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Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 57 min
Suicídio: problema de saúde pública mundial No dia 10 de setembro comemora-se o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, sendo este considerado um grave problema de saúde pública mundial. Em todo mundo a taxa de suicídio aumentou 60% nos últimos 50 anos. Segundo a OMS, a maioria dos suicídios (60%) no mundo ocorrem na Ásia, sendo que 40% ocorrem na China, Índia e Japão. Porém, observa-se que as taxas de suicídio têm aumentado principalmente na população jovem.
Segundo a World Health Organization, 2013, Suicide prevention (SUPRE), suicidam-se diariamente em todo o mundo cerca de 3 mil pessoas – uma a cada 40 segundos e por cada um que se suicida, 20 ou mais cometem tentativas. É fundamental que se organize uma linha de cuidados integrais (promoção da saúde, prevenção dos comportamentos suicidários, tratamento dos comportamentos de risco e recuperação de casos identificados) em todos os níveis de atenção, para se atingir o objetivo no combate aos comportamentos autolesivos (CAL) e às tentativas de suicídio (TS).
O impacto emocional para as famílias e amigos é devastador e o custo económico é da ordem de biliões de euros. A compreensão dos comportamentos autolesivos e dos atos suicidas ultrapassa a compreensão psiquiátrica, tendo uma dimensão multifacetada: social, cultural, psicológica, psicopatológica, antropológica, filosófica e espiritual, sendo uma tarefa complexa e geralmente de etiologia (origem) multideterminada. Para a doutrina espírita é sempre uma transgressão à Lei Natural, ou Lei de Deus, segundo a pergunta 944, de “O Livro dos Espíritos”: “O homem tem o direito de dispor de sua própria vida?
“Não, só Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão dessa Lei”. Aplica-se igualmente a assertiva àqueles que julgam que o suicídio poderá abreviar o sofrimento na esperança de uma vida futura. Lê-se na pergunta 950: “Que pensar daquele que tira a sua vida, na esperança de chegar mais depressa a uma vida melhor?” - “Outra loucura! Que faça o bem e estará mais seguro de a ela chegar, pois desta forma atrasa a sua entrada num mundo melhor e ele próprio pedirá para vir concluir essa vida que ele interrompeu, por um engano (…)”.
Em Portugal, a taxa de suicídios por 100 mil habitantes em 2010 foi de 10,3 e na União Europeia de 9,4, sendo particularmente mais alta em Portugal em determinadas regiões como o Alentejo e o Algarve. Justificam-se estas taxas elevadas pelos maiores índices de alcoolismo e parentalidade nestas regiões. Sabe-se que os alcoólicos são de 5 a 20 vezes mais propensos a cometerem o suicídio, e que a comorbilidade com o uso de outras drogas aumenta o risco de 10 a 20 vezes.
Os dados da literatura apontam para que as tentativas de suicídio são mais frequentes no sexo feminino e em mulheres casadas, numa faixa etária de 40 anos, tendo os homens o maior índice de atos consumados. O uso de métodos menos violentos, como sobredosagens de psicofármacos e analgésicos, é a causa da maior sobrevida entre as mulheres. Em Portugal, na Europa, na América do Norte, as taxas de suicídio aumentam com a idade.
E em Portugal cerca de 50% dos suicídios ocorrem após os 64 anos. É o país da Europa com a maior faixa etária para suicídio em idosos, à volta dos 70 anos. O que nos faz pensar no isolamento, na presença de outras patologias orgânicas e psiquiátricas, dentre elas, a depressão nos idosos. Observa-se também que 15 a 25% das pessoas que tentam o suicídio cometem nova tentativa no ano seguinte; cerca de 33% tentaram suicidar-se anteriormente, muitas vezes utilizando na tentativa os medicamentos prescritos pelo seu médico e 10% concretizaram a tentativa nos próximos 10 anos.
Emanuel, no Livro “O pensamento de Emanuel”, capítulo 35, responde à seguinte questão: - “O que leva o indivíduo ao suicídio? - Falta de Fé” - “Qual a situação do suicida após a morte? - Sai do sofrimento para entrar na tortura!” - “Quais as consequências futuras? - Reencarnações frustradas quando maior for o anseio de viver!” Isto faz pensar que realmente o suicídio, quando somos conhecedores da realidade espiritual, não é uma solução!
Outra faixa etária, que hoje em dia tem sido o foco de atenção das campanhas de prevenção, é a dos adolescentes. A dimensão do problema aponta para a previsão de que cerca de 10% a 18% dos adolescentes irá ter pelo menos um episódio de comportamento autolesivo, sendo esta uma média nas amostras internacionais. E em metade destes casos trata-se de um comportamento que se repete (não um ato isolado). Em Portugal estudos indicam para uma prevalência entre 7% e 16% dos adolescentes terem comportamentos autolesivos.
Observa-se na magnitude do problema que os CAL (comportamentos autolesivos) na adolescência aumentam substancialmente o risco de suicídio na vida adulta, representando jáanível internacional uma das três principais causas de morte entre os 15 e os 24 anos. Traduz-se sempre como um problema familiar, que nunca é só do indivíduo, mas que se estende, no caso dos adolescentes, aos colegas, à escola, à sociedade. Está muitas vezes associado a outros problemas, como depressão, ansiedade, “bullying”, consumo de substâncias.
Os comportamentos autolesivos e os atos suicidas são entendidos como um conjunto de fatores que envolvem: Doença psiquiátrica + Fatores psicológicos + Influência genética + Neurobiologia + Fatores culturais. (Hawton et al., 2012). Com a compreensão espírita poderemos acrescentar os fatores espirituais. Quando falamos em fatores de risco é importante perceber as circunstâncias, condições, acontecimentos de vida, doenças ou traços de personalidade que podem aumentar a probabilidade de alguém realizar um comportamento (suicida).
Podemos citar alguns fatores de risco sociodemográficos e educacionais segundo Guerreiro DF, Nazaré S. in ”Manual de Psiquiatria Clínica”, Figueira ML, Sampaio D, Afonso P. LIdel (2014): . Idadeas TS aumentam com a idade, apresentando uma maior incidência na fase final da adolescência e adulto jovem. Orientação homossexual e bissexual – reúne 6 vezes risco mais elevado para CAL sem intenção suicida ou TS; 20-40% dos jovens homossexuais têm TS entre os 15 e 17 anos.
O isolamento socialestá entre os principais fatores de risco; poderá estar relacionado com fatores geográficos ou associado a perturbações psiquiátricas que conduzem a este isolamento. Pelo contrário, também existe o efeito do Contágio social, outro fator de risco importante, pelo contacto direto ou indireto (através dos “media” ou internet). Baixo nível socioeconómico; Baixo nível educacional; Insucesso ou abandono escolar.
História de abuso físico ou sexual. “Bullying” - seja como vitima ou agressor. Acesso a meios letais: armas de fogo; medicamentos de “maior risco”, pesticidas, herbicidas, etc. Barreiras no acesso aos cuidados de saúde. Estigma associado a uma doença mental ou a uma minoria étnica ou sexual. Experiências adversas na infância: Separação ou divórcio parental, morte de um dos progenitores. Estrutura familiar disfuncionalfamílias com alta rigidez e ou coesão, autoridade excessiva ou inadequada, expectativas rígidas ou irrealistas, frequentes conflitos intrafamiliares, dificuldades marcadas na comunicação e escassas redes de sociabilidade.
Negligência familiar. Doença mental parental ou história familiar de comportamentos suicidas; . Perdas importantesamigos, namorado(a), morte de uma pessoa significativa; . Doença física incapacitantesobretudo se estiver associada a défices funcionais, alteração da imagem corporal, dor crónica, dependência de terceiros; . História de Comportamentos autolesivos prévios; História de doença mental: Perturbações do humor; Perturbações de ansiedade; Perturbações do comportamento; Perturbações psicóticas; Algumas perturbações da personalidade; abuso/ Dependência de álcool ou drogas (em particular “cannabis” e tabaco).
Outros Fatores psicológicos: Desesperança; impulsividade, hostilidade e agressividade; baixa auto-estima; Dependência e desamparo; Dificuldades na resolução de problemas; perfecionismo e rigidez; Escassos recursos de “coping”. Quando falamos em Fatores Protetores, citamos: boa capacidade da resolução de problemas e conflitos; Iniciativa no pedido de ajuda; Noção de valor pessoal; Abertura para novas experiências e aprendizagens; Estratégias comunicacionais desenvolvidas; Empenho em projetos de vida.
Remetendo para o conceito atual de uma regulação emocional ajustada. A nível familiar: Um bom relacionamento familiar; com harmonia, onde as pessoas possam sentir-se ouvidas, compreendidas, onde haja diálogo, onde o adolescente possa expressar as suas ideias e identidade. Onde haja presença de suporte e apoio; Relações de confiança; Cuidados parentais mantidos e afirmados. A nível social: Ambiente escolar positivo; facilitador da formação de vínculos afetivos fortes; relações com pares de confiança; capacidade de se sentir incluído num grupo, de ter um sentido de pertença.
Boas relações com professores e outros adultos; facilidade de acesso aos serviços de saúde; Boa articulação entre os vários níveis de serviços de saúde e parcerias com instituições que prestam serviços sociais e comunitários; Participação em alguma iniciativa cultural, desportiva, religiosa, ou étnica. De uma forma geral, o suporte familiar, social, o encontro com a espiritualidade, o sentido lato da religiosidade parecem ser fatores protetores à desesperança daquele que sofre face à dor da vida, do desespero da perda, do amargor da doença, do sentimento de inutilidade do idoso ou simplesmente do sentimento de vazio existencial.
É importante realçar: como o suicídio é uma condição multideterminada não é um único fator de risco ou protetor que determina ou evita o ato suicida. Devemos pensar neles em conjunto e enquadrá-los no contexto do indivíduo e da sua história biográfica, sendo a intervenção sempre também multidimensional, não sendo, no entendimento espiritual da questão, nunca uma solução. Se um dia pensar nisso, não hesite: peça ajuda!
Por Gláucia Lima, médica psiquiatra SETEMBRO.OUTUBRO.2016 Segundo a World Health Organization, 2013, Suicide prevention, suicidam-se diariamente em todo o mundo cerca de 3 mil pessoas – uma a cada 40 segundos e por cada um que se suicida, 20 ou mais cometem tentativas. foto ulisses.com.
