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Editorial / Conto Setembro.outubro.2016

Jornal de Espiritismo nº 78 · Setembro 2016Página 25 min

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EDITORIAL / CONTO SETEMBRO.OUTUBRO.2016 Há quem acredite que tudo na natureza se reduz a expressões matemáticas. A corola de um girassol inclui séries de Fibonacci, por exemplo, e, em suma, tudo o que veste os números nada mais é do que uma representação inteligível quer para as perceções quer para o entendimento. Vencedores e vencidos, não só em matéria de desporto, na matemática também podem trocar de posições se devassarmos a aparência dos factos multiplicando-os por menos um.

No futebol profissional Portugal é campeão europeu. O que se afigurava improvável à partida afivelou-se a um sincronismo tal de pormenores que o que se assemelhava uma vaga possibilidade se foi consolidando dentro das regras em vigor. Podia ter sido algo que fossilizaria com o tempo na memória dos adeptos do desporto em causa e não passaria nestas linhas se não houvesse um momento fortuito captado por uma das câmaras de vídeo da Euronews em serviço nas redondezas do estádio da final.

Vi o registo primeiro num telejornal, curiosamente, e veio pela mão de uma criança de dez anos de idade, vitoriosa, em festa com quem a acompanhava. Bandeira a rolar sobre a cabeça, o pequeno vencedor viu um adepto francês em lágrimas, vencido. Supõe-se que lhe pareceu estranha a alegria esfuziante que o tomara diante de alguém que estava no polo oposto. Parou. Não é um mero observador, que respeita a tristeza do outro, à distância, passivo.

Com a gentileza que quem domina o tacto sabe ter, abeira-se de quem nem o vê entre cortinas de lágrimas, toca-lhe na mão a cobrir os olhos, desperta-o e parece dizer-lhe sem legendas nem áudio: “Não chores. Vais ver que no próximo campeonato a tua equipa vai ser campeã!”. Inconsolável, o jovem adulto francês num segundo passa da estranheza do gesto à gratidão. Abraçam-se. O francês segue ainda com algumas lágrimas. O pequenino olha-o a distanciar-se por momentos.

Passa a vista em volta, parece reconsiderar, sem perceber o registo, recaptura o júbilo do dia, sorri e, sem amesquinhar ninguém, vê-se ainda a bandeira portuguesa na mão a rodopiar sobre a cabeça no saltarico da vitória. O golpe de vento Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrara a grande janela, à procura de ar fresco. Repousara minutos breves. Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim. Julgara haver lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte.

Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico. E, não obstante espírita convicto, deixava-se levar por impressões. Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos. A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro dos bacilos de Koch. Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas. Entretanto, mal não acabara de se convencer do contrário, quando, numa noite, ao sentir-se trémulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson e foi nova luta para que lhe desanuviasse o crânio.

Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou-lhe a pele e ei-lo crente de que fora atacado pela púrpura hemorrágica, obrigando o médico e a família a difícil trabalho de exoneração mental. Naquele instante, contudo, via-se derrotado. Experimentando muita dor, buscara o consultório na antevéspera e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatóide, recomendando cuidados especiais.

Derrota e êxito são inevitáveis na vida, tal qual equações e números imaginários na matemática, mas o respeito pela posição momentânea do outro, sobretudo quando somos vitoriosos, é próprio de almas grandes que também passam pela infância. Derrota e êxito são inevitáveis na vida, tal qual equações e números imaginários na matemática, mas o respeito pela posição momentânea do outro, sobretudo quando somos vitoriosos, é próprio de almas grandes que também passam pela infância.

Se não viu, o que será difícil, é provável que ainda consiga ver o vídeo da Euronews no Youtubehttps://youtu.be/rCbWIULyVA0 Quanto à matemática possível, fazemos votos de que seja a da paz e da alegria a multiplicarem-se na leitura destas páginas. foto arquivo foto arquivo No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampejantes no ombro esquerdo, tomou o livro de anotações médicas e abriu no capítulo alusivo à moléstia que lhe fora diagnosticada.

Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole d’água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume. Voltando, sobressaltado leu nas primeiras linhas da página: “A moléstia assume a forma de dor pungente e agonizante. Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte. Sofrimento agudo e invencível. A dor começa no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios”.

Joanino rendeu-se. Quis gritar, pedir socorro, mas “a dor agonizante”, ali referida, crescia assustadora. Pensou na mulher e nos quatro filhinhos. Suava. Afligia-se como que sufocado. Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na ideia da desencarnação, rendeu-se à morte. Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele.

O amigo abraçou-o emocionado, e falou: - É lamentável que você tenha vindo antes do tempo... - Como assim? – respondeu Garcia, arrasado. – Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade. Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na ideia da desencarnação, rendeu-se à morte. - Houve engano – explicou o instrutor – os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito e não à artrite reumatóide como a sua leitura fez supor.

A corrente de ar virou a página do livro. Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com 14 anos de sobrevida... Entretanto, com o peso de sua tensão mental... Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento. Fonte: livro “Ideias e Ilustrações”; Hilário Silva (Espírito), psicografia de Francisco Cândido Xavier.