44 — índice de conteúdos

Literatura Pala Notáveis reportagens com Chico Xavier foto arquivo Ain

Jornal de Espiritismo nº 44 · Janeiro 2011Página 194 min

Partilhar
Idioma

Literatura Pala Notáveis reportagens com Chico Xavier foto arquivo Ainda sob o impacto das comemorações do centenário do nascimento de Francisco Cândido Xavier (1910-2002), iremos falar da obra que nos dá a conhecer de forma invulgar o abnegado e saudoso médium de Pedro Leopoldo. O Instituto de Difusão Espírita (IDE), ArarasSão Paulo, pelas mãos do idealista Hércio Arantes, resgatou do passado esquecido da década de 30 do século passado, as reportagens e entrevistas com o jovem Francisco Cândido Xavier, feitas em Pedro Leopoldo, pelo jornalista de “O Globo” Clementino de Alencar.

Tais documentos constituem um verdadeiro tesouro que nos permite compreender o fenómeno que foi Chico Xavier. Clementino de Alencar, um dos melhores profissionais da época, instalou-se no modesto hotel da cidadezinha de Minas como enviado especial do prestigiado jornal, sem prazo definido para regressar ao Rio de Janeiro. A primeira reportagem foi publicada no dia 23 de Abril de 1935 eaúltima no dia 25 de Junho do mesmo ano.

Nos dois meses foi raro o dia em que “O Globo” não publicava um trabalho do grande profissional. Tais reportagens, intituladas por «Mensagens de Além-Túmulo», tiveram um destaque excepcional da redacção que as colocava na primeira página, sempre ilustradas com uma fotografia em que aparecia o jovem médium, e o final terminava logo na terceira página do diário. O motivo pelo qual “O Globo” fez e publicou as reportagens foi o facto de, em Julho de 1932, surgir nos escaparates das livrarias do Brasil um livro de estranho título, «Parnaso de Além-Túmulo», que cairia como uma bomba nos meios cultos da sociedade brasileira.

Quem era aquele jovem de apenas 21 anos que vivia no interior mineiro, numa terriola desconhecida, com uma escolaridade precária, e que trazia o nome na capa do livro? Como desse rincão de Minas vinham aqueles poemas de conteúdo e beleza que estarreciam os intelectuais? Seria um génio? Seria um especialista em mistificação? Era certo: ao analisar cada poema verificava-se que o estilo era precisamente o mesmo dos ilustres «mortos» das letras luso-brasileiras.

Poderíamos ler poemas de Antero do Quental, Castro Alves, Augusto dos Anjos, João de Deus, Casimiro de Abreu, Guerra Junqueiro, entre outros, como se tivessem ressuscitado. Outra razão que incentivou a divulgação das reportagens foi, dois anos depois, no dia 5 de Dezembro de 1934, o desencarne do famoso e popular escritor Humberto de Campos, na cidade do Rio de Janeiro, que deixou milhares de leitores das suas crónicas saudosos.

Humberto chegou a comentar essa primeira obra da lavra mediúnica de Chico Xavier, ampliando assim, a sua divulgação e curiosidade a respeito do jovem médium. Mas, no ano seguinte, logo a partir de 27 de Março de 1935, surgem novas crónicas do querido escritor, com o seu estilo inconfundível, vindas do Além- -Túmulo. Era demais. O grande jornal do Rio não hesitou e enviou o seu melhor profissional para Pedro Leopoldo.

Não havendo possibilidade de comentarmos todas as reportagens relativas aos mais diversos assuntos, que provam à saciedade a imortalidade da alma e a comunicabilidade dos espíritos, dois princípios basilares da Doutrina Espírita, registamos apenas dois episódios das notáveis reportagens. No primeiro, publicado a 4 de Junho, o venerando Emmanuel descreveu como se deu a morte física da sua última existência, como sacerdote católico.

Trata-se de uma descrição inusitada, que Clementino de Alencar intitulou «Uma impressionante narração da morte física de Emmanuel». Tal informação constitui um subsídio desconhecido e esquecido, de modo a sabermos um pouco mais sobre esse notável Espírito, para além de compreendermos melhor o passamento. Quem era aquele jovem de apenas 21 anos que vivia no interior mineiro, numa terriola desconhecida, com uma escolaridade precária, e que trazia o nome na capa do livro?

O outro, resultante do impacto da Grande Depressão de 1929, foi provocado por um estudioso de assuntos económicos e financeiros, que colocou ao jovem médium algumas questões que o preocupavam. As respostas foram dadas através da impressionante faculdade deste por um Espírito, desconhecido na altura pelos presentes, que as assinou com o seu nome completo, Joaquim Pedro d’ Oliveira Martins (1845- 1894), o grande historiador e sociólogo luso.

Passamos apenas o seguinte extracto da sua resposta, que seria publicada na reportagem de 19 de Maio: «A economia dirigida não é um erro. Todos os obstáculos à normalidade da vida económica dos povos são oriundos da ausência de senso administrativo dos governos, que enveredam pelo terreno da política facciosa, prevalecendo as directrizes pessoais de personalidades ou grupos em evidência. Frequentemente, a economia está confiada a mentalidades que não especializam os seus conhecimentos a seu respeito e cujos programas de acção constituem singularíssimos fenómenos teratológicos no campo da fazenda pública, os quais medram entre as colectividades ao bafejo de inqualificáveis proteccionismos.

» Tal resposta, que confirma o nosso ancestral egoísmo e orgulho, serve também para entendermos a actual crise económica e financeira que vem fustigando o Planeta em geral, e Portugal em particular. É importante registarmos a postura do jovem Xavier — que se prolongaria pela sua longa jornada terrena — que, ao ver-se envolvido por dezenas, centenas de curiosos, muitos deles ilustres figuras, jamais tirou partido da posição a que foi arrastado pela fenomenologia de que era centro.

Nunca perdeu a postura de homem simples e humilde sem afectação, o que infelizmente não acontece com muitas criaturas que se deixam arrastar pela vaidade, fama e ganância, quando chamados a situações de destaque, destruindo, assim, as suas missões. Sigamos o seu exemplo!