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Jornal de Espiritismo nº 44 · Janeiro 2011Página 23 min
episódio não saiu de um lar de horrores. Deparei com ele em casa de um amigo, onde as pessoas se dão bem e não cultivam conflitos a toda a hora. «Já é a segunda vez no mesmo dia que me diz isto», sublinha o pai, discreto. O pequenito de oito anos tinha acabado de dizer, com estranheza, olhar desprendido do jogo hipnótico do computador: «Tu nunca gritas comigo…».
Na sua mente de asperger, uma das múltiplas formas do autismo florescente das sociedades poluídas*, o facto estava a ser visto como uma anomalia… As regras são entendidas como o procedimento certo, matemático, onde o binómio preto e branco exclui qualquer tom de cinza. Comecei a supor que se calhar na escola alguém lhe berra, paciência atrofiada, por achar que não há outras formas de olhar e de comunicar no mundo; em casa a tolerância dos familiares também se esgota quando o infante se irrita com o jogo electrónico que a dada altura lhe coloca barreiras, seja o irmão, ou a própria mãe que traz trabalho para concluir em casa.
O pai também chega cansado, e o ocasional praguejar contumaz vai massacrando a cabeça. Desta vez, era o jogo que não arrancava no computador lento. Os deditos do miúdo clicavam demasiado, os processos de arranque sucediam-se e o processador de dados patinava. O pai partilhava a cadeira com o petiz, expedito, mas desta vez não resolvia o problema. Do fundo do turbilhão a criança pedia ajuda daquela maneira mas estavam todos ocupados no circuito fechado dos seus interesses.
Examinados os ícones desconhecidos, o pai reiniciou – manobra rotineira – a máquina e experimentou outro caminho. Como uma lotaria, resultou. Foi nesse momento que o petiz o olhou, admirado, e disse: «Tu nunca berras comigo…». O pai deste menino raramente gritará, suponho. Antes de ter de o fazer dá tempo ao tempo e primeiro pergunta como pode dar a volta ao caso sem fracturas dessa ordem. Aprendeu isso com a doutrina espírita, mas acredito que já deveria trazer dentro de si a tendência, trabalhos antigos, de outras vidas.
E depois do cenário que ali se desdobrou ficam em aberto os afectos que são capazes de buscar frequentemente soluções de onde emerge a paz e a alegria, nos exercícios evolutivos a que somos chamados nas vidas sucessivas, na erraticidade, tudo para que o horizonte entrevisto de sabedoria e amor se defina com pormenores difíceis de antever. Num ano de crise, quando a paciência se esfuma ao rigor do tempo, saibamos todos retê-la para que a lucidez das melhores soluções possa ser a companheira do quotidiano que ninguém quer longe.
Boa leitura! Texto: Jorge Gomes * Investigação recente que envolveu vários países, multidisciplinar, demonstrou que o autismo não se resume à hereditariedade. Monge e discípulos iam por uma estrada. Quando passavam por uma ponte, viram um escorpião a ser arrastado pela água. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e salvou o bicho com a mão. Quando o trazia para fora, este picou- -o e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio.
Na margem arrancou um ramo de uma árvore, correu pela margem, adiantou-se outra vez e entrou no rio. Colheu o escorpião e salvou-o. O monge juntou-se de novo aos discípulos na estrada. Eles tinham visto a acção e demonstravam uma atitude de perplexidade: - Mestre, deve estar a doer muito! Porque foi salvar esse bicho ruim? Não seria preferível que ele se afogasse? Seria um a menos. Veja como ele respondeu à sua ajuda: picou a mão que o salvara!
Não merecia sua compaixão! O monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu: - Ele agiu conforme a sua natureza, e eu de acordo com a minha. Esta história faz reflectir sobre a forma de melhor compreender e aceitar as pessoas com que nos relacionamos. Não podemos e nem temos o direito de mudar o outro, mas podemos melhorar as nossas próprias reacções e atitudes, sabendo que cada um dá o que tem e o que pode. Devemos fazer a nossa parte com amor e respeito ao próximo.
Cada qual conforme a sua natureza, e não conforme a do outro. (Autor desconhecido) In: www.omensageiro.com.br/mensagens/ mensagem-160.
