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Jornal de Espiritismo nº 47 · Julho 2011Página 25 min
Editorial foto loucomotiv O passista falante foto loucomotiv Ouve-se por vezes: não há ser mais adaptável ao meio do que o homem! Não será rigorosamente assim, mas a força de expressão faz sentido. Essa capacidade de adaptação também acontece com todos os seres vivos nalguma percentagem e, embora seja visto quase sempre apenas pelo ângulo material, certo é que essa capacidade sem um motor interno, espiritual, mental, do pensamento, por si só soçobraria.
Na natureza, há seres que se adaptam ao Verão entrando numa espécie de letargia algures numa reentrância fresca, como ocorre com alguns insectos, no pico do calor do dia, e no lado oposto do calendário não faltam exemplos de demorada hibernação, como ocorre com morcegos. A crise da falta de alimento faz com que abrandem o ritmo metabólico e preservem o organismo até que o tempo melhore e viabilize a sua sobrevivência.
Outras espécies mudam de continente com vantagens mais que compreendidas. Por sua vez, o ser humano quando enfrenta crises é chamado também a encontrar soluções. Muitos emigram em busca de trabalho para conseguirem o seu sustento, como acontece há já tantos séculos. Outros olham a crise com um engenho peculiar e conseguem um nicho de negócio que lhes permita o êxito. Mas a verdade é que as crises não são de agora e abrangem os domínios mais diversos da vida humana.
Na verdade, nunca ninguém deixou de viver sob o gume desse processo que pede adaptação pela positiva. Inclusive, a nível pessoal, no burilamento evolutivo da personalidade, afinal, a grande meta entrevista pela reencarnação. Joana estava deprimida, a Manel doía-lhe a solidão, Joaquim tinha alguma dependência do álcool, Tomé tinha predisposição para a impaciência e a agressividade... A depressão pode resultar de omissão de conduta activa na edificação de algo útil, a solidão é um luxo para quem não giza actividades de interesse geral que lhe dê prazer desempenhar sempre que possível.
A toxicodependência, se o adicto realmente quiser, cura-se com tratamento médico e psicológico adequado. A falta de paciência e a agressividade a própria pessoa pode tratá-las com exercícios que desenvolvam auto-estima, humildade, entendimento e amor ao seu semelhante... No labor dos milénios, vida após vida, é igualmente verdade que as crises apontam sempre, em termos pessoais e colectivos, o que não foi conseguido e está por fazer.
Por muito que não gostemos das nossas crises, são remédios da vida que quer pousar o aguilhão e abre janelas para oportunidades que surgem nem sempre quando queremos mas quando estamos verdadeiramente prontos para as tomar em mãos. Mas são tão necessárias também as clareiras de paz enquanto se avança. É nesse sentido que lhe fazemos estas páginas, guardando a certeza de que em tudo o que se passa connosco e à nossa volta resta escolhermos invariavelmente o ângulo construtivo, para que a luz interior não estremeça e, realizando nós próprios a nossa pequena fatia de serviço, Deus fará fazer tudo o que resta.
Por Jorge Gomes Alice era o que podemos chamar de passista dedicada. Tinha uma verdadeira adoração pela actividade do passe. Desde que começou a frequentar a instituição, o seu sonho fora colaborar na equipa de passistas. Participou nos cursos, mostrou- -se interessada e foi aceite na equipa. Ela tinha aprendido, no curso, que muitas pessoas adquiriam determinados tiques desnecessários, e resolveu zelar desde o início de suas actividades para não incorrer em erro algum.
Passou a observar as pessoas, com o intuito de aprender, e evitar erros, e não, conforme dizia inicialmente, para comentar com os outros o que recolhia de informação. Começou, então, a preparar uma listagem das incoerências que via, catalogando cada tipo de passista de acordo com uma classificação toda sua. Certo dia, estava na sala dos passes, a ouvir a palestra, quando uma amiga sua, companheira no trabalho do passe, se sentou ao seu lado.
Começaram a conversar, apesar da palestra estar em curso e Alice começou a empolgar-se, fazendo uma lista à amiga sobre os diversos tipos de passista que já havia registado. Passista aconselhador: aquele que insiste em dar conselhos às pessoas no próprio salão. Interrompe a actividade, ou marca para depois uma conversa de esclarecimento. Este tipo de passista é parente do passista intuitivo. Passista intuitivo: aquele que durante a aplicação do passe “recebe” orientações acerca do problema da pessoa, indicando determinados cuidados.
Em alguns casos, o procedimento do passista é discreto. Há outros, os passistas mais intuitivos, que chegam a assumir atitudes esdrúxulas como, por exemplo, baixar-se até ao chão para aplicar o passe no pé do doente. Passista farmacêutico: aquele que, apesar das orientações contrárias, insiste em recomendar algum tipo de medicamento, um chazinho, um cloreto de cálcio ou magnésio, uma barbatana de tubarão... Passista ginasta: aquele que dá uma verdadeira aula de ginástica aeróbica.
Ele balança-se, gesticula violentamente, agita- -se. Nos dias de extremo calor, termina as suas actividades cansado e suado, e dizCaramba, como doei energia hoje! Este passista é primo do passista torturador. Passista torturador: aquele que aplica o passe com movimentos velozes, próximos à orelha da pessoa. Ele faz com que a pessoa fique tensa, a orar para que acabe o passe rapidamente, antes de receber uma pancada na cabeça, lhe arranquem a orelha, ou até consiga uma fractura no nariz.
Passista asmático: aquele que ao aplicar o passe, emite ruídos acentuados, aparentando dificuldade de respiração. Apresenta-se, às vezes, tão exagerado, que a pessoa que recebe o passe tem vontade de o abanar, ou chamar um médico. Passista espanhol: aquele que insiste em ficar estalando os dedos. Parece até que utiliza castanholas pela altura do barulho que consegue fazer. Passista chaminé: aquele que nem nos dias de trabalho consegue parar de fumar.
Esta tipologia pode ser também chamada de passista-hortelã, pois utiliza muitas pastilhas para minimizar o hálito do tabaco. Passista “desinfectado”: aquele que não consegue ficar sem a bebida alcoólica. Este passista apresenta, dependendo do grau de adiantamento do vício, muitas características interessantes que variam, desde o hálito “puro”, até a dificuldade de se manter em pé. Ia continuar a lista, quando uma velhinha que se encontrava próximo, falou: - Minha filha, coloca na tua lista, o passista falante.
Alice, interessada, perguntou: - E quais as características? A velhinha, tranquila, disse: - Conversar com os seus amigos na Sala de Passe, sem se preocupar com a palestra em desenvolvimento, desrespeitando as pessoas interessadas em aprender. Alice, envergonhada, desculpou-se e anotou mais um tipo de passista na sua longa lista... Adaptado de http://www.espirito.org. br/portal/artigos/diversos/comportamento/na-casa-espirita.
