dá para ir embora. O jornal vai fechar a edição mesmo em cima do prazo.

Texto: Jorge Gomes Por várias vezes, Chico declinou convite para uma pescaria. Como houvesse insistência de amigos, acabou por aceitar, a fim de não sustentar uma recusa que poderia magoá-los. Numa bela manhã, reuniu-se o grupo à beira de um barranco no rio. Horas depois, o pessoal havia pescado boa quantidade de peixes. Quanto ao médium, nem um! Os peixes passavam junto ao seu anzol sem nenhum interesse, e logo eram fisgados pelos demais pescadores.

Estranho! Seria um fenómeno mediúnico? Instado a responder sobre o assunto, Chico explicou: – É que não coloquei a isca. – Ora essa, porquê? – Não queria incomodar os peixes… A atitude de Chico é típica dos Espíritos evoluídos que vêm à Terra para grandiosas missões em favor da Humanidade. Eles cultivam o que Alber t Schweitzer chamava de Reverência pela Vida. O notável médico alemão, uma das figuras humanas mais ilustres do século passado, era incapaz de matar uma mosca.

Dirá o prezado leitor que, levada às últimas consequências, esse princípio, seria o fim da vida animal na Terra, já que, ver tebrados e invertebrados, não nos alimentamos de minério. Somos todos heterotróficos. Fique tranquilo. É uma palavra grande, não um palavrão. Heterotróficos são os seres que não conseguem acumular energia directamente, via luz solar, como os autotróficos (outra palavrona), os seres do reino vegetal.

Heterotróficos, estamos integrados na famosa cadeia alimentar, em que seres vivos alimentam-se de outros tantos. Os Espíritos superiores vivem em planos mais altos do Infinito, onde não existem os hábitos alimentares que fazem a matança na Terra. Quando apor tam em nosso planeta para gloriosas missões, repugna-lhes a ideia de que devem se alimentar matando seus irmãos inferiores. Daí essa reverência pela vida, exercitada por figuras inesquecíveis como Chico Xavier e Alber t Schweitzer.

Mas, afinal, perguntará você, do que se nutrem os Espíritos que vivem em planos mais altos do Infinito? Creio que a resposta está com Jesus (João, 4:32-34): O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai que está nos Céus! A vontade de Deus é que nos amemos uns aos outros, conforme ensinava o Mestre, o que significa que o amor é o alimento das almas. E, quanto mais se aproxima o Espírito da per feição, superando os liames da matéria, maior a sua capacidade de amar, nutrindo-se de amor, em planos onde inexistem as necessidades biológicas, em corpos de densa matéria.

Considerando que somos Espíritos encarnados, obviamente necessitamos de dois tipos de alimento: Para o corpo, exercitando a heterotrofia... Para a alma, exercitando o amor. Quanto a este último, há um detalhe marcante. Para alimentar a alma, não vale o amor que recebemos. Este apenas alimenta o ego. Só vale o amor que damos, exercitando o empenho de fazer ao próximo o bem que gostaríamos nos fosse feito, como ensinava Jesus.

Assim como é preciso alimentar o corpo, diariamente, é fundamental atender a alma. Pessoas que não o fazem são subnutridas espiritualmente, habilitando-se a tristezas e angústias, em crónica infelicidade, a anemia da alma. Por falar nisso, leitor amigo, já alimentou a sua alma hoje?