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Pintura Mediúnica Nas Caldas da Rainha

Jornal de Espiritismo nº 7 · 2004Página 55 min

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PINTURA MEDIÚNICA NAS CALDAS DA RAINHA

A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse "mais além" que polariza as esperanças das almas. O artista verdadeiro é sempre o "médium" das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o infinito e abrindo, em todos os caminhos, a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, sabedoria, paz e amor.

É esta notável definição de Arte, da autoria do Espírito Emmanuel, que abre o site www.pinturamediunica.com, uma belíssima mostra do trabalho desenvolvido pelos brasileiros Florêncio Anton e Sidnei Rocha. Florêncio é médium de efeitos físicos, mais concretamente de psicopictografia, o que significa que pinta, em transe mediúnico, sob a influência dos Espíritos. A convite do Grupo Espírita Allan Kardec, de Coimbra, mais uma vez os dois jovens companheiros de actividades espíritas vieram a Portugal divulgar o Espiritismo, de forma elevada e fraterna, e angariar fundos a favor da obra que ambos gerem, sem fins lucrativos, como é apanágio de toda a actividade espírita.

Fundaram em 1999 o Grupo Espírita Sheilla, que além da divulgação, cumpre funções de apoio às pessoas carenciadas de Mussurunga, bairro da cidade de Salvador. Para tal, têm em construção o Complexo Dr. Ivon Costa e o Lar Vera Lúcia. Em Caldas da Rainha estiveram no dia 3 de Setembro. O Caldas Internacional Hotel cedeu simpaticamente o seu Espaço Millenium, que voltou a ficar lotado pelo segundo ano consecutivo. Florêncio, calmamente sentado na última fila, e Sidnei, dando uma última arrumação nos materiais de pintura dispostos sobre a ampla mesa, em nada se distinguiam da assistência que ia enchendo a sala.

Amélia Reis, do Centro de Cultura Espírita desta cidade, entidade organizadora do evento (de acesso livre e gratuito, como é regra do Espiritismo), tomou a palavra para prestar alguns esclarecimentos sobre o que se iria presenciar, enquadrando o fenómeno na doutrina espírita e chamando a atenção para os objectivos de carácter cultural e filantrópico da actividade.

Florêncio, já perante a audiência, também fez uma breve apresentação do trabalho. Avisados que foram os presentes de que qualquer ruído na sala era percepcionado por ele de forma muito ampliada e susceptível de o fazer sair do estado propício ao desempenho da tarefa, todos acompanharam em silêncio a sua concentração. Para se resguardar de qualquer ruído imprevisto, tinha música na mesa de trabalho.

E começou a pintar, a uma velocidade inacreditável, virando e revirando a tela sem que isso o fizesse abrandar! Com as mãos, com um pedaço de pano, com os tubos de tinta, e... por vezes até com pincéis! No grande ecrã por detrás da mesa via-se o desenvolvimento da obra. Sob o olhar atento de Sidnei, que ia colocando telas, tintas e artefactos ao seu alcance, Florêncio, de olhos cerrados, concluiu a primeira tela em menos de sete minutos!

À obra percorreu a assistência nas mãos de colaboradores do Centro, e muita gente ainda abriu mais a boca de espanto!

ciências afirmam que "é humanamente impossível desenvolver de olhos abertos o que este senhor faz de olhos fechados". Na verdade, ele entreabre os olhos de vez em quando. Nesses breves momentos tem uma visão distante e "embaciada" do que está a acontecer. Não tem consciência das obras que estão a sair das suas mãos. Ao contrário da crença generalizada, os médiuns não "incorporam" espíritos. Os espíritos combinam o seu fluido com o fluido próprio do médium e comandam os seus órgãos para a obtenção dos efeitos que pretendem produzir.

E assim, tela atrás de tela, algumas pintadas em menos de três minutos, as obras iam saindo das mãos de Florêncio. Espantosamente, as camadas de tintas de diferentes cores, justapostas vertiginosamente, não se misturam, como as leis da Física fariam prever. À velocidade de execução, comparada com o apuro do trabalho final, faziam muita gente murmurar que se não visse não acreditaria. As obras faziam bem justiça aos seus autores espirituais.

Renoir, o mais amado dos pintores Impressionistas, abria os trabalhos, e viria a encerrá-los, patenteando o seu tratamento típico da cor e da luz, sempre brilhante. Uma paisagem encantadora, deixando adivinhar os movimentos suaves do arvoredo, e em primeiro plano uma cerca (três certeiros traços com o cabo do pincel, raspando a tinta) foi a contribuição de Monet, o líder incontestado do Impressionismo, que na vida terrena pintava de manhã à noite, ao ar livre, repetições do mesmo tema, e aqui produzia uma obra com todo o seu carisma em escassos minutos.

Um mar agitado e céu tempestuoso, turbilhão de azuis em movimento, foi assinado por Manet, autor de grande sentido de independência e originalidade, que soube como nenhum outro abrir novos caminhos à Arte. Berthe Morisot, também pintora Impressionista, contribuiu com duas obras, fidelíssimas ao seu estilo pleno de doçura, serenidade e clara luminosidade. Van Gogh, o homem que foi pintor durante dez anos da sua vida e produziu mais de 800 pinturas e igual número de desenhos, assinou dois trabalhos, paisagem e plantas, respectivamente, plenos da energia que o celebrizou e emprestou novo impulso à Arte, dando origem ao Expressionismo.

não vendeu um só trabalho. Actualmente é o autor mais disputado no mundo. Nesta noite os seus quadros foram, tal como os outros, vendidos por um preço simbólico. ToulouseLautrec impressionou pela alegria que imprimiu à sua participação. Sob a sua influência, o médium curvou-se e bateu repetidamente com as mãos na tela de forma apaixonada. Sorria abertamente enquanto pintava um retrato feminino. Foi fiel ao seu estilo livre, misto de pintura e desenho, uso muito expressivo da cor, e aos seus temas encantadoramente mundanos.

Corot encerrava este grupo de autores, que em vida foram amigos e em alguns casos parentes. Viveram no século XIX, contemporâneos de Kardec. O mais falsificado pintor de sempre (o que diz bem do seu êxito) produziu uma maravilhosa paisagem, transbordante da frescura e vigor com que soube reinterpretar o classissismo. Tão generoso e afável como consensual na sua estadia na Terra, deixou no trabalho que produziu a mesma impressão.

Henri Matisse, para muitos o grande pintor do século XX, o mestre da cor por excelência, retomou uma das suas temáticas preferidas, a figura feminina, e ofereceu-nos uma obra com a força e harmonia incomparáveis que o caracterizam: uma mulher de esperanças, cambiantes de violeta, largos traços sinuosos a enquadrar o motivo principal. Picasso, sempre tão controverso quanto marcante, apresentou um exemplo da temática não figurativa que o celebrizou.

Tal como a portuguesa Vieira da Silva, que ofereceu uma amostra do seu estilo, que sintetiza tantas influências de forma tão consistente. Modigliani contribuiu com um retrato feminino, pleno da suave elegância que caracterizou a sua obra e influenciou tantos autores consagrados. Salvador Dali, o mestre do Surrealismo, produziu um trabalho que impressionou pela qualidade, absoluta fidelidade de estilo e perfeição técnica conseguidos em tão pouco tempo.

Miró também foi fiel às suas características e apresentou um trabalho não figurativo, patenteando a habitual liberdade e alegria no uso de cores e formas.

Findo o seu trabalho, Florêncio respondeu às perguntas do público. Contou como ocorreu o despertar da sua mediunidade, em tenra

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