Entrevista Sabemos que orienta “O Remanso Fraterno” , que é uma instit
Jornal de Espiritismo nº 44 · Janeiro 2011Página 1110 min
Entrevista Sabemos que orienta “O Remanso Fraterno” , que é uma instituição que apoia crianças. Raul Teixeira – Sou um dos directores, sim. Apoiamos crianças socialmente carentes e as famílias dessas crianças. Fazemos um trabalho de escolarização. Elas entram às 7h30 da manhã, saem às 17h00. Temos transporte para as ir buscar e devolver aos mesmos lugares. Os pais vão deixá-las e vão buscá-las aos mesmos lugares. Como é que se meteu com uma trabalheira destas, quando podia levar uma vida tão boa como professor universitário?
Raul Teixeira – O que ocorre é que eu sou um professor universitário espírita, e sempre, desde jovem, fiz palestras espíritas, pregando a fraternidade e a caridade como bandeira. Os bons espíritos entenderam que era importante que o meu falar tivesse o respaldo da minha prática. A minha prática de vida pessoal era uma prática já vivida por mim, ainda que com esforços, mas a minha prática social precisava de ser desenvolvida.
Em 1978 reuni um grupo de companheiros e começámos a atender numa das favelas da minha cidade. Durante 2 anos atendemos ali, fundámos, em função disso, a sociedade espírita, logo o nosso trabalho social começou antes da fundação do Centro Espírita da Sociedade Vida Fraternidade. Depois dessa sociedade fundada nós não pudemos mais manter os trabalhos sociais na mesma favela, porque ela foi urbanizada pelo Governo e não nos permitiram mais qualquer espaço físico.
Como tínhamos o trabalho de reforço escolar, de aulas de costura com as mães, etc., precisávamos de espaço físico. Daí saímos para adquirir um terreno de 50 mil m2 onde instalámos há 22 anos o «Remanso Fraterno» e dessa maneira o Remanso vem sendo o braço social da Sociedade Espírita Fraternidade, embora a sociedade tenha nascido a partir desse trabalho social na favela. O Raul seguiu um chamamento, uma opção interior, ou foram os espíritos que lhe propuseram essa tarefa?
Raul Teixeira – Não, eu não tive nenhum desejo pessoal de começar alguma coisa, de fazer alguma coisa. Desde criança fui chamado pelo mundo dos espíritos. Até onde a minha memória alcança, tinha dois anos e meio de idade quando comecei a registar os espíritos e digo até onde a minha memória alcança porque comecei a registar os espíritos atravessando as paredes, descendo o tecto, conversando com a minha mãea minha mãe ainda era encarnada e era médium, vidente, audiente, médium de efeitos físicos.
Nasci num lar de médiuns. Não eram espíritas. Eram médiuns a minha mãeea minha irmã mais velha. Perguntava à minha mãe, muito criancinha, o que era aquilo que eu estava vendo, quem eram aquelas pessoas que atravessavam paredes e ela dizia-me naturalmente, para acatar a minha mentalidade infantil, que eram os nossos irmãos de luz e eu fiquei com essa frase na minha cabeça. A minha mãe desencarnou quando eu tinha apenas 4 anos de idade, logo, as memórias que eu tenho dela foram até essa data e depois disso envolvi-me com trabalhos da igreja católica, o meu pai colocou-me aí porque naquela época as famílias, mesmo que tivessem mediunidade, todos se diziam católicos, porque não se conhecia na nossa região nenhum centro espírita.
Depois dos meus 17 anos, continuando aqueles registos, é que pude conhecer o Espiritismo. Nas minhas conversas com o sacerdote, ele sempre me orientava para ler a Bíblia. Aos 14 anos tinha lido a Bíblia cinco vezes de ponta a ponta. Ele dizia que o que eu via era o Satanás. Eu dizia-lhe que via a minha mãe e ele dizia que era o Satanás que se fazia passar por minha mãe. Eu dizia que eles me davam bons conselhos, ele afirmava-me que o Satanás também dá bons conselhos e então foi-me criando muita confusão na cabeça.
Então se Deus dá bons conselhos e Satanás também, é difícil a gente optar com quem fica. Conversando com um amigo, José Luís Vilaça, ele disse-me que frequentava um grupo de jovens espíritas e que se quisesse ir lá visitá-los, me levaria. Eu fui, atendendo o convite. Conheci o grupo e desde 1967, vinculei-me observando que tinha uma suposição bastante equivocada a respeito do que fosse o Espiritismo. Um grupo de jovens espíritas parecia-me uma coisa muito surreal.
Acabei por me encantar, porque achei jovens da minha faixa de idade alegres, joviais, estudando, conversando, cantando, tudo com seriedade, e toda uma mensagem que eu vim a saber que era a doutrina espírita. Estudei, li avidamente os livros da codificação espírita, os livros que me caíram na mão. O primeiro livro que eu li, antes de estudar Kardec, foi o livro de Leon Denis, «O Problema do Ser, do Destino e da Dor», que me causou viva impressão, uma paixão imensa até hoje e só depois de Leon Denis é que eu comecei a estudar os livros de Allan Kardec.
Recebi outro impacto forte ao perceber que as ideias de Allan Kardec eram exactamente as coisas que eu pensava e que não imaginava que estivesse devidamente escrito, codificado, organizado. Nesse primeiro dia em que conheci um centro espírita na actual encarnação, por ser muito tímido, eu vi a aula daquele dia muito bem ministrada pela professora, até que ela me perguntou, para me tirar com certeza do silêncio, o que é que eu sabia sobre o tema tratado.
Naquela tarde estudava-se sobre a 1ª. Revelação de Deus ao Ocidente, falava sobre Moisés e quando eu ouvia falar de Moisés a minha alma fervia, porque eu tinha lido a Bíblia 5 vezes, eu tinha tudo de Moisés na cabeça. Nesse momento tive uma sensação muito estranha porque a língua pareceu-me crescida dentro da boca, o peito cresceu-me e eu falei durante 20 minutos sem parar, sem pôr vírgulas, sem pontos, sem nada. Falei num estado de semitranse, sem raciocinar sobre o que falava.
Quando parei de falar ela me anunciou, e à classe, que não tinha mais aula para dar, porque eu tinha falado tudo o que ela programara para a aula da tarde. E ficámos a conversar sobre o que eu tinha falado. Realizei a minha primeira palestra e nunca mais parei. Até hoje... Raul Teixeira – Até hoje. Com isso já se vão 44 anos, retendo a felicidade de ter conhecido o Espiritismo através do Espiritismo. Não conheci o Espiritismo através de médiuns de mediunidade famosa, não me cerquei dessas coisas, apaixonei-me pelo Espiritismo, pela ideia, pela proposta, pela mensagem.
Daí até hoje tenho muita dificuldade em admitir que um movimento espírita possa enraizar-se quando ele nasce em redor de médiuns e de mediunidade, porque na medida em que os médiuns falham, em que os médiuns se equivocam, uma vez que são seres humanos, tudo o que foi criado em cima deles desaba junto. Quando se torna espírita em torno da doutrina espírita, quem quiser pode cair, quem quiser pode levantar-se, você está com o espiritismo.
Essa tem sido a minha felicidade até hoje de ter começado pelo espiritismo e ter tido muita resistência por aceitar a mediunidade em mim, resisti muito e quem me ajudou sobremodo nessa minha fase inicial do espiritismo para que eu aceitasse a mediunidade, admitisse a mediunidade, foi Divaldo Franco. Devo-lhe os diálogos pacientíssimos comigo, devo-lhe as orientações que me deu nesse capítulo, as oportunidades que ele me proporcionou de exercitar a minha mediunidade no grupo espírita, no Centro Espírita Caminho da Redenção, nas suas reuniões mediúnicas, a convite dele.
Tive essa segurança de saber que qualquer deslize, qualquer coisa, ele me orientaria e me falaria. Foi só depois dessas orientações de Divaldo Franco que eu tive coragem de me apresentar como médium publicamente. Eu trabalhava a mediunidade num centro espírita. Não sabia que tinha frequentado o centro do Divaldo. Raul Teixeira – Não, eu não frequentei. Mas de cada vez que ia a Salvador ele colocava- -me nas reuniões e dava-me muito apoio.
Vendo-me muito jovem e inexperiente, certamente se apiedava da minha ingenuidade. Devo-lhe essa segurança mediúnica que tenho hoje, graças a Deus. Então foi assim que comecei na tarefa espírita. Conheci Divaldo Franco 3 anos depois de me ter tornado espírita e 4 anos depois conheci Chico Xavier e, dessa maneira, fui desenvolvendo o meu início espírita em muito boas bases, porque fui observando Divaldo Franco, fui observando Chico Xavier, D.
Ivone Pereira tornou-se uma grande amiga. Frequentava a sua casa e falávamos pelo telefone e as minhas dúvidas em relação à minha vida como espírita, conversava com essas criaturas e tive a oportunidade de ter um entrosamento com Deolindo Amorim, no Rio de Janeiro, que se me tornou um grande amigo, um excelente conselheiro, ele e a sua esposa. “Em 1978 reuni um grupo de companheiros e começámos a atender numa das favelas da minha cidade.
Durante 2 anos atendemos ali, fundámos, em função disso, a sociedade espírita...” Tive uma formação da qual não me posso queixar. Se eu cometer algum deslize, se cometer algum desatino no trabalho espírita, isso deve-se à minha irresponsabilidade, não à falta da orientação, da formação que eu tive. Graças a Deus tenho procurado manter- -me nessas bases, procurando o Espiritismo segundo a codificação espírita num tempo de muitos modismos, num tempo em que muita gente quer colocar os seus pontos e as suas vírgulas na codificação, numa época em que muita gente já quer «consertar» a codificação espírita, que ainda nem é conhecida.
Neste mundo de muitos novidadeiros, felizmente tenho-me procurado manter na pauta da fidelidade ao conhecimento espírita, ampliando, desenvolvendo, discutindo, hoje com os meus companheiros da Sociedade Espírita Fraternidade a respeito da verdade que a doutrina espírita traz e da capacidade que ela tem de nos fazer entender a nós próprios, o nosso momento histórico, o nosso estado psicológico, psico-espiritual, de tal modo que nós saibamos viver neste mundo, sem que nos deixemos arrojar por este mundo, no chão das frustrações.
Sabemos das dificuldades de viver num planeta como o nosso, o momento que estamos vivendo de muita necessidade e muito cuidado, de muita vigilância e isso tudo vai-nos levar a procurar ser pessoas inseridas no seu tempo com os pés fincados no chão da realidade mas com os olhos voltados para as estrelas. É solteiro? Raul Teixeira – Sou solteiro. Conduz automóveis? Raul Teixeira – Sim, conduzo já há 20 anos. Durante muito tempo relutei mas hoje conduzo.
Quem compra a sua roupa, é você ou tem alguém? Raul Teixeira – Sou eu mesmo, não tenho secretário, não tenho empregados, tenho um faxineiro quinzenal. Sou eu que faço as minhas compras de casa, que pago as minhas contas, sou um homem normal, um homem no mundo, sou eu que vou ao Banco, pago as minhas contas, faço as minhas reservas de viagens, faço a minha agenda de viagens, não tenho secretários, conduzo a minha vida, regulo-a da mesma forma que toda a gente.
Qual é a sua bebida alcoólica preferida, se é que bebe álcool? Raul Teixeira – A minha bebida alcoólica preferida é H2O (água) sem gás. Que tipo de música gosta mais? Raul Teixeira – Olhe, gosto de todos os tipos de música desde que ela se enquadre bem nos momentos. Sendo brasileiro, gosto muito de samba, dos ritmos que nasceram do « afro» e no Brasil temos sambas muito bonitos. Gosto de música clássica, gosto de bossa nova, do rock and roll, não do rock barulhento, do rock bate-estaca, isso não faz a minha cabeça porque eu não gosto de barulho, gosto de um rock balada, um rock romântico, e isso faz-me muito bem.
Eu sou da geração da década de 1950/60, então aprendi a gostar dessas músicas que eram a música típica da minha época. Raul Teixeira, qual é a sua comida preferida? Raul Teixeira – Não tenho um prato preferido, gosto de comidas caseiras, eu gosto de coisas simples. Sou de uma família muito simples e aprendi a gostar de coisas simples, eu sou um homem do feijão com arroz, do legumezinho guisado e não tenho muitas exigências alimentares.
Não sei se fuma ou não. Raul Teixeira – Não, nunca fumei. De que tipo de filmes é que gosta? Raul Teixeira – Gosto de filmes épicos, gosto de filmes históricos e encantam-me muito os filmes de onde saímos levando uma mensagem. Não gosto de filmes de melodrama. Não gosto nada que as pessoas saiam a chorar, não tenho um temperamento de muito chorar, sou de um temperamento de pensar e a minha formação académica ajuda-me muito nisso, porque nós vemos, às vezes, no meio espírita, o povo que se acostuma muito a chorar e pensa pouco, e eu gostaria que o povo pensasse mais e chorasse menos.
Estudando física ou matemática choramos de emoção quando vemos uma grande descoberta, a aplicação de um grande invento em prol da humanidade, o cientista também se comove. Mas não é esse choro barato de quem, por qualquer coisa chora, porque isso demonstra um desequilíbrio emocional. (Pela sua grande extensão, esta entrevista continua no próximo numero deste jornal).
