saúde Estudos psico(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à lu
Jornal de Espiritismo nº 6 · 2004Página 47 min
Estudos psico(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Façajáa(s) sua(s) pergunta(s)!
Aflição da leitora e a propaganda contra o aborto...
Em 20 de Junho passado, recebemos a seguinte mensagem electrónica: "Senhor Dr. Iso Teixeira, quando tinha 18 anos, ainda estudante universitária Éfiquei grávida do meu namorado, e por vergonha, "medo" da família e falta de dinheiro, resolvemos abortar. Passadas quase duas décadas, não consigo esquecer esse facto, embora à época, pensasse que era a melhor e mais fácil opção para todos os problemas que surgissem. Como católica, não tive o que necessitava; carinho, amor e entendimento.
Mais tarde, voltei-me para o Espiritismo, mas apesar da doutrina espírita ser libertadora, de esperança e de amor, eu fui severamente condenada e crucificadaEpelos espíritas de um determinado centro, e me afastei.EÉSerá que sou uma assassina e não tenho maisÊ perdão?" M.J.
Alerto os senhores leitores, que encaminharem as suas perguntas para esta coluna, para que não deixem de inserir o nome completo (ou pseudónimo completo, preservando a privacidade), e a cidade e o distrito em que residem. O tema aqui tratado, o aborto, é muito polémico. Médicos, psicólogos, leigos, religiosos, dividemse quanto à questão fundamental: é ou não um crime O assunto é tratado passionalmente, quando deveria ser estudado à luz da razão e é isto que tentaremos fazer, à luz da doutrina espírita.
Temos perfeita consciência de que nossa opinião aqui defendida terá muitos contraditores, não almejamos a unanimidade; embora amparada doutrinariamente, trata-se de opinião pessoal... Aborto é a morte do feto no ventre de sua mãe, produzida durante qualquer etapa, que vai desde a fecundação (união do espermatozóide e do óvulo) até ao momento em que o bebé deveria nascer. O aborto pode ser espontâneo (quando a morte do feto é provocada por alguma anomalia ou disfunção, não prevista, nem desejada, por exemplo, incompatibilidade sanguínea de factor Rh da mãe, alterações anatómicas do colo uterino, etc.)
Metade vítimas,metade cúmplices, como toda a gente.
de O Livro dos Espíritos (OLE).
É preciso ressaltar que há uma diferença fundamental entre a transgressão da Lei Divina e a transgressão de lei humana. Quando a mãe ou qualquer pessoa "impede uma alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento" (cf. resposta à questão 358 "in fine" de OLE) estará transgredindo a Lei Divina. O crime está em se transgredir a Lei Divina e não na morte do feto em si, pois o espírito reencarnante nada sofre (cf.
se depreende das respostas às questões 346 e 357 de OLE, de ALLAN KARDEGC). Já a lei terrena depende da sociedade em que é estabelecida. O Código Penal brasileiro considera crime o facto, em si, de se impedir o produto da concepção de vir ao mundo e não de impedir a alma de passar pelas provas ou expiações que porventura tenha de resgatar.
Nalguns livros, palestras e programas radiofónicos espíritas, a questão do aborto (que é polémica) é tratada radicalmente, quase como uma pena de talião para quem pratica o aborto. A lei de causa e efeito não deve ser confundida com a pena de talião, aquela dependerá das condições espirituais de cada um, não há fatalismo espiritual matemático que diga: para cada aborto, uma dívida para a próxima encarnação, não!
A nossa leitora portuguesa, M. ]J., afirma: "eu fui severamente condenada e crucificadaÊpelos || espíritas de um determinado centro, eme afastei" e conclui aflitivamente: ) "Será que sou uma assassina e não tenho maisÊ perdão?". O trauma psíquico em si produzido, em quem pratica o aborto, pode trazer sérias consequências psicopatológicas, dependendo da sensibilidade individual: depressão reactiva, início reaccional de um processo esquizofrénico, transtornos de ansiedade, etc. Ora, o Espiritismo não tem dogmas!
A melhor forma de nos reconciliarmos com a Lei Divina é o Amor a DEUS e a Prática do Amor ao próximo, nisto está
deliberadamente por meios domésticos, químicos e cirúrgicos). As variedades de tipos de abortos domésticos são inumeráveis. Tais variedades são descritas num portal católico da Internet, com endereço www.aciprensa.com, El Aborto. A visão católica é de que o aborto é um assassinato, um infanticídio, e nada é descrito em termos espirituais. E a nossa aflita leitora demonstra isso nas suas palavras: "Como católica, não tive o que necessitava: carinho, amor e entendimento". Em casos de excepção a Espiritualidade Superior manifestouse em defesa da vida da mãe. Estudemos a questão do ponto de vista espírita.
Diz a Espiritualidade Superior na resposta à questão 358 de O Livro dos Espíritos (OLE), de ALLAN KARDEC: " — Há sempre crime quando se transgride alei de Deus. A mãe ou qualquer pessoa cometerá sempre um crime ao tirar a vida à criança antes do seu nascimento, porque isso é impedir a alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento". Contudo, a Espiritualidade Superior prevê uma condição em que seria admissível o aborto: quando se sacrifica o feto para salvar a mãe que estiver em perigo pelo nascimento da criançacf. questão 359
contida toda a LEI DIVINA. Se a leitora se submeteu a aborto na juventude; mas, ao longo de sua existência, praticou ou pratica actos louváveis de amor ao próximo, é possível que ainda nesta encarnação já tenha se reconciliado com Deus e não tenha mais débitos. É possível que a senhora tenha sofrido muito, com uma dor moral atroz e não seja necessário um resgate em outra existência.
Não somos, obviamente, a favor do aborto, contudo, discordamos da maneira sensacionalista, que pressuponha a punição, o castigo de Deus como forma de propaganda contra o aborto. E isto é feito pelos católicos, como na página da Internet que referimos, em que são apresentados "testemunhos gráficos", com fotos reais verdadeiramente macabras, que não as divulgamos aqui para não incorrermos no mesmo erro. Outros, dão ênfase ao social para defenderem a legalização, indiscriminada, do aborto.
E citam o filósofo JEAN PAUL SARTRE, que, embora, com uma obra filosófica rica, sem hipocrisia, não foi exemplo de moralidade! Acertadamente, diz ele sobre o aborto: Metade vítimas, Metade cúmplices, como toda a gente...
nossas dívidas pode ser realizada ainda nesta encarnação. A transformação íntima de MARIA MADALENA (Lc 8,2 e Mc 16,9) é o belo exemplo de conversão do amor sensual para o espiritual (cf. o excelente romance filosófico de . HERCULANO PIRESMadalena (Do amor sensual para o espirítual). EDICEL, 5 ed., São Paulo, 1987). E a conversão de SAULO DE TARSO no caminho de Damasco é outro notável exemplo de transformação íntima na mesma existência...
Certamente, este acto irreflectido, caríssima leitora, não foi o único em sua vida e a sua admissão como erro já é um passo para sua evolução espiritual razão maior para aqui estarmos encarnados. O fundamental para o espírito é a transformação Íntima e isto pode ser conseguido, pois contamos com a Misericórdia Divina, que não pune ninguém. Esta é a melhor forma de evitar-se o aborto: viver voltado para as coisas espirituais desde a infância.
A lei de causa e efeito não deve ser confundida com a "marca de Caim" nem com a "pena de talião". Antes de MOISES a lei era extremamente severa, primitiva, com a "marca de CAIM", por exemplo. Com MOISES predominou a "pena de talião", mais branda que a anterior. E, com JESUS, exemplificouse a Lei de Amor, de Misericórdia. Este abrandamento da lei terrena foi discutido por nós em nosso livro Agressividade: de CAIM aos "serial-killers" (Editora DPLSão Paulo, Brasil, 2003), ao qual remeto os leitores.
Actos irreflectidos de uma jovem irão comprometer, definitivamente, as existências actual e futuras! Não, setenta sete vezes não! Não será o início tardio do trabalho na seara do bem quem irá impedir que o trabalhador receba o seu salário; como JESUS exemplificou na parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1 - 16). Outra exemplificação de JESUS, em assunto correlato a este, foi no pecado de adultério, que a lei moisaica ordenava apedrejar, então, disse JESUS aos escribas e fariseus: "Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra." (Jo 8,7).
Deus, pai infinitamente misericordioso, não castiga seus filhos com penas eternas, como acreditam os católicos, nem com ameaças fatalistas, como certos arautos do Espiritismo, distorcendo a pureza da doutrina ditada pelos Espíritos Superiores... Que as leitoras reflictam sobre a frase de JESUS, que serviria para os dias actuais, tanto para os católicos quanto para o actual movimento espírita: "Acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus!" [Mt 16,11 ("in fine")].
Texto: Dr. Iso Jorge TeixeiraCREMERJ: 52-14472- 7 - Livre-docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de JaneiroBrasil.
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