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Jornal de Espiritismo nº 47 · Julho 2011Página 85 min
Notícia Projecto Saúde e Luz foto arquivo Em 6 e 7 de Maio corrente, deu-se em Coimbra um acontecimento marcante, integrado numa tendência que alastra pelo mundo das ciências médicas: a verificação do imenso potencial terapêutico de várias formas de espiritualidade, verificação essa inscrita nos conceitos mais amplos de medicina holística e de complementaridade entre fé e razão. A iniciativa coube ao GEEAK (Grupo de Estudos Espíritas Allan Kardec, com sede em Coimbra); foi apresentada num auditório do Hotel D.
Luís e reuniu durante aqueles dois dias uma assistência de 182 pessoas: uma sexta-feira à noite e sábado todo o dia, até perto das 24h00. Presentes muitos profissionais médicos e paramédicos, uns espíritas outros não, o evento abriu pelas 20h30 do primeiro dia, com um agradável momento musical a cargo do Grupo Coral Dom Aires da Silva, de S. Silvestre. A temática do convénio foi aberta por Sérgio Thiesen (Professor de Medicina, Médico cardiologista, Físico), conhecido e prestigiado nos meios espíritas portugueses.
O seu trabalho “SAÚDE E ESPIRITUALIDADE” esboçou uma panorâmica do desenvolvimento que vai tendo o estudo, nos meios científicos, das várias formas de espiritualidade como factor terapêutico. O autor referiu-se ao paradigma mecanicista, materialista, da medicina convencional, e também à incapacidade do mesmo paradigma para explicar (ou negar) a factualidade indesmentível de casos clínicos de cura espiritual. Casos dessa natureza vêm sendo cada vez mais estudados por eminentes académicos da área de saúde, que Sérgio Thiesen mencionou (como Harold Koenig e Herbert Benson, este mais nosso conhecido, por ter várias obras traduzidas para Português).
Tais estudos, referiu Thiesen, por certo contribuíram para que a Organização Mundial de Saúde viesse a completar com a palavra “espiritual” o seu anterior conceito de saúde: um completo estado de bem- estar físico, mental, social e espiritual. O segundo trabalho, intitulado “SAÚDE MENTAL – VIVER MELHOR”, teve como autor e apresentador Fernando Gomes, Enfermeiro de Saúde Mental e Psiquiatria, que discorreu sobre saúde mental, assim como sobre casos de stress patológico e seus factores socioculturais.
Chiara Pussetti, Antropóloga, Mestre em Antropologia Médica, Professora do ISCTE e Investigadora do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia), apresentou em seguida o seu trabalho ”DOENÇAS PÓS-COLÓNIAS E OS DESAFIOS DA MODERNIDADE”, referindo casos que acompanhou profissionalmente. A experiência de anos em Antropologia, na Guiné-Bissau, valorizou-a na observação e estudo de casos interessantíssimos da intervenção peculiar (e eficaz) dos terapeutas autóctones (“pauteros”), em problemas da área, que alguns impropriamente designam “sobrenaturais”.
Sabe-se como estes são, em geral, alvo de reserva e desconfiança nos meios académicos convencionais, propensos a um rígido cepticismo perante o que não caiba no seu paradigma científico. O espírito preconceituoso, refere Chiara Pussetti, tem ocasionado atitudes inadequadas em hospitais, como discriminar instituições e menosprezar as espiritualidades peculiares de alguns pacientes. A programação de sexta-feira adiantou- se noite adentro, terminando em debate animado sobre vários pontos dos temas até aí apresentados.
Reatado o convénio pelas 9:30 do dia 7, a manhã foi preenchida com três trabalhos de militantes espíritas, muito ricos e bem elaborados, sobre factores utilizados no tratamento espiritual, em centros espíritas: “O MAGNETISMO ATRAVÉS DOS TEMPOS”, por Fernando Santos, pesquisador, dirigente do GEEAK, discorrendo sobre a história e natureza do magnetismo, suas diferentes aplicações em centros espíritas e fora deles. A seguir, Tirsa Santos, Engenheira Química, trabalhadora do GEEAK, apresentou magnífico estudo sobre “ÁGUA, FONTE DE VIDA”, suas formas e distribuição pela Terra, com ampla análise da “sensibilidade” molecular da água às energias subtis dos diversos ambientes.
Eoúltimo tema da manhã, intitulado “MÃOS DE LUZ – PASSE _ FLUIDOTERAPIA”, teve como autor e apresentador Sérgio Thiesen. O dirigente espírita brasileiro, convidado do GEEAK, na sua análise do passe e da fluidoterapia prendeu a atenção do auditório, dissertando com segurança sobre a física das partículas e subpartículas de matéria, sobre unidades de energia psicossomática (bióforos) actuante no citoplasma das células, sobre nanocristais magnéticos do encéfalo relacionados com a actividade de funções cerebrais superiores.
A etapa da tarde abriu pelas 14h30, com mais um momento artístico, agora a cargo do GRUPO DE FADOS DE COIMBRA, que enlevou a assistência com trinados da boa tradição coimbrã, acompanhados à guitarra e viola. A temática do convénio foi retomada por Cláudia Nogueira, Socióloga e Investigadora do CES da Universidade de Coimbra, com o trabalho “DOENÇAS MENTAIS, TRAJECTÓRIAS TERAPÊUTICAS E ESPIRITUALIDADE, UMA ANÁLISE DE ESTUDOS DE CASO”.
Esse trabalho, integrado na brilhante tese do seu doutoramento, descreve dois casos clínicos graves, um deles muito notório na região: contrariando o prognóstico médico, encontraram cura espiritual no GEEAK. Ambos os casos foram amplamente investigados e documentados pela autora, junto de fontes diversificadas (institucionais, particulares e individuais). Seguiu-se o trabalho “AJUDA ESPIRITUAL NO LUTO”, apresentado por Pedro Frade, Psicólogo e Presidente da ALUBRAT em Portugal, frisando a validade da vertente espiritual nos casos de acompanhamento psicológico.
No final da tarde, a concluir a parte teórica do programa, Sérgio Thiesen fez a apresentação de três casos reais de cura espiritual no Brasil, expressivamente documentados por vídeo. Depois duma pausa para leve repasto e recolhimento, pelas 21h00 teve início a fase prática do programa: “PASSE, FLUIDOTERAPIA E MAGNETIZAÇÃO DA ÁGUA”, desempenhada pelo Grupo de Passistas do GEEAK. Antes do acto, tinham-se inscrito para ele quarenta e quatro candidatos, mas só puderam ser admitidos a atendimento, na altura, cerca de metade.
A actuação dos passistas decorreu ordenada e serenamente, em ambiente de profundo recolhimento, com a nota tocante (mas não perturbadora) do choro convulsivo duma paciente, pouco antes de ser atendida. Cerca das 22h30 iniciou-se o último ponto do programa, “DEBATE EM MESA REDONDA”: incluiu impressionantes depoimentos de pessoas na sua maioria sem ligação ao movimento espírita; entre estas, uma médica e uma executiva acabadas de se submeter à terapia fluídica, fortemente emocionadas com a experiência vivida.
A frutuosa realização desta jornada do Projecto Saúde e Luz, agradou aos participantes em geral (espíritas e não espíritas), podendo considerar-se um evento elucidativo e útil, merecedor de continuidade. Conviria a ciência académica procurar não ignorar os valiosos recursos que a Doutrina Espírita faculta, no seu todo, incluindo o novo paradigma para estudo e investigação, proposto pela sua vertente filosófica. Na verdade, a FÉ RACIOCINADA que “O Evangelho Segundo o Espiritismo” enuncia (capítulos 1.
º e 19.º), configura o salto qualitativo dum paradigma novo, uma SÍNTESE da contradição dialéctica entre a TESE milenar da fé cega de Tertuliano, “creio porque é absurdo”, (só questionada mais de mil anos depois por pequena parte da cristandade, através do princípio luterano do “livre exame”), eajá plurissecular ANTÍTESE duma racionalidade analítica e mecanicista, de Descartes: válida, imprescindível, mas não universal e absoluta.
Da SÍNTESE espírita procede naturalmente uma fecunda complementaridade entre a fé (que consiste em muito mais do que meramente “acreditar”) e a razão. Alberto Einstein, expoente de racionalidade por excelência, comentou lucidamente com um seu biógrafo (Huberto Rhoden): a descoberta científica não nasce de um processamento lógico, mas sim duma iluminação súbita, espécie de êxtase, que só depois a razão vai experimentar e verificar.
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