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Jornal de Espiritismo nº 64 · Maio 2014Página 73 min
A mediunidade é hereditária? Manuel GonçalvesTenho ideia de ter visto na imprensa espírita há talvez duas décadas um questionário ligado a uma investigação sobre a eventualidade da mediunidade poder ser hereditária ou não. Nunca cheguei a saber se houve recetividade nas respostas e se houve algum resultado verosímil. Como vemos por vezes vários médiuns numa mesma família, sendo de natureza orgânica, poderia ser mesmo hereditária a faculdade mediúnica?
Dr.ª Gláucia Lima – Caro leitor, em 1996, eu e uma equipa de investigação, patrocinada pela Fundação BIAL, desenvolvemos um projeto de pesquisa sobre os “Aspetos Psicofisiológicos do Transe Mediúnico”. Numa fase experimental, recolheram-se os dados para caracterização, numa amostra escolhida entre os frequentadores dos centros espíritas em várias localidades no país (no Norte, Centro, região de Lisboa e no Brasil (em Alagoinhas, no Estado da Bahia).
Uma das perguntas do questionário era a presença de outros médiuns na família, pois, observamos que, se há famílias em que, não havendo qualquer tipo de afinidade com as questões espirituais, surge um médium com faculdades ostensivas, noutras há em que parece haver um traço quase que “hereditário” podendo mesmo observar-se esta expressão em várias gerações como se se tratasse de uma “tradição”. Entretanto, ainda que possamos falar da natureza orgânica da mediunidade, não podemos asseverar a sua hereditariedade.
As conclusões do estudo, neste aspeto, seguiram no sentido de haver uma alta prevalência de outros casos de mediunidade na família, mas, isso, não é o suficiente para afirmar a sua hereditariedade. Naturalmente, os espíritos, reúnem-se na terra em famílias, segundo as suas afinidades espirituais, e por este fator podemos observar numa mesma família muitos indivíduos médiuns, tal como muitos indivíduos médicos, professores, etc.
Mas, podemos admitir que não havendo um marcador genético para a mediunidade, possam existir heranças, tradições, costumes, hábitos e crenças que se transmitem em determinadas famílias, meios e culturas e que sejam facilitadores do intercâmbio mediúnico. Abílio Mendes – Sou médium há alguns anos, mas, tenho vergonha de dizer que sou, pois, tenho medo que digam que sou maluco. O que me aconselha? Dr.ª Gláucia Lima – Caro sr.
Mendes, a mediunidade é oportunidade bendita para o crescimento espiritual e evolução do ser humano. É uma conquista do ser, na posse dos seus sentidos espirituais, estabelecendo intercâmbio entre a dimensão visível foto loucomotiv e invisível da vida, podendo ser ponte de comunicação para aqueles que já ultrapassaram a barreira da morte física. Atualmente, em determinados meios, ainda, podemos assistir a atitudes preconceituosas, de suposta superioridade intelectual, incluindo o meio académico, em que o “ser médium” é sinónimo de loucura, atraso cultural ou falta de conhecimento, sendo mesmo rechaçada e criticada.
Noutros há, em que a faculdade mediúnica já é aceite e integrada como atributo do ser. E a sua prática como um processo natural, aceite e estimulada. A medicina baseia-se em classificações para homogeneizar a sua atitude e linguagem face as situações clínicas e reconhece a existência do fenómeno de transe mediúnico na Classificação Internacional das Doenças (ICD -10.ª Edição), da Organização Mundial da Saúde. O Capítulo V desta Classificação trata dos Transtornos mentais e do comportamento, e no capítulo F.
44.0, refere-se aos “Transtornos dissociativos”, nos quais se insere então o Transe mediúnicocódigo F44.3, definido como: “Transtornos de Transe e possessão”, nem sempre sendo considerado patologia ou doença. Definem-se por serem: “Transtornos caracterizados por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conserMAIO.JUNHO.2014 Conhecendo bem a doutrina espírita, Gláucia Lima, psiquiatra, dá continuidade a esta secção do jornal: responde a duas perguntas nesta edição.
