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Jornal de Espiritismo nº 1 · Novembro 2003Página 94 min
O espiritismo é uma doutrina que assenta no seguinte tripé: filosofia, ciência e moral. O seu alicerce reside nos factos. Estes, contudo, geralmente convertem-se com o tempo em histórias contadas de boca em boca. Por falta de hábito, inúmeros detalhesque poderiam ter sido já pesquisados numa grande diversidade de casos ocorridos com mais gente do que se poderia imaginar à partidaperdem-se e com
eles um excelente material de estudo.
Ainda assim, respeitados parâmetros de fidedignidade, consegue-se recolher, na melhor fonte, relatos interessantes a partir directamente dos protagonistas. E material que sai do baú discreto da família e que «não há interesse em divulgar», ouvimos.
Mas a amizade faz com que o relato avance. Neste caso, espelha-se a perplexidade de quem tem faculdade mediúnica de vidência, sem saber, e num consultório, sem perceber como, vê o pai desencarnado do próprio médico, que dá informações à médium (que nem sabe que o é, nessa altura), que o filho, estupefacto, confirma...
Fizemos questão de trocar nomes, pois temos o compromisso com a pessoa entrevistada de não a expor. O texto é directamente extraído da gravação, sem que tenha recebido qualquer tratamento transformador.
Maria era então uma jovem, hoje uma senhora, já mãe. Conta uma das muitas passagens da sua vida, quando já tinha faculdades mediúnicas ostensivas e não sabia. Nessa época, não tendo bem noção do que se passava com ela, sentia-se perturbada. Apenas se equilibrou, disse-nos, pouco a pouco depois de começar a educar essa sensibilidade. Eis o discurso directo:
Maria - (...) Passados dois dias, durante os quais não me consegui levantar, fui lá com uma certa ansiedade de falar com o Sr. Dr. porque eu queria ainda ir ao salão de cabeleireira atender duas clientes (eram clientes muito boas, daquelas que me faziam falta, pois
O médico tinha sempre muitos clientes. Cheguei ao consultório e perguntei à empregada se o Sr. Dr. iria demorar a atenderme. Eu vi o consultório cheio de gente à espera. A menina diz-me que só tem uma pessoa. Quando olhei, verifiquei que havia várias. Uma senhora levantou-se e diz-me: Eu doulhe a vez. Esta era a verdadeira entre as outras todas.
— Não notava nenhuma semelhança entre as pessoas que viu à espera da consulta e a que lhe deu a vez?
MariaNão; era tudo igual. Aos meus olhos era tudo igual. Pensei então que não ia demorar-me muito. Saiu uma senhora da consulta e entro eu. Comecei a conversar com o Sr. Dr. e tal, e expliquei-lhe logo a situação: Sr. Doutor, então não é que eu continuo louca! Fiz os tratamentos e verifico... eu cheguei, perguntei, dizem-me que a sala só tem uma pessoa à espera e eu vejo em redor várias pessoas que estão para ser atendidas. O médico levanta-se, abre a porta, olha e diz: Só está uma. Respondo: Então é o que digo: continuo louca!
Lembro-me que fiquei profundamente triste, e até sem vontade de ir ao salão atender as tais clientes.
Estava assim bastante em baixo de forma. O médico estava a começar a preparar os papéis e vi, de repente, entrar do lado da porta um senhor de cabelos brancos, com um ar fino, muiito distinto, e eu, ao olhar para ele, acheio tão parecido com o médico que olhei para
um e para o outro. E disse para comigo: são tão parecidos! Têm traços tão semelhantes entre Si...
Olhava para o idoso, que sorria, calmamente. Disse ao médico: Sr. Doutor, fui louca lá fora e estou a ser agora louca cá dentro... porque vai a entrar agora um senhor de cabelos brancos com uma postura muito fina, e é muito parecido com o senhor doutor.
Ele parou. Olhou para mim. Continuei: Com uns cabelos grisalhos, aquele grisalho muito bem tratado, um homem muito bonito. Eomédico perguntou: Como está vestido? Respondi: Fato cinzento com risca branca. O idoso distinto entretanto faz um gesto e vejo o colete. Digo: Tem uma risca maior, não corresponde à risca de fora (as riscas são iguais, mas mais longas, não são iguais).
Continuei: Traz também uma gravata do casamento (fez questão de o afirmar). E de cetim, penso, uma gravata brilhante, muito bonita.
Diz o Doutor, curioso: Consegue ver-lhe as mãos?
Não, não consigo. Vejo só o tronco até ao começo da calça, mas não vejo mais nada. E ele diz: Não consegue ver as mãos? Afirmo: Não, assim não consigo.
E o senhor entretantoque estava a escutar, com certezapõe uma mão pousada sobre o outro braço (a entrevistada faz o gesto) como se estivesse assim com os braços dobrados. O médico pergunta: Tem alguma coisa nas mãos?
Exprimo o que vejo: Sim, não tem os dois dedos pequenos de uma das mãos.
Declaro: Não, não tem. E tem um bocadinho mais cortado na mão.
Insiste o esculápio: Mas verifique bem, por favor. Não tem?
Não, e acho que foi num acidente, tinha os dedos mas agora não tem, digo.
O Doutor ficou constrangido.
Concluo: Então senhor doutor, eu estou mesmo maluca!
Disse-me ele: Não, não está. Não tenho resposta para isso, mas efectivamente louca não está. Porque essa pessoa é o meu pai, que faleceu há pouco tempo e teve um acidente um tempo antes do falecimento dele.
Lembro-me que esta situação disparou um turbilhão de pensamentos na minha cabeça. Então que é que se passa? Mas o que é isto? Que resposta é esta? Eu queria saber mais. Diz o meu médico: Não sei. Mas vir cá não precisa de vir mais. Vai tomar os calmantes para ficar mais calma, não entrar tão facilmente em conflitos.
Fiquei com essa medicamentação e nunca mais fui ao Sr. Dr,, ele disse que a solução para o meu problema não era com ele.
Nessa altura deveria ter 23 ou 24 anos. Aos 27 nasceu a minha filha. Hoje desapareceram as sensações de mal-estar. Passados dois anos vai pela primeira vez a um centro espírita idóneo

