oportunidade evolutiva
Jornal de Espiritismo nº 1 · Novembro 2003Página 76 min
Sabia que através da reencarnação encontraria alívio para as dores excruciantes de que padecia, ademais seria uma forma de perdoar a quem o prejudicara, recebendo ternura que substituísse a crueza dos males antes praticados contra si. Impossibilitado de realizar o anelo, vincula-se pelo ódio ao ser que o repeliu, através de cujo gesto se torna defraudador da lei soberana da vida, nascendo a partir daí obsessões terríveis...
Dramas de tal natureza estão muito bem retratados na literatura mediúnica e são solucionados somente através do amor, seja pela oportunidade da reencarnação em outro ensejo, seja através da doutrinação do espírito infeliz tornado obsessor, no entanto, profundamente necessitado de compaixão.
— Animais no mundo espiritual: ideoplastia ou realidade?
DF — E óbvio que a alma dos animais prossegue no mundo espiritual, conforme nos ensina Allan Kardec, após a morte do corpo, logo se reencarnando. Experiências mediúnicas dignas de respeito confirmam que, apesar disso, o retorno nem sempre se faz imediatamente após a desencarnação, permanecendo a alma animal na erraticidade na forma anterior, de que se utilizam os espíritos superiores para finalidades específicas.
O assunto, porém, permanece em aberto,
aguardando contribuição mais cuidadosa e completa dos estudiosos.
— Evolução mineral, vegetal, animal, hominal: como assim?
DF — O emérito codificador do Espiritismo transcreveu a resposta dos espíritos na questão 540 de «O Livro dos Espíritos», deixando a ideia de que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até ao arcanjo, que também começou por ser átomo. Ora, na mesma resposta, afirmam os benfeitores que esses espíritos mais atrasados oferecem utilidade ao conjunto. Enquanto se ensaiam para a vida antes que tenham plena consciência de seus actos e estejam no gozo pleno do livre-arbítrio...
O psiquismo dorme no mineral, sonha no vegetal, sente no animal, pensa no homem... Léon Denis, o notável discípulo de Kardec e emérito estudioso do espiritismo, propôs essa tese que adaptamos ao nosso pensamento, demonstrando que o princípio inteligente do Universo, que é o espírito, igualmente passa por várias expressões até despertar o atributo superior que lhe dorme em germe.
Não seja, pois, de estranhar o processo da evolução através dos diferentes reinos da Natureza.
— O dispositivo intra-uterino é abortivo? DF — Sem qualquer dúvida, desde que, interrompendo a marcha do óvulo já fecundado, impede que a vida se expresse,
portanto, abortando a concepção. — Por que há casais que têm filhos de forma tão fácil e outros esforçam-se, mas não conseguem?
DF — Graças à lógica da reencarnação concluímos que aquilo que nos falta hoje é resultado do abuso de ontem. Os filhos que temos ou deixamos de ter encontram-se na pauta das leis que nos regem a vida. Apenas para darmos uma ideia: quantos jovens que podem ser pais e sendo paralisados pelo egoísmo praticam o aborto delituoso, a fim de fruírem de mais prazer sem qualquer responsabilidade? Quantos abortadores existem em nossos dias praticando o crime hediondo de interromperem vidas que se não podem defender? Assim, aqueles que se encontram incursos nesses como em outros delitos, retornam assinalados pelo anseio não atendido.
Não seja isso, porém, motivo de sofrimento, porquanto o amor nos ensina a receber nos braços os filhos que não têm pais, aos quais podemos amar como se fossem da própria carne, sem nos sentirmos menos ditosos porque não os procriámos geneticamente. Muitos outros, no entanto, que vêm através de nós, tornam-se-nos difíceis companheiros, que se transformam mais tarde em verdadeiros adversários... Assim, o amor tem resposta para todas as aflições.
João Xavier de Almeida: invisuais e espiritismo
A Sociedade Prô-livro Espírita em Braille organizou, de 17 a 20 de Abril, no Rio de Janeiro, o I Congresso Internacional de Cegos Espíritas.
Teve como tema central «O cego e o terceiro milénio». Os objectivos do certame foram promover a confraternização de cegos espíritas, estabelecer as condições necessárias a entendimentos sobre questões que relacionem o cego e o espiritismo, e ainda reflectir sobre assuntos relativos à cegueira € ao cego em geral.
João Xavier de Almeida — que não é invisual mas teve durante vários anos actividade profissional ligada a essa deficiência — foi o conferencista que abriu o evento com «Todos nós somos deficientes». Por sua vez, em | e 2 de Outubro, a Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais, de Lisboa, promoveu na Torre do Tombo o seu fórum, que teve diversas actividades, tais como exposições, ateliers e comunicações. Almeida foi convidado para representar a óptica espírita e participar nessa condição numa mesa-redonda. Porém, passou o testemunho ao actual presidente da Federação Espírita Portuguesa. Aproveitando a oportunidade, falámos com o especialista.
— O que acontece a uma pessoa cega depois da morte?
João Xavier de Almeida — Após a morte, acontece a um invisual o mesmo que a qualquer
outro mortal; a variação é grande, em função não da cegueira mas da condição espiritual da pessoa em causa, ao desencarnar. Conforme o mérito e valor espiritual da pessoa cega, continuará cega apenas durante momentos, ou dias, ou anos. Com maior ou menor demora, voltará a nascer (reencarnação pode ser crença de milhões, mas é também uma lei da natureza, a qual vai tendo cada vez maior respaldo científico de notáveis académicos), se ainda tiver aprendizado a adquirir na vida terrena, na situação de cegueira ou não.
— A cegueira é considerada um castigo por uma má conduta numa existência anterior, é meramente acidental, é uma oportunidade de elevação?
JXA — Cegueira, adquirida ou de nascença, nunca é acidental, já que a vida, o universo, não comportam espaço para "acasos". Podemos chamar-lhe "castigo", mas no sentido mais pedag(zfico e construtivo do termo; e não "infligido por Deus" mas até solicitado pelo próprio, no estado de lucidez que caracteriza o espírito quando liberto da matéria e da mentalidade terrena. A cegueira pode também constituir um ensejo de purificação e elevação, igualmente solicitado pelo próprio (tenha ou não memória consciente do seu pedido, durante a encarnação em causa). Cegueira pode ainda constituir uma missão, como se nos afiguram os
casos de Helen Keller ou Louis Braille e de alguns cegos ainda encarnados que conheço pessoalmente. Outrossim pode haver ainda casos que reunam o triplo carácter de castigo ou expiação, de prova ou purificação, e o de missão. O recente Congresso Internacional de Cegos Espíritas, no Rio de Janeiro, contemplou desenvolvidamente essas três eventualidades. — Qual é a atitude de cada uma destas religiões perante a cegueira e pessoas cegas, na prática do dia-a-dia?
JXA — Não existirá atitude espírita específica para especificamente lidar com os cegos. Porém na vida prática há, por exemplo, uma instituição de grande relevância, a SPLEB (Sociedade Pró Livro Espirita em Braille), fundada em 1953 no Rio de Janeiro, Brasil, a qual desenvolve cada vez mais serviços e benefícios a cegos e amblíopes, espíritas ou não, contando com exemplares colaboradores voluntários, espíritas ou não. — Conhece espíritas actuantes invisuais? JXA — Conheço bastantes: os dinâmicos dirigentes da citada SPLEB. Em Portugal não conheço dirigentes invisuais, mas sei de alguns cegos que frequentam regularmente centros espíritas.
— Háal; livros espíritas editados em Braille? JXA — À referida SPLEB projecta celebrar em 2007 o cinquentenário da sua grande realização: a primeira edição mundial em Braille de O QUE E O ESPIRITISMO. De 1957 para cá editou em Braille, sucessivamente, todas as obras da codificação espírita e dezenas de outros títulos, espíritas ou não, além da revista trimestral "Kardebraille". Julgo oportuno apontar que, no Porto, o Instituto Albuquerque e Castro, não sendo espírita, tem gravados em fita áudio muitos livros espíritas, cuja reprodução disponibiliza.

