entrevista Espanha: Franco fuzilou espiíritas Manuel Aguilar Garcia, d
Jornal de Espiritismo nº 9 · 2005Página 75 min
Espanha: Franco fuzilou espiíritas
Manuel Aguilar Garcia, da cidade de Montilla (Andaluzia espanhola), nasce a 7 de Março de 1926 no período final da Restauração dos Borbones. Em plena ditadura de Miguel Primo de Ribera, como espírita, o jovem Manolo passa pela convulsão de vários períodos históricos: desde a II República (1931-1936), a Guerra Civil (1936-1939), o pós-guerra (1939- 1975), mais conhecido pela ditadura do general Franco, o período de transição (1975-1978) e finalmente pela Democracia
Restaurada (1978). Homem meigo e sincero, de uma cultura invulgar. Aqui fica a entrevista de quem muito viveu e
Como conheceu o espiritismo? Manuel Aguilar GarciaPelo casamento de minha irmã, que era médium. O seu marido conhecia o espiritismo, que já se praticava em Montilla desde 1918. A partir dessa data, a minha família começou a frequentar um centro espírita. Havia então um centro espírita em Montilla?
MAGSim, havia. O Centro Espirita Amor y Progreso, do qual ainda faço parte.
Lembra-se como tudo aconteceu? MAG -- Tinha nove anos. Um comerciante local de tinajas* (vasilhas cerâmicas para a fermentação do vinho), que percorria várias localidades da região, espalhou o ideal espírita pela cidade, muito bem aceite pelo povo. Minha mãe e irmã quando chegavam comentavam entre si a doutrina espírita e eu escutava atentamente.
Que papel tinham os comerciantes na época? MAGEram como os jornalistas da actualidade. Levavam e traziam a informação ao povo das localidades por onde passavam. Tinham grande mobilidade, logo, tinham acesso a muita informação, até às provenientes de Paris e de emigrantes espanhóis que regressavam da cidade-luz com a Boa Nova: o espiritismo.
MAGVivia-se um período difícil. Havia muita fome, muito trabalho e total isolamento. Naquela época estávamos isolados do resto de Espanha e do mundo e os comerciantes eram a própria notícia.
Existiam comerciantes espíritas?
MAGO espiritismo tinha sido difundido pelos comerciantes. Um dos que conheci era espírita e actuava como um verdadeiro difusor da doutrina espírita.
Esse isolamento não teria sido benéfico também?
MAGSem dúvida alguma. Face a esse isolamento, o ambiente sociocultural na Andaluzia proporcionou a difusão das obras de Allan Kardec. Os espíritas multiplicavamse. Não foi por mera casualidade que Amália Domingo Solera grande senhora do movimento espírita espanholnasceu na Andaluzia.
MAGA partir da Guerra Civil (1936-39). A igreja, o exército e os latifundiários passaram a ser os donos, os senhores, os juízes e carrascos por toda a Espanha. Havia duas sociedades distintas: eles, os senhores feudais, militares e padres, e nós, o povo que trabalhava e morria para eles. Sem dinheiro, comida, médicos... éramos autênticos escravos.
O que aconteceu aos espíritas?
MAGForam perseguidos, torturados e fuzilados. Em Agosto de 1936, dois membros do Centro Espírita Amor y Progreso de Montilla, Pedro Almenta Varga e Solano Flores, são fuzilados.
Fuzilados por serem espíritas?
Do que se recorda daquela época? MAGEra muito jovem. As reuniões desapareceram momentaneamente. Era um período de terror. O espiritismo era bastante aceite pelo povo, e por estarmos isolados, todos se conheciam uns aos outros. Os padres e militares conheciam-nos um a um. Época difícil. Algo mudou na vossa família?
MAGSim. Meu tio, era um político contra o regime fascista e foi fuzilado também em Agosto de 1936. A partir desse momento, meu familiar que fora assassinado, começa a se comunicar através de minha mãe que era médium de efeitos físicos. Ele, informava-nos de como ia a guerra. Estávamos muito bem informados por meu tio, e ficamos muito surpreendidos de como tinha terminado. O que o senhor fazia?
MAGO que toda a gente fazia. Trabalhar duramente. Muitas horas por dia no campo para podermos levar algo para casa para comermos.
Quando recomeça a frequentar as reuniões na clandestinidade?
MAGDepois de regressar do serviço militar obrigatório, que à época durava dois anos. De que ano está a falar?
MAGDeixei a vida militar em 1949. O Centro Espírita Amor y Progreso continuava a existir?
MAGSim. Mas na clandestinidade. As reuniões continuavam. Mudávamos de local sistematicamente, para despistar os padres e militares que nos perseguiam.
MAGSim, tínhamos livros. Eram o nosso tesouro. Estavam escondidos dentro de um tabique na casa do alfaiate da nossa povoação. Sendo o nosso tesouro, estavam muito bem escondidos dos padres e militares. Envolvíamos com um saco de yuste* (tecido feito de fibras vegetais) para protegê-los, porque para comprálos, custava-nos muito.
MAGComo disse, eram o nosso tesouro. Tínhamos que os preservar. Cada livro que comprávamos, custava-nos muito mesmo. Às vezes passávamos fome para os ter. Como estavam escondidos em locais pouco usuais, surgiu um outro problema, os ratos. Os ratos chegaram a destruir algumas partes. Cada livro tinha um valor incalculável para o conhecimento da doutrina espírita. Era o único meio e o mais valioso que contávamos para estudar. Como sabes o estudo para um espírita é fundamental.
Como faziam para comprar? MAGTodos nós éramos muito pobres. Cada um dava uns cêntimos e famos juntando até atingir algum valor, o que por vezes levava anos até podermos adquirir mais uma obra de Kardec. Durante a ditadura do general Franco o que é que faziam para não serem descobertos? MAGEstávamos constantemente vigiados pela Guardia Civil. Numa povoação pequena, todos nos conhecíamos uns aos outros. Partilhávamos o nosso ideal com os nossos vizinhos e amigos.
Inclusive no campo. O padre sabia de nossa existência. Tínhamos de ter muito cuidado. Todos eles sabiam que a nossa família era espírita. Assim, reunfamo-nos em casa de familiares, amigos e muitas vezes em lararetas* (pequeno lagar). Dávamos a entender que Íamos em visita social ou trabalhar, como se fôssemos casais, famílias ou amigos. Não poderíamos ter um sítio fixo.
Como nunca foram descobertos!? MAGGraças a nossos guias espirituais. Os nossos antigos irmãos desencarnados, que haviam fundado o Centro Espírita Amor y Progreso, regressavam para nos ajudar. Aconselhavam-nos quando deveríamos de mudar de sítio e para onde. Muitas vezes a Guardia Civil ia a uma casa em que já tinhamos reunido tentando apanhar-nos e revistavam tudo para apanhar vestígioso nosso tesouro (os livros). Nunca nos apanharam, graças aos irmãos desencarnados que sabiam antecipadamente do que iria acontecer e sugeriam-nos o que fazer.
Tem alguma recordação dessas reuniões? MAGVárias são as histórias. Posso contarte que uma noite, cerca das 3 de madrugada, éramos 15 homens, saímos de uma reunião que tínhamos feito numa casa na periferia de Montilla. Saímos todos juntos, pois a caminhada era longa, quando surge a Guardia Civil. Assustámo-nos. Tranquilamente saudámo-los. Aproximaram-se e começaramse a rir, pois pensaram que saímos de um bordel, já que a casa que estávamos era junto ao bordel. Repito, sempre e em todo o momento, nossos guias nos avisavam de tudo. Que mais informações os guias vos davam? MAGOs nossos guias protectores aconselharam-nos também sobre as medidas a tomar para assegurar o progresso do povo

