saúde Estudos psico(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à lu
Jornal de Espiritismo nº 9 · 2005Página 36 min
Estudos psico(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Façajáa(s) sua(s) pergunta(s)!
O verdadeiro papel do Centro Espírita
No dia 4 de Agosto deste ano foi-nos repassada a seguinte carta de uma leitora, aflita: "Estimado senhor Dr. Iso, peço desculpas pelo incómodo, todavia, aproveitei a oportunidade que o senhor doutor e o «Jornal de Espiritismo» me ofereceu para solicitar orientação. Frequento um centro espírita, não por mim, mas porque tenho um filho que consume drogas duras e, o meu marido, álcool. Como psiquiatra e espírita o senhor pode-me dar essa orientação?!” A.C.-Tondela.
A nossa leitora solicita-nos orientação quanto a familiares dependentes de "drogas duras" e diz ser frequentadora de um centro espírita, destacando: "(...) não por mim"... Como se vê, essa senhora talvez esteja mal orientada quanto às funções do Centro Espírita e o seu verdadeiro papel.
Funções do centro espírita: Muitas pessoas, aqui no Brasil, e parece que também em Portugal, encaram o Centro Espírita como uma igreja mística, talvez pelo ranço católico, ainda existente no Espiritismo de Portugal e no alémmar, aqui no Brasil... O Centro Espírita não tem a função específica de resolver problemas de saúde das pessoas, não obstante, muitos dos seus dirigentes, e frequentadores com maior conhecimento doutrinário, deveriam estar aptos para o atendimento fraterno a pessoas que buscam o Espiritismo pela dor, física ou moral.
A nosso ver, o Centro Espírita é o local de convergência de pessoas interessadas no estudo da Doutrina Espírita, na prática mediúnica e nas suas consequências morais, isto é, na prática da caridade bem compreendida, dirigida tanto a encarnados quanto a desencarnados, daí a importância de trabalhos de desobsessão em todos os Centros Espíritas.
Por tudo isso, especialmente, os dirigentes espíritas precisam conhecer profundamente as obras de ALLAN KARDEC, e as pessoas que acorrem aos Centros Espíritas em busca de consolação espiritual precisam de orientação segura e necessária quanto às suas dificuldades espirituais, e tais dificuldades são personalíssimas, intransferíveis...
Por isso, prezada A.C., a Sra. deve frequentar um Centro Espírita bem orientado. Encontrará aí um ambiente de harmonia e fraternidade e de estudo sério da Doutrina dos Espíritos, codificada por ALLAN KARDEC. À proporção que o seu conhecimento doutrinário for crescendo, a Sra. saberá como melhor lidar com seus familiares problemáticos e, muitas vezes, deverá ter uma certa resignação, porque frequentemente os familiares problemáticos surgem na nossa vida como provas para nossa evolução espiritual.
Obviamente, caríssima leitora, o Centro Espírita poderá ajudar seus familiares, através de preces ou eventual trabalho de desobsessão, mas sem a disposição do seu filho e do seu marido para enfrentarem seus próprios problemas, os espíritos superiores pouco poderão ajudá-los, pois tal classe de espíritos nunca tentam interferir no livre-arbítrio das pessoas. Dependência de droga e de álcool: Como psiquiatra e espírita, a orientação que lhe damos, Sra. A. C., é que procure um psiquiatra aí em Portugal, de preferência espírita. Explique-lhe as suas apreensões e tente encaminhar seu filho e seu marido para tratamento médico-psiquiátrico.
As "drogas fortes" em geral, como a morfina, a cocaína, a heroína, haxixe, etc. geram uma dependência psicofísica, problemas financeiros e desestruturação familiar, na maioria das vezes, e, por isso mesmo, o tratamento deve ser realizado por uma equipa multiprofissional, isto é, por psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais. Além disso, há o problema da ilicitude
das drogas, o que envolve, muitas vezes, aspectos legais, nos quais quase sempre as pessoas dependentes se envolvem... Enfim, há outra dimensão humana que não pode ser esquecida, talvez a mais importante, trata-se da dimensão espiritual. As pessoas dependentes da droga não estão, na maioria das vezes, com o livre-arbítrio comprometido, por isso, para quase todas elas vale o dito popular: Ajuda-te que o céu te ajudará.
Se o dependente não se dispuser a afastarse da droga, pouco pode ser feito para ele e, neste caso, haverá a agravante de que, nesta condição, abrirá a "porta" a hóspedes indesejáveis: os obsessores. AÀ pessoa dependente está sintonizada com a pior espécie de espíritos desencarnados, que se aproveitam da invigilância dessas pessoas para aniquilarem, espiritualmente, os seus eventuais algozes de encarnações pretéritas, hoje vítimas...
Neste caso, também se enquadram os dependentes de álcool; este também é uma droga, mas, na maioria dos casos de dependentes de álcool, os prejuízos são adquiridos a médio e longo prazo e não são agudos, como no caso das "drogas fortes". Em muitos casos de dependência de "drogas fortes" e de álcool há necessidade de internação psiquiátrica involuntária, isto é, à revelia da vontade do dependente, incluem-se nestes casos as psicoses alcoólicas, com alucinações e delírios (Delirium tremens, Alucinose alcoólica, Delírio de ciúmes dos bebedores) e aqui também se incluem as síndromes de abstinência das "drogas fortes", cujas descrições não cabe aqui no espaço de que dispomos.
Orientação às famílias de pacientes dependentes: Os dependentes da droga em geral, inclusive do álcool, devem ser tratados por uma equipa psiquiátrica multiprofissional, inclusive com ingestão diária de medicamentos psicotrópicos indicados para cada caso... Mesmo na eventualidade de uma obsessão, onde há necessidade de um trabalho de desobsessão, os medicamentos não devem ser descartados, pois o homem é um TODO, individual, em suas dimensões bio-psicosociocultural e ESPIRITUAL.
O Centro Espírita é um local, por excelência, de estudo do Espiritismo e de prática mediúnica. Os chamados "tratamentos espirituais", a nosso ver, não cabem num Centro Espírita, até porque discordamos de que o Espírito adoeça, rigorosamente falando... Não obstante, a aplicação de passes magnéticos e espirituais possui uma função no reequilíbrio energético do organismo de uma pessoa, e devem ser aplicados nos Centros Espíritas, ou fora deles, como complemento do tratamento médico dos dependentes, ou seja, não se deve dispensar o tratamento médico em casos de doenças...
É preciso ressaltar-se que o passe só deve ser aplicado por pessoas sãs, física e mentalmente e sem problemas espirituais sérios, pois sendo o passe uma doação de fluidos, não deve uma pessoa que está precisando de fluidos restauradores, doar o seu, que está em desequilíbrio. Propor-se a uma pessoa obsidiada ou doente mental (mesmo neuróticos leves) que aplique passes
num Centro Espírita seria atitude semelhante àquele que propusesse a uma pessoa com anemia grave que doasse seu sangue, ou seja, seria um absurdo; mas, parece que tal comportamento ocorre com alguma frequência em Centros Espíritas mal orientados. Enfim, caríssima Sra. A.C., continue a frequentar um Centro Espírita, mas não busque nele a solução para os seus problemas. Ele poderá ajudá-la a encontrar seu caminho, mas a resolução das suas inquietações espirituais é tarefa sua, individual, intransferível.
Prezados leitores, procurem levar seus familiares, dependentes de drogas, a um psiquiatra, para que ele diagnostique e trate deles. Se seus familiares forem simpatizantes do Espiritismo, estimule-os a frequentar um Centro Espírita sério, para orientação conveniente; se eles se recusarem, que assumam a responsabilidade pelos compromissos reencarnatórios que terão de assumir, certamente, em vindouras encarnações. Isto me parece doloroso, Sra.
A.C., mas é com a realidade sem véu que procuramos esclarecer os nossos leitores, embora a vida espiritual sempre nos reserva uma consolação para as nossas aflições e, certamente, não será diferente no seu caso... A Sra. poderá alegar que estamos sendo muito duros na nossa apreciação, no entanto, as palavras de KARDEC são cristalinas em relação à Justiça Divina, leia a observação dele, a propósito de UMA NOVA CURA DE UMA JOVEM OBSEDADA DE MARMANDE: "Se se perguntasse por que Deus permite que maus espíritos saciem sua raiva nos inocentes, diremos que não há sofrimento imerecido, e aquele que hoje é inocente e sofre, sem dúvida tem ainda alguma dívida a pagar.
Esses maus espíritos servem, neste caso, de instrumento de expiação. Sua malevolência é, além disso, uma provação para a paciência, a resignaçãoea caridade".(REVISTA ESPÍRITAJornal de estudos psicológicos. ALLAN KARDEC. Ano 1865, EDICEL, São Paulo, trad. JULIO ABREU FILHO, p. 13). Essa é a nossa orientação, Srs. leitores, e que a Sra. A .C. não se aflija, pois DEUS é Misericordioso e, muitas vezes, o sofrimento resignado de hoje traz benefícios espirituais,incalculáveis, amanhã (sem masoquismo).
Texto: Iso Jorge TeixeiraCREMERJ: 52-14472-7 - Livre-docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de JaneiroBrasil.
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