ecologia: existem afinidades?
Jornal de Espiritismo nº 81 · Abril 2017Página 193 min
Espiritismo e ecologia: existem afinidades? Doravante teremos mais uma secção fixa neste jornal bimestral. Aborda área importante: espiritismo e ambiente. Para entrar com o pé direito, como se costuma dizer, recorremos a uma entrevista de nossa autoria, feita em Lisboa, poucas horas antes da conferência que este jornalista de além-mar deu no Congresso Espírita Mundial, em outubro de 2016. A indagação era incontornável… Há relação entre espiritismo e ecologia?
André Trigueiro* – Sim. Espiritismo e ecologia nascem no mesmo período histórico, que é a segunda metade do século XIX, em países fronteiriços, França e Alemanha, no intervalo de nove anos: em 1857 há o lançamento de «O Livro dos Espíritos», por Allan Kardec, e em 1866 um naturalista alemão chamado Ernest Haeckel cunha a expressão – é um neologismo como é a palavra espiritismo – ecologia, estudo da casa, que significa um olhar inter-relacional e sistémico que tenta revelar os mecanismos que propiciam a vida, as engrenagens da vida, que são inter-relacionais.
O universo poderia ser descrito por espíritas e ecologistas como um conjunto de fenómenos interligados, interdependentes, que interagem constantemente. Espíritas e ecologistas têm, portanto, um olhar ético sobre a civilização que denuncia as mazelas do egoísmo, do edonismo, do individualismo… Portanto, espíritas e ecologistas têm uma afinidade enorme na capacidade de não descrever as leis que regem a vida e o universo de maneira linear, mas de maneira sistémica e complexa.
Temos várias afinidades, quais sejam: espíritas e ecologistas denunciam a poMARÇO.ABRIL.2017 luição. Os ecologistas a poluição visível e mensurável do ar, do solo e das águas. Os espíritas denunciam a poluição da psicosfera, do campo eletromagnético, saturado de miasmas e formas-pensamento decorrentes de boa parte do emprego do nosso tempo, plasmando pensamentos de baixo teor vibratório que contaminam o ambiente à nossa volta.
A soma das psicosferas em desequilíbrio gera um ambiente que não favorece a saúde, o equilíbrio, a esperança, a auto-estima, a vontade de viver. Espíritas e ecologistas denunciam a necessidade da urgência em favor da vida. Os ecologistas mostram que a resiliência da Terra está comprometida e que não continuará a suportar por muito tempo tamanha devastação, destruição, delapidação dos recursos naturais não renováveis fundamentais à vida.
Os espíritas por sua vez denunciam a urgência de aproveitamento de uma reencarnação-chave no período de transição: não temos todo o tempo do mundo para carimbar o nosso passaporte para retornar à Terra, porque a Terra está a ser promovida na escala dos mundos, razão pela qual convém empregar com inteligência o tempo e a energia de que dispomos nesta vida, nesta reencarnação. Espíritas e ecologistas denunciam o absurdo do consumismo.
O consumo favorece a vida. Precisamos de consumir para viver. O consumismo, por sua vez acelera a entropia, o desgaste, a perda de água ou de matéria-prima e de energia sem uma finalidade útil ou nobre. Do ponto de vista espírita há uma armadilha evolutiva quando nos deslumbramos com a matéria. É nesta altura do campeonato! Já passámos do mundo primitivo, estamos no mundo de provas e expiações, vem aí o mundo de regeneração… o apelo à matéria é característica predominante, segundo Santo Agostinho em «O Evangelho Segundo o Espiritismo», de um mundo primitivo.
Portanto, esse deslumbramento atávico com a matéria é-nos muito prejudicial, especialmente num momento estratégico de evolução do planeta em que precisamos de qualificar a nossa vibração para aqui podermos permanecer. Espíritas e ecologistas têm, portanto, um olhar ético sobre a civilização que denuncia as mazelas do egoísmo, do edonismo, do individualismo… Então, o ecologista e o espírita falam do projeto coletivo, do espírito comunitário solidário.
Menos automóvel, mais transporte público de massas, eficiente, barato e rápido. Menos deslumbramento com consumo de proteína animal e uma dieta mais favorável à nossa saúde e à saúde do planeta. Este é o assunto de um livro. Eu não conseguiria aqui detalhar todos os aspetos que me parecem sinérgicos entre espíritas e ecologistas. * André Trigueiro é jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental, é professor e foi quem criou o curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ.
Foi repórter do “Jornal das Dez” da Globo News. Desde 2012 que é repórter da TV Globo e colunista do “Jornal da Globo” onde apresenta o quadro “Sustentável”. Ao longo dos anos alguns dos seus trabalhos receberam vários prémios. A somar a isto é escritor e espírita. André Trigueiro tem um livro sobre este tema intitulado “Espiritismo e Ecologia”, já publicado em Portugal. O tema continua na próxima edição deste jornal com esta pergunta: É raro ouvir falar de temas ambientais numa associação espíritacomo explica isso?
