Editorial foto loucomotiv E ele não acreditava
Jornal de Espiritismo nº 49 · Novembro 2011Página 26 min
A mim, observador da discussão, não surpreendia: de que maneira seria possível ao Duarte ouvir-se a dormir? Os fenómenos de autoscopia, quando a consciência se exterioriza ao corpo físico, não ocorrerão ao deus-dará, supõe-se. Mas o irmão garantia-lhe: «Ontem à noite, quando saí do computador, estavas a ressonar!». «O quê?», pensava o pequenito, indignado, e dizia «Quem ressona é o pai!
». «Um destes dias vou-te filmar a ressonar», provocava com requinte de irmão mais velho. Firme nas suas convicções era ele, o Duarte. Analisava um assunto, cristalizava-o, e seguia para outro tema na sua tenra idade de nove anos. Quem sabe se procedia assim porque isso lhe estaria a dar uma quota de conforto, num pensamento matemático, amigo de não dar margem a respostas dúbias? A maior parte das vezes o sistema funcionava.
Mas nem sempre. Por vezes tinha de rever alguns dados adquiridos. A custo, não havia volta a dar se os factos se impunham. E ouvir-se a ressonar está visto que é algo que ainda não lhe tinha acontecido, embora de facto isso não viesse mudar a realidade. Estes cenários repetem-se de vez em quando e podemos extrapolar o padrão da lacuna de autoconhecimento do petiz para muitos outros casos. Exemplo disso é quem passa por nós na rua e também nunca se ouviu a produzir tais sons.
O mesmo não posso eu dizer de mim próprio. Se fosse só a ignorância do seu próprio ressonar não haveria grande problema, mas a verdade é que há muitos outros fenómenos que ocorrem e são também tidos como inexistentes. Referimo-nos por exemplo à própria reencarnação. Quantas vidas materiais já não tivemos e nem nos damos conta disso? Quantas vezes mudamos subitamente de humor, seja num sentido infeliz seja num outro cheio de bem-estar, e não nos damos conta da sensibilidade mediúnica que possamos ter?
Somam-se as vezes em que somos causa e efeito das nossas escolhas no dia a dia e guardamos a ilusão repetida e gasta de colocar a causa nas costas de outrem. Acontecem igualmente distrações recorrentes provocadas pela inércia enquanto desfilam diante dos nossos olhos os reflexos de oportunidades em série para uma vida melhor. Confesso que a lista é tão grande que é complicado enunciá-la até pela metade da sua extensão neste espaço.
O que é forçoso dizer é que esta passagem, ensinam os Espíritos, reúne um corolário de experiências úteis à evolução que cada um persegue sobre os milénios, sendo certo que o suicídio é a pior forma de sair dela. A sabedoria está em não temer o decesso mas também em não o provocar, pois a fuga dos problemas por esse caminho sai completamente gorada. Sorrir perante a inocente ilusão do pequenito equivale a rever-nos a nós próprios que, quer acreditemos quer não, estamos há milénios e milénios no curso das vidas sucessivas, tudo para que as asas da sabedoria e do amor nos desenhem caminhos em horizontes mais amplos, nas luzes do trabalho que edifica e da fraternidade que fixa a paz em qualquer roteiro.
Por Jorge Gomes Presente de Natal Era uma família bem pobre. Vivia na periferia de uma grande cidade. O pai estava desempregado eamãe encontrava-se acamada sofrendo de uma doença incurável. Esse casal tinha uma filha loira de nome Luana, uma garotinha muito bonita de seus oito anos de idade. Essa menina era um anjo em pessoa, daqueles que Deus envia no meio de todas as barbáries para que os seres humanos constatassem a sua presença através do seu belo sorriso e de seu jeitinho cativante.
No dia 24 de dezembro, na véspera de Natal, naquela humilde casa nada lembrava a data festiva do nascimento de Jesus. Não havia ceia, não havia presentes, havia muita tristeza. Todavia, uma luz azulada emanava da casa em direção aos céus. Era Luana que estava de joelhos na cabeceira da cama, em singela oração. Dizia ela: - Pai do Céu, hoje é natal e quero agradecer-te pelo nascimento do menino Jesus. Sabe, paizinho, hoje eu fui à praça da cidade e vi o menino Jesus.
Sabe, ele é muito bonito, gostei dele. Eu sei, pai, aquele que nasce é que deve ganhar presentes, mas eu, paizinho, não tenho dinheiro para comprar um presente para o menino Jesus. Mas, pai, o senhor me perdoa? Eu vi uma flor bem bonita no canteiro da praça e peguei nela. Sei que foi errado, mas, pai, eu deixei para o menino Jesus. Fiz isso, pai, porque meu paizinho está desempregado, e minha mãezinha está de cama e como eu queria dar um presente para o menino Jesus peguei naquela flor.
Espero que não se importe. Amém. Dizendo isso, a menina Luana foi dormir. No dia seguinte, o pai de Luana foi acordado por uma pessoa que batia à sua porta. Era um senhor alto, de barbas ralas, cabelos compridos, e com um doce olhar em seus olhos. - Bom dia, meu senhor – disse o homem – É aqui que mora a menina Luana? - Sim – disse o pai de Luana – o que fez ela de errado? - Ontem eu estava lá na praça, e vi sua filha colher uma flor e colocar no presépio que a Igreja construiu lá na praça.
Fiquei curioso com aquele gesto e prestei atenção às palavras de sua filha. O senhor está desempregado? - Sim – disse o pai – já faz mais de seis meses que não consigo emprego. - Pois bem – disse o homem – vá até este endereço e diga ao proprietário desta casa que eu o mandei até lá. Eles estão empregar pessoas. E como está a sua esposa? - Minha esposa – disse o pai – está acamada e muito doente. Não tenho dinheiro para o tratamento e para os remédios.
- Posso vê-la? O senhor não sabe, mas eu sou médico e talvez possa ajudar. O homem encaminhou aquele senhor até ao quarto da esposa. Este, aproximando-se da enferma prontamente a examinou, colocou a mão na sua fronte, e logo após pediu um copo de água. Fez uma prece e fluidificou a água. Disse ao homem que quando a mulher acordasse que ela prontamente bebesse a água. A mulher abriu os olhos e disse que estava com sede, e o marido lhe deu a água que havia sido fluidificada.
- Eu tenho de ir agora. Por favor, vá até ao endereço agora. Posso pedir um último favor? Tenho um bilhetinho aqui, por favor, entrega à sua filha? Mas, só entregue depois de voltar e conseguir o seu emprego, certo? O homem achou estranho aquele inusitado pedido, mas concordou. Foi até ao local que o homem havia indicado e, após apresentar-se, soube que no dia seguinte poderia começar no seu novo trabalho. Estava radiante.
Rumou a casa. Qual foi a surpresa quando a sua esposa, curada, estava à porta e o recebeu com um beijo carinhoso. O homem prontamente lembrou-se do bilhete e foi até ao quarto da filha. - Filha – disse – apareceu um homem aqui hoje de manhã. Pediu para que lhe entregasse isso. O bilhete tinha a seguinte frase: - Luana, obrigado pela flor. Não fiquei zangado por tê-la colhido do jardim. Espero que goste da surpresa. O seu pai agora tem um emprego e a sua mãe está curada.
Era o mínimo que podia fazer em retribuição ao maior presente que recebi quando eu nasci. Seu amigo. Jesus. Luana e os seus pais estavam com lágrimas nos olhos. Ali estava o maior presente de Natal! Uma singela flor, ofertada no auge da dor, havia sido o maior presente dado pelo coração sincero e puro de uma criança. A todos os amigos e colaboradores um feliz e próspero Natal!
