reportagem Como vai o estudo?
Jornal de Espiritismo nº 1 · Novembro 2003Página 75 min
Na viragem do milénio, a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal inquiriu 40 associações espíritas portuguesas acerca das reuniões de estudo que estas desenvolvem semana após semana. Afinal, como se estuda espiritismo
Onze associações responderam dentro do prazo em função da sua realidade relativa ao ano 2000. Escolhemos aleatoriamente um desses estudos e fomos visitar o centro espírita da cidade de Lagos, no Extremo Sul de Portugal, para darmos uma ideia de como funciona. Há que sublinhar que existe uma grande diversidade de metodologias nas reuniões de estudo, que incluem também os cursos de vária índole implementados nas associações espíritas.
Prepara-se o início do estudo em grupo de “O Livro
Reunião de estudo de “O Livro dos Médiuns” na Associação, pírita de Lagos
dos Médiuns” na Associação Espírita de Lagos. Isabel, a coordenadora da reunião, procura no livro o ponto de paragem da reunião da semana passada. No Algarve, região portuguesa em que se insere esta cidade, decorre o Verão. Até de noite, a ventoinha ligada refresca. Em frente à mesa simples, adornada com algumas flores, já chegaram alguns dos participantes. Por isso, é altura de juntar atenções. Uma sennhora, na primeira fila com a sua netinha, lê uma página do livro “Fonte Viva”, do espírito Emmanuel, psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier.
Chega mais gente. Outra senhora lê depois mais uma página do género e eis que chega a hora de iniciar a reunião. Ouve-se música tranquilizante e a prece surge, feita por um dos presentes a pedido da coordenadora da reunião.
Isabel, livro na mão, pergunta: “Onde tínhamos ficado?”. A primeira a responder é D. Rosa: “Na página 24”*. Isabel faz um breve apanhado do conteúdo do último parágrafo visto a semana passada.
Começa a leitura do dia com D. Rosa. Ao lado, Adrianinha, a neta, está no seu mundo e lê, completamente absorvida, o livro infantil que trazia na mao.
- Então o que entendeu dessa leitura?, pergunta Isabel. D. Rosa, engraçado sotaque algarvio, conclui: - É como se leu: se todas as pessoas acreditassem na existência da alma e em Deus, tudo seria mais fácil. Muitos dos problemas que persistem na alma depois da morte do corpo deixariam de se fazer sentir,
Depois o diálogo alastra e há quem diga que quando as pessoas rejeitam a existência da vida espiritual não adianta forçar.
Que ,programá de estudo implementa na sua associação?
,«O Livro dos Espíritos» é objecto de estudo em 34% * dos casos de que obtivemos resposta; «O Livro dos Médiuns» 27%; o mesmo para-«O Evangelho Segundo o Espiritismo»; 12% para outros livros. e
- Ainda há dias me aconteceu isso com uma visita lá em casa!, diz uma senhora.
- Seria possível falarmos, a quem não conheça a electricidade, o que ela é e para que serve?, indaga Isabel, sentada, agitando uma perna.
- Forçar não vale a pena, mas é importante deixar algumas ideias!, sublinha D. Joaquina fraternalmente. Chegam mais duas pessoas, uma delas é uma jovem e senta-se junto de D. Madalena, parecendo conhecê-la. Ao chegar, a jovem vai abanando o papel que traz na mão. Atrás, uma senhora de idade trouxe mesmo um
A música de fundo continua turada com a sonoridade da
leque, e dá-lhe que faze a ouvir-se baixinho, m ventoinha.
Chega D. Luísa e mais uma senhora, o que perfaz 11 pessoas, estando os homens em minoria: apenas três. Isabel aproveita e resume as conclusões entretanto obtidas.
Humberto fala, sotaque do Norte indisfarçável. Ao fazer anotações perco o fio à meada, A pequenina já leu o livro e brinca com os dedos em contas imaginárias, em sossego. Chega-se ao ponto 5 do capítulo, lido por D. Luísa. Findo o parágrafo, explana por suas palavras o conteúdo. Leninha dá uma achega: “Algures dizia que há os que mesmo vendo não acreditam”. Diz ainda que gostava de ver “os fenómenos mediúnicos, pois em quase todas as famílias há alguém que teve uma dessas experiências”. As pálpebras da pequenina fecham, bochechas descansadas nos braços cruzados. Súbito, pega no livro, endireita-se e usa-o como leque.
“Porque se não se tem objectivos e sonhos, a vida perde sentido...”, diz Leninha, preocupada com a organização da sua vida. Já se reflecte, de repente, sobre a vida famíiliar da jovem, trazida ali por ela própria. D. Joaquina, livro nas mãos, sempre bem-disposta, ouve a coordenadora, já a concluir: “Devemos ocupar a mente com ideias construtivas. E também útil ouvir opiniões diferentes, embora a decisão seja do próprio”. Depois Humberto coloca uma pergunta, com pausas em busca das melhores palavras: “ Aos olhos da doutrina espírita, qual é a explicação para um indivíduo ao mesmo nível mas em situações diferentes ser vulnerável e
DO Livro dos E spíritos mO Livro dos
; 24% usam o quadro de giz; projector de ácetatos 21%; - P7 15% usa cartazes; 28% utliza a intervenção da turma;
noutras não o ser?”. Isabel responde que a vida interior é diferente da vida exterior, ou seja, às vezes aquilo que nos parecem situações diferentes não são tão diferentes como isso, sobretudo se interiormente reagirmos de forma idêntica.
Leninha aproveita: “E as mudanças de humor?”. Isabel afirma que “situações diferentes podem despertar humores diferentes”. Leninha explica melhor algumas das suas dificuldades, possivelmente de ordem mediúnica, e diz que quer resolvê-las. Isabel destaca a vantagem de se detectar essas situações a tempo, antes
que se agravem. Alguém, na sala, acentua: “Não nos podemos deixar ir abaixo!”.
Adiante já se fala que “não é só nas reuniões mediúnicas que pode ocorrer envolvimento de espíritos desencarnados, isso acontece também no dia-a-dia. Se nós estivéssemos aflitos não bateríamos a qualquer porta à procura de ajuda?”,
Aí Leninha realça: “Mas porquê a minha porta?”, Todos sorriem. Isabel sublinha que “ao longo do estudo de “O Livro dos Médiuns” podemos explorar todos estes aspectos. Porque é assim: se alguém gosta muito de mim, e após a morte continua a mesma individualidade, não vai deixar de gostar de mim só por estar no plano espiritual. Contudo, as evocações não devem ser feitas” porque pode acontecer que o espírito evocado esteja ocupado ou não possa simplesmente dar resposta por diversos motivos.
A hora de término da reunião dispara no relógio da parede: 22h00. O clima fraterno favorece o fecho da sessão com uma prece. Ninguém se quer levantar, o que significa que os presentes se sentem bem ou esperam ainda algo mais. Umas quatro pessoas pedem que lhe seja aplicado um passe magnético, que é dado na sala ao lado. Duas jovens ainda ficam a conversar em particular com duas pessoas que fazem atendimento, Apesar do calor naquela cidade abarrotada de turistas, a atmosfera enche-se de amor e de esperança.
* Primeira Parte de “O Livro dos Médiuns”, Noções Preliminares, Capítulo 1, Existem espíritos?, Ponto 3. Apontamentos relativos à reunião de segunda-feira, 21h00, do passado dia 7 de Agosto de 2000.

