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Jornal de Espiritismo nº 46 · Maio 2011Página 96 min
Opinião Uma história de Páscoa A época pascal proporciona-nos ensinamentos variados em torno da passagem do Cristo. No cristianismo primitivo muitas vezes se constata a comparação entre a imagem da espada e o vulto da cruz. foto arquivo PUBLICIDADE Diferentes significados lhes são associados, ainda que invariavelmente conotados com sofrimento. Pela primeira somos atormentados perante a ameaça da agressão física capaz de provocar a mutilação ou até a morte do corpo.
Já a cruz é associada à barbárie da justiça entretanto evoluída. Porém, para o cristão, a cruz simboliza algo de muito maior: - Como, através da abnegação no instante supremo de dor, se conseguem tantas conquistas para o futuro, nosso e de outros. Também esta é uma mensagem de Páscoa. José Caifás foi sumo-sacerdote em Jerusalém entre 18 d.C. e 36 d.C., tendo sido o principal responsável pelo processo condenatório do Cristo, acusando-O de se denominar Filho de Deus.
Os caluniadores apertaram o cerco a Jesus instigados pelo acolhimento espontâneo que lhe tinha sido ofertado pela população, aquando da sua entrada na cidade de Jerusalém. A cobardia de Caifás fê-lo temer o poder que era conferido ao Mestre pela massa popular, e o esclarecimento e a bondade que coroavam Jesus eram insuportáveis para os que rodeavam o sumo-sacerdote judaico. A eliminação do Justo teria que ser apressada.
O egoísmo e o orgulho, digladiando-se com a verdade e o amor, originavam medo aos instigadores. Vibrações de crueldade saturavam a atmosfera de Jerusalém quando Jesus adentrou-se pelo Jardim das Oliveiras na noite da sua Paixão. Os discípulos abandonaram-nO nos instantes de oração, quando chega a milícia dos sacerdotes e fariseus para O aprisionar. O episódio pode ser sintetizado da seguinte forma: “Sabendo, pois, Jesus tudo o que lhe havia de suceder, adiantou-se e perguntou- lhes: A quem buscais?
- A Jesus, o nazareno. - Disse-lhes Jesus: Sou eu. (...) Saístes com espadas e varapaus para me prender, como a um salteador? Todos os dias estava eu sentado no templo ensinando e não me prendestes. - Então Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu o servo do sumo-sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco. Então Jesus lhe disse: Mete a tua espada no seu lugar; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.
Ou pensas tu que eu não poderia rogar a meu Pai e que ele não me mandaria agora mesmo mais de doze legiões de anjos? Mas tudo isso aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. (...)” (Mateus: 26: 47-56 e João: 18: 1-11.) Cumpre esclarecer que o cargo de sumo-sacerdote era, na sociedade judaica da época, de enorme importância, fazendo-se acompanhar permanentemente de uma corte. Muitos eram os que, pelas razões menos elevadas e práticas pouco dignas, ambicionavam tomar um lugar como confiáveis de Caifás.
Entre estes encontrava-se Malco, “jovem ambicioso e de origem desconhecida, que anelava por chamar atenção e gozar de privilégios, dedicando-se com fidelidade canina ao amo” (Esta e restantes citações: Até o Fim dos Tempos: 22). Caifás aproveitava esta ambição desgovernada para lhe confiar actos pouco dignos, sempre em proveito próprio. A chegada do grupo de algozes despertara os seguidores do Messias, que dormiam sob as árvores.
O escutar dos gritos dos perseguidores e o tilintar do metal das suas armas, terão precipitado Simão a cortar a orelha do servo do sumo-sacerdote da cidade. Malco vocifera por entre urros ao constatar a hemorragia, mas Jesus intervém de imediato tocando a ferida, que cicatriza instantaneamente. Adverte em simultâneo Simão para embainhar a sua espada, pois quem com ferro fere com ferro será ferido. O gesto do Cristo terá certamente sido decisivo para que a contenda ficasse por ali, pois dos relatos dos evangelistas apenas consta que, em seguida, Jesus terá sido levado para se dar início ao seu extenso processo de julgamento e condenação.
A ferida causada, porém, fora muito mais grave do que aparentemente possa ser levado a crer. Tal gravidade advinha não do ferimento em si, mas antes da conotação social que era atribuído ao decepar de uma orelha. É que esta era a marca com que se distinguiam os criminosos por furto. Cada homem tem o mapa da ordem divina em sua existência, a ser executado com a colaboração do livre-arbítrio, no grande plano da vida eterna A partir daquele instante, as possibilidades de uma ascensão social por parte de Malco estavam condenadas.
Com as ambições a um cargo de poder e a uma vida fastidiosa eliminadas pelo golpe de Simão, o servo de Caifás abandona este círculo e retira-se para Roma, onde passa a viver entre vagabundos e forasteiros. Só mais tarde, já durante o reinado de Nero e quando acompanhava “os esbirros de Tigelinus” em sortidas às catacumbas romanas em busca de cristãos, a vida de Malco assume novo impulso decisivo. Numa noite de perseguições aterrorizantes, o grupo liderado por Simão foi aprisionado pelos soldados romanos, o que permitiu a Malco reencontrar o responsável pelo ferimento que o havia estigmatizado.
Malco buscou o antigo pescador e enquanto pôde arremessou-lhe injúrias e ofensas obscenas. Quando o cortejo de prisioneiros e ofensores se aproximou do alto do monte onde as crucificações se iam proceder, o antigo servo do sumo-sacerdote de Jerusalém instigou Simão a ver o ferimento causado. O discípulo de Jesus, tomado de arrependimento e horror perante o reconhecimento de quem tinha perante si, e recordando o convite do Messias a embainhar a espada e a tomar a cruz, cai de joelhos diante da vítima do seu gesto e roga-lhe perdão.
Os soldados romanos, ao presenciarem tal cena, fazem uma interpretação errónea mas irreversível: assumem que Malco seria alguém ainda mais importante no culto do Carpinteiro galileu. “– Crucifiquemo-lo também!” - grita- -se de imediato. E apesar das justificativas desesperadas, dos impropérios infelizes e do contorcer aflitivo, Malco não convence os legionários de Roma da sua inocência e morre também crucificado, ao lado de Simão, blasfemando até ao fim.
Páscoas distintas! Duas lições principais são sublinhadas pelo espírito Emmanuel acerca deste episódio. A primeira consiste no seguinte: - Cada homem tem o mapa da ordem divina em sua existência, a ser executado com a colaboração do livre-arbítrio, no grande plano da vida eterna. (…) No minuto exacto, familiares e amigos excursionam em diferentes mundos de ideias (…) e, apesar da presença tangível dos afeiçoados (…) o homem atende, sozinho, no capítulo da morte, aos itens da escritura grafada por ele próprio, diante das Leis do Eterno Pai.
(Vinha de Luz: 94) Fiquemos pois cientes de que as provas que cabem a cada um de nós superar, sê-lo-ão apenas com o amparo que a fé de cada um conceder, na solidão de nossa consciência. Já a segunda lição orienta-nos para a reflexão em torno da violência gratuita: - Sustentando a contenda com o próximo, destruidora da tempestade de sentimentos nos desarvora o coração. Ideais superiores e aspirações sublimes longamente acariciados por nosso espírito (…) sofrem desabamento e desintegração, porque o desequilíbrio e a violência nos fazem tremer e cair nas vibrações do egoísmo absoluto.
Lembremo-nos da palavra do Senhor: “- Embainha tua espada…” - De lança em riste, jamais conquistaremos o bem que desejamos. A cruz do Mestre tem a forma de uma espada com a lâmina voltada para baixo. Recordemos, assim, que, em se sacrificando sobre a espada simbólica, devidamente ensarilhada, é que Jesus conferiu ao homem a bênção da paz, com a felicidade e renovação.” (Fonte Viva: 114) Qual será, após o instante de solidão aquando do desprendimento derradeiro, o resultado das escolhas que hoje fazemos?
