Literatura | Vídeo Pala Agonia das religiões
Jornal de Espiritismo nº 43 · Novembro 2010Página 198 min
Literatura | Vídeo Pala Agonia das religiões J. Herculano Pires Este ensaio do saudoso professor, J. Herculano Pires, que teve a sua primeira edição em 1976 (Edições Paidéia, São Paulo), é constituído por uma introdução e 14 capítulos, que nos ajudam a compreender a diferença entre o Espiritismo, as religiões e a Religião. Compreendemos, ainda, de forma clara, a posição do Espiritismo perante o sobrenatural, o misticismo e os dogmas religiosos.
Mais importante que os comentários que possamos fazer, passamos a palavra ao professor, nos extractos que constituem verdadeiras pérolas do seu saber e que nos confirmam de forma evidente ser o maior intérprete do pensamento de Allan Kardec. Aliás, um dia o próprio Emmanuel elogiou- -o (o que um espírito superior nunca faz a quem ainda luta no corpo) ao dizer ao Chico Xavier para lhe enviar as mensagens que recebia, solicitando os seus comentários para «todos nos edificarmos».
Vejamos os livros, Chico Xavier Pede Licença, Diálogos dos Vivos, Astronautas do Além e Na Era do Espírito. A leitura destes extractos são um estímulo e um convite à leitura e estudo do livro, que muito contribuirá para ampliarmos e consolidarmos a nossa cultura doutrinária, ainda precária e muito presa a atavismos religiosos tradicionais. Passemos então a palavra ao emérito professor: 1. «O ponto crucial do problema religioso chama-se hipocrisia.
E a hipocrisia resulta das atitudes egoístas, da falta de compreensão do verdadeiro sentido da Religião que é o caminho e não ponto de chegada da espiritualização do homem. Os religiosos que pretendem atingir a santidade do dia para a noite, que se revestem de pureza exterior, encobrindo a podridão interior, são os hipócritas condenados veementemente no Evangelho. A solução desse grave problema, que responde pela morte cíclica das civilizações, está na compreensão da verdadeira natureza do homem, do processo natural do seu desenvolvimento espiritual.
Os artifícios purificadores só servem para mascarar os indivíduos pretensiosos. As práticas ascéticas não podem ser forçadas. As paixões e os instintos do homem são manifestações de forças vitais que, sob o controlo da razão e do sentimento, podem e devem guiar o espírito nos rumos da transcendência.» (Introdução) 2. «(...) Mas todos os expedientes mostram- -se incapazes de restabelecer o prestígio e os poderes religiosos, servindo apenas de remendos de pano novo em roupa velha, segundo a expressão evangélica.
Começam então a aparecer os sucedâneos, milhares de seitas forjadas por videntes e profetas da última hora, na maioria leigos que se apresentam como missionários, taumaturgos populares, místicos improvisados e de olhos mais voltados para os bens terrenos do que para os tesouros do Reino dos Céus. Esses bastardos do espírito, que pululam por toda a parte, caracterizam o fenómeno sociocultural da morte das Religiões.» (Cap.
I) 3. «Em nosso século, o desenvolvimento acelerado das Ciências, a laicização do Estado e da Educação, a desagregação da família, a expansão cultural earápida modificação dos costumes e do sistema de vida pelo impacto da Tecnologia fortaleceram a concepção pragmática e materialista dando o golpe de misericórdia no sobrenatural (1) e nos sistemas religiosos que nele se apoiam. A etiologia da decadência das religiões torna-se palpável.
Seria simples tolice querer negá-la.» (Cap. I) 4. «A dicotomia kantiana, que negou a impossibilidade do conhecimento extrasensorial, foi superada pelas conquistas físicas e psicológicas de hoje. O sobrenatural (1) mudou de nome, é apenas o natural desconhecido que a investigação científica vai rapidamente integrando no Conhecimento Global da realidade una.» (Cap. I) 5. «O problema da religião no Espiritismo tem provocado discussões e controvérsias infindáveis, porque essa doutrina não se apresenta como religião no sentido comum do termo.
Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, adoptava a posição do seu mestre no tocante à classificação das religiões. Pestalozzi admitia a existência de três tipos de religião: a animal ou primitiva, a social e a espiritual. Mas recusava-se a chamar esta última de religião, dando-lhe a designação de Moralidade. Isso porque a religião superior ou espiritual, segundo ele, só era professada individualmente pela criatura que superava o ser social e desenvolvia em si o ser moral.
Kardec recusou-se a falar em Religião Espírita, sustentando que o Espiritismo é doutrina científica e filosófica, de consequências morais. Mas deu a essas consequências enorme importância ao considerar o Espiritismo como desenvolvimento histórico do Cristianismo, destinado a restabelecer a verdade dos princípios cristãos, deformados pelo processo natural de sincretismo-religioso que originou as igrejas cristãs.» (Cap.
III) 6. «No campo filosófico a posição espírita é também vanguardeira, pois desde o século passado (séc. XIX) sua filosofia apresenta- se como livre dos prejuízos do espírito de sistema, conservando-se aberta a todas as renovações que decorrem de descobertas científicas comprovadas. Livre da dogmática religiosa e da sistemática científica, a doutrina está de facto a cavaleiro das crises da actualidade.» (Cap. III) 7.
«O espiritualismo simplório e o materialismo atrevido são os dois pólos da estupidez humana. O bom senso, que é a regra de ouro do Espiritismo, livra-nos da estupidez e oferece-nos a possibilidade de chegarmos à sabedoria sem muito barulho e disputas inúteis.» (Cap. V) 8. «Mas existe outro factor determinante da desconfiança científica em relação aos princípios espíritas, que é o instinto de conservação, agente preservador da integridade do homem e das suas realizações.
Esse instinto, bem manifesto no sociocentrismo das instituições científicas ou de qualquer outra natureza, reage contra tudo o que possa modificar o saber já considerado como adquirido. Recentemente (estamos em meados da década de 70 do século XX), o Prof. Remy Chauvin, do Instituto de Altos Estudos de Paris, denunciou a existência no campo científico de uma alergia ao futuro, responsável pela rejeição liminar, sem exame, de toda a novidade, mesmo que sustentada por cientistas categorizados.
Essa neofobia tem produzido muitos mártires no campo científico e cultural em geral.» (Cap. VI) 9. «Criado do limo da terra, segundo a alegoria bíblica, arrancado das entranhas do reino mineral, segundo a teoria evolucionista espírita, o homem está ainda em formação, em desenvolvimento, amadurecendo nas experiências que enfrenta na existência corporal. O corpo é o seu instrumento de evolução. Um instrumento vivo e activo que ele precisa controlar pela força do espírito.
Na proporção em que avança, o espírito impõe-se ao corpo e domina-o. A dialéctica da evolução torna-se nele um processo consciente. É o responsável único pelo sucesso ou fracasso, do seu destino. Deus está nele como um poder mantenedor e orientador, mas não punitivo. Ele mesmo castiga-se ante o tribunal da sua consciência. Quando se dispõe a progredir, o prémio que recebe é a graça que o fortalece para que possa vencer o mal.
Ninguém pode perdoar os seus erros, apagar as suas faltas. Dispõe da jurisdição de si mesmo e supera o seu condicionamento determinista pelas decisões do seu livre-arbítrio. Juiz e réu ao mesmo tempo, pode julgar-se com pleno conhecimento de causa.» (Cap. VI) 10. «No Espiritismo a dúvida é considerada como condição necessária à busca da verdade. Kardec a aconselha como método de controlo das manifestações mediúnicas e de estudo dos princípios doutrinários.
Tendo mostrado que os espíritos são criaturas humanas desencarnadas, libertas do corpo material pela morte, e que muitos deles manifestam-se para sustentar ainda opiniões erradas que esposaram na Terra, aconselha a análise constante e o exame atencioso das manifestações, que devem ser rejeitadas quando revelarem conceituações absurdas. (...) Ao não aceitar a revelação espiritual de maneira gratuita, mas submetendo-a ao controlo da razão, Kardec não violenta a intenção dos Espíritos superiores, que desejavam dele precisamente essa atitude.
» (Cap. IX) 11. «A superação da dúvida no Espiritismo não se faz através dos métodos subjectivos da meditação religiosa e do êxtase místico, mas do método científico de pesquisa. Foi o que Richet reconheceu e louvou em Kardec, como se vê logo no início do Tratado de Metapsíquica.» (Cap. IX) 12. «O Misticismo tem suas origens remotas no êxtase dos pagés, que no meio das selvas procuravam o contacto directo com os espíritos protectores das tribos.
O pressuposto do misticismo nas eras civilizadas é a possibilidade humana de superação dos sentidos e da razão para se obter o conhecimento superior nas fontes divinas. Esse pressuposto conduz os homens a uma fuga da realidade. No Espiritismo as práticas místicas são condenadas por dois motivos fundamentais: 1º) Porque o homem está no mundo para viver o mundo com o fim de desenvolver na experiência da vida de relação, as suas potencialidades internas; 2º) Porque a ligação do homem com Deus faz-se através do amor ao próximo, na prática da caridade (que é amor em acção) e de maneira natural, sem necessidade de práticas rituais ou do emprego de excitantes de qualquer espécie.
As pessoas que consideram o Espiritismo como doutrina mística, confundem fenomenologia com as práticas do misticismo.» (Cap. X) 13. «Não devemos extraviar-nos nas ilusões da Terra, para não retardar a nossa evolução para Deus. Entre essas ilusões estão a da santidade fácil, a da hipocrisia que nos leva a considerar-nos melhores que a maioria, a da pretensão de podermos passar através de ritos e sacramentos ao mundo dos eleitos, a audácia de querermos ouvir a voz de Deus em particular, enquanto ela soa no mundo para todos ouvirem.
O maior pecado é o da fuga à vida, às experiências que nos desafiam. Nascemos para viver a vida e precisamos vivê-la sem apego às coisas do mundo, mas sem rejeição ao mundo, que é obra de Deus. Esse difícil equilíbrio é o objectivo da nossa ginástica existencial.» (Cap. XII) 14. «A simplicidade de Kardec é tão enganadora como a de Descartes. À maneira do Discurso do Método, O Livro dos Espíritos é um desafio permanente à argúcia e ao bom senso dos sábios do mundo.
Esses dois livros lembram-nos a simplicidade enganadora dos ensinos de Jesus que os teólogos enredaram em proposições confusas, não compreendendo o seu sentido profundo e impedindo os simples de compreendê-los.» (Cap. XIII) 15. «Kardec sabia o fazia, quando evitava a confusão do Espiritismo com as religiões dogmáticas e formalistas, sem entretanto negar ao Espiritismo o seu aspecto religioso. Teve mesmo o cuidado de não cortar em excesso as ligações da doutrina com a tradição religiosa, pois sabia que a evolução não pode sofrer, sem graves perigos, de solução de continuidade.
» (Cap. XIII) 16. «A vantagem do Espiritismo, entre todas as doutrinas filosóficas do nosso tempo, é a de colocar os problemas do homem, mesmo no campo religioso, em termos de razão e naturalidade, eliminando os resíduos do sobrenatural que pesaram esmagadoramente sobre o passado, sem cair no cepticismo e no agnosticismo.» (Cap.
