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Jornal de Espiritismo nº 1 · Novembro 2003Página 618 min
celulares, que se foram tornando complexas até se transformarem em minerais, plantas, crustáceos, peixes, batráquios, répteis, mamíferos, alcançando os símios, os hominídeos, o Homo sapiens, o Homo sapiens sapiens.
Toda essa herança está impressa no modelo organizador biológico, que a transmite ao corpo, que repete as experiências do processo evolutivo. O espírito, porém, não retorna a qualquer forma primitiva... — Qual a responsabilidade dos pais na vida intra-uterina?
DF — AÀ moderna psicologia, fazendo uma análise em torno de muitos conflitos que se manifestam no indivíduo, elucida que os mesmos têm origem nos fenómenos perinatais, aqueles que dizem respeito à vida fetal e logo após o nascimento... Ignorando que o espírito é o responsável pelo próprio destino, esses nobres estudiosos encontram na conduta dos pais uma das causas para explicar alguns tipos de transtornos e conflitos emocionais, no que têm razão.
O amor é a tónica de sustentação da vida
Divaldo Pereira Franco em sessão se autógrafos, pois além de orador já psicografou grande número de livros
em toda parte. Naturalmente, uma gestação é algo mais do que o entumescimento do ventre feminino como resultado da multiplicação celular. É a vida tomando corpo e esperando receptividade, carinho, compreensão e amparo.
O espírito, que se está vestindo com a indumentária carnal, tem compromissos com os futuros pais, e esses com o visitante em instalação no domicílio terrestre. Assim, os deveres dos pais para com o ser em formação dizem respeito ao amor e à ternura, à esperança e ao bem, devendo evitar os choques emocionais, as reacções perniciosas, tão do agrado de pessoas insensatas, que terminam por gerar grandes problemas para si mesmas e para aqueles que retornam em busca de reparação.
— E os gémeos, por que vêm juntos? DF — Acredito pessoalmente que os gémeos constituem experiências evolutivas proporcionadas pela afinidade que vigora entre ambos os espíritos, seja no amor ou na inimizade. O facto de renascerem gémeos, dois espíritos, isto não implica necessariamente em amor ou ódio, podendo também caracterizar uma oportunidade para maior estreitamento de relações afectivas, ajudando-se reciprocamente e contribuindo, como nós outros, em favor da sociedade.
O êxito do cometimento depende de como se conduzam na experiência carnal.
— Os desejos da mãe serão os desejos do filho?
DF — De maneira alguma. Há ocorrências que são apenas reacções biológicas, a expressaremse como necessidades da gestante. No entanto, muitas vezes, em razão da vinculação física e psíquica entre o feto e a genitora, esta capta as aspirações e anseios do filho, vivenciando-os.
— Tem algum caso relacionado com este tema?
DF — Seria fastidioso narrar alguma experiência nesse sentido, considerando-se que as defronto amiúde no convívio com os corações que me buscam para atendimento fraterno, socorro espiritual ou nas actividades mediúnicas com os sofredores do além-túmulo.
Acontece que, sentindo-se expulso mediante aborto provocado, por vezes o espírito rebela-se e transforma-se em perseguidor da pessoa que lhe cerceou a oportunidade evolutiva. Sabia que através da reencarnação encontraria alívio para as dores excruciantes de que padecia, ademais seria uma forma de perdoar a quem o prejudicara, recebendo ternura que substituísse a crueza dos males antes praticados contra si. Impossibilitado de realizar o anelo, vincula-se pelo ódio ao ser que o repeliu, através de cujo gesto se torna defraudador da lei soberana da vida, nascendo a partir daí obsessões terríveis...
Dramas de tal natureza estão muito bem retratados na literatura mediúnica e são solucionados somente através do amor, seja pela oportunidade da reencarnação em outro ensejo, seja através da doutrinação do espírito infeliz tornado obsessor, no entanto, profundamente necessitado de compaixão.
— Animais no mundo espiritual: ideoplastia ou realidade?
DF — E óbvio que a alma dos animais prossegue no mundo espiritual, conforme nos ensina Allan Kardec, após a morte do corpo, logo se reencarnando. Experiências mediúnicas dignas de respeito confirmam que, apesar disso, o retorno nem sempre se faz imediatamente após a desencarnação, permanecendo a alma animal na erraticidade na forma anterior, de que se utilizam os espíritos superiores para finalidades específicas.
O assunto, porém, permanece em aberto,
aguardando contribuição mais cuidadosa e completa dos estudiosos.
— Evolução mineral, vegetal, animal, hominal: como assim?
DF — O emérito codificador do Espiritismo transcreveu a resposta dos espíritos na questão 540 de «O Livro dos Espíritos», deixando a ideia de que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até ao arcanjo, que também começou por ser átomo. Ora, na mesma resposta, afirmam os benfeitores que esses espíritos mais atrasados oferecem utilidade ao conjunto. Enquanto se ensaiam para a vida antes que tenham plena consciência de seus actos e estejam no gozo pleno do livre-arbítrio...
O psiquismo dorme no mineral, sonha no vegetal, sente no animal, pensa no homem... Léon Denis, o notável discípulo de Kardec e emérito estudioso do espiritismo, propôs essa tese que adaptamos ao nosso pensamento, demonstrando que o princípio inteligente do Universo, que é o espírito, igualmente passa por várias expressões até despertar o atributo superior que lhe dorme em germe.
Não seja, pois, de estranhar o processo da evolução através dos diferentes reinos da Natureza.
— O dispositivo intra-uterino é abortivo? DF — Sem qualquer dúvida, desde que, interrompendo a marcha do óvulo já fecundado, impede que a vida se expresse,
portanto, abortando a concepção. — Por que há casais que têm filhos de forma tão fácil e outros esforçam-se, mas não conseguem?
DF — Graças à lógica da reencarnação concluímos que aquilo que nos falta hoje é resultado do abuso de ontem. Os filhos que temos ou deixamos de ter encontram-se na pauta das leis que nos regem a vida. Apenas para darmos uma ideia: quantos jovens que podem ser pais e sendo paralisados pelo egoísmo praticam o aborto delituoso, a fim de fruírem de mais prazer sem qualquer responsabilidade? Quantos abortadores existem em nossos dias praticando o crime hediondo de interromperem vidas que se não podem defender? Assim, aqueles que se encontram incursos nesses como em outros delitos, retornam assinalados pelo anseio não atendido.
Não seja isso, porém, motivo de sofrimento, porquanto o amor nos ensina a receber nos braços os filhos que não têm pais, aos quais podemos amar como se fossem da própria carne, sem nos sentirmos menos ditosos porque não os procriámos geneticamente. Muitos outros, no entanto, que vêm através de nós, tornam-se-nos difíceis companheiros, que se transformam mais tarde em verdadeiros adversários... Assim, o amor tem resposta para todas as aflições.
João Xavier de Almeida: invisuais e espiritismo
A Sociedade Prôó-livro Espírita em Braille organizou, de 17 a 20 de Abril, no Rio de Janeiro, o I Congresso Internacional de Cegos Espíritas. Teve como tema central «O cego e o terceiro milénio». Os objectivos do certame foram promover a confraternização de cegos espíritas, estabelecer as condições necessárias a entendimentos sobre questões que relacionem o cego e o espiritismo, e ainda reflectir sobre assuntos relativos à cegueira
João Xavier de Almeida — que não é invisual mas teve durante vários anos actividade profissional ligada a essa deficiência — foi o conferencista que abriu o evento com «Todos nós somos deficientes». Por sua vez, em | e 2 de Outubro., a Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais, de Lisboa, promoveu na Torre do Tombo o seu fórum, que teve diversas actividades, tais como exposições, ateliers e comunicações. Almeida foi convidado para representar a óptica espírita e participar nessa condição numa mesa-redonda. Porém, passou o testemunho ao actual presidente da Federação Espírita Portuguesa. Aproveitando a oportunidade, falámos com o especialista.
— O que acontece a uma pessoa cega depois da morte?
João Xavier de Almeida — Após a morte, acontece a um invisual o mesmo que a qualquer
outro mortal; a variação é grande, em função não da cegueira mas da condição espiritual da pessoa em causa, ao desencarnar. Conforme o mérito e valor espiritual da pessoa cega, continuará cega apenas durante momentos, ou — dias, ou anos. Com maior ou menor demora, voltará a nascer (reencarnação pode ser crença de milhões, mas é também uma lei da natureza, a qual vai tendo cada vez maior respaldo científico de notáveis académicos), se ainda tiver aprendizado a adquirir na vida terrena, na situação de cegueira ou não.
— A cegueira é considerada um castigo por uma má conduta numa existência anterior, é meramente acidental, é uma oportunidade de elevação?
JXA — Cegueira, adquirida ou de nascença, nunca é acidental, já que a vida, o universo, não comportam espaço para "acasos". Podemos chamar-lhe "castigo", mas no sentido mais pedagógico e construtivo do termo; e não "infligido por Deus" mas até solicitado pelo próprio, no estado de lucidez que caracteriza o espírito quando liberto da matéria e da mentalidade terrena. A cegueira pode também constituir um ensejo de purificação e elevação, igualmente solicitado pelo próprio (tenha ou não memória consciente do seu pedido, durante a encarnação em causa). Cegueira pode ainda constituir uma missão, como se nos afiguram os
casos de Helen Keller ou Louis Braille e de alguns cegos ainda encarnados que conheço pessoalmente. Outrossim pode haver ainda casos que reunam o triplo carácter de castigo ou expiação, de prova ou purificação, e o de missão. O recente Con%resso Internacional de Cegos Espíritas, no Rio de Janeiro, contemplou desenvolvidamente essas três eventualidades. — Qual é a atitude de cada uma destas religiões perante a cegueira e pessoas cegas, na prática do dia-a-dia?
JXA — Não existirá atitude espírita específica para especificamente lidar com os cegos. Porém na vida prática há, por exemplo, uma instituição de grande relevância, a SPLEB (Sociedade Pró Livro Espirita em Braille), fundada em 1953 no Rio de Janeiro, Brasil, a qual desenvolve cada vez mais serviços e benefícios a cegos e amblíopes, espíritas ou não, contando com exemplares colaboradores voluntários, espíritas ou não. — Conhece espíritas actuantes invisuais? JXA — Conheço bastantes: os dinâmicos dirigentes da citada SPLEB. Em Portugal não conheço dirigentes invisuais, mas sei de alguns cegos que frequentam regularmente centros espíritas.
— Há alguns livros espíritas editados em Braille? JXA — A referida SPLEB projecta celebrar em 2007 o cinquentenário da sua grande realização: a primeira edição mundial em Braílle de O QUE E O ESPIRITISMO. De 1957 para cá editou em Braille, sucessivamente, todas as obras da codificação espírita e dezenas de outros títulos, espíritas ou não, além da revista trimestral "Kardebraille". Julgo oportuno apontar que, no Porto, o Instituto Albuquerque e Castro, não sendo espírita, tem gravados em fita áudio muitos livros espíritas, cuja reprodução disponibiliza.
Na viragem do milénio, a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal inquiriu 40 associações espíritas portuguesas acerca das reuniões de estudo que estas desenvolvem semana após semana. Afinal, como se estuda espiritismo
Onze associações responderam dentro do prazo em função da sua realidade relativa ao ano 2000. Escolhemos aleatoriamente um desses estudos e fomos visitar o centro espírita da cidade de Lagos, no Extremo Sul de Portugal, para darmos uma ideia de como funciona. Há que sublinhar que existe uma grande diversidade de metodologias nas reuniões de estudo, que incluem também os cursos de vária índole implementados nas associações espíritas.
Prepara-se o início do estudo em grupo de “O Livro
dos Médiuns” na Associação Espírita de Lagos. Isabel, a coordenadora da reunião, procura no livro o ponto de paragem da reunião da semana passada. No Algarve, região portuguesa em que se insere esta cidade, decorre o Verão. Até de noite, a ventoinha ligada refresca. Em frente à mesa simples, adornada com algumas flores, já chegaram alguns dos participantes. Por isso, é altura de juntar atenções. Uma sennhora, na primeira fila com a sua netinha, lê uma página do livro “Fonte Viva”, do espírito Emmanuel, psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier.
Chega mais gente. Outra senhora lê depois mais uma página do género e eis que chega a hora de iniciar a reunião. Ouve-se música tranquilizante e a prece surge, feita por um dos presentes a pedido da coordenadora da reunião.
Isabel, livro na mão, pergunta: “Onde tínhamos ficado?”. A primeira a responder é D. Rosa: “Na página 24"*. Isabel faz um breve apanhado do conteúdo do último parágrafo visto a semana passada.
Começa a leitura do dia com D. Rosa. Ao lado, Adrianinha, a neta, está no seu mundo e lê, completamente absorvida, o livro infantil que trazia na mão.
- Então o que entendeu dessa leitura?, pergunta Isabel. D. Rosa, engraçado sotaque algarvio, conclui: - E como se leu: se todas as pessoas acreditassem na existência da alma e em Deus, tudo seria mais fácil. Muitos dos problemas que persistem na alma depois da morte do corpo deixariam de se fazer sentir,
Depois o diálogo alastra e há quem diga que quando as pessoas rejeitam a existência da vida espiritual não adianta forçar.
Que,programa— de estudo implementa na sua associáção?
.«O Livro dos Espíritos» é objecto de estudo em 34% dos casos de que obtivemos resposta; «O Livro dos Médiuns» 27%; o mesmo para-«O Evangeélho Segundo o Espiritismo»; 12% para outros livros.
- Ainda há dias me aconteceu isso com uma visita lá em casa!, diz uma senhora.
- Seria possível falarmos, a quem não conheça a electricidade, o que ela é e para que serve?, indaga Isabel, sentada, agitando uma perna.
- Forçar não vale a pena, mas é importante deixar algumas ideias!, sublinha D. Joaquina fraternalmente. Chegam mais duas pessoas, uma delas é uma jovem e senta-se junto de D. Madalena, parecendo conhecê-la. Ao chegar, a jovem vai abanando o papel que traz na mão. Atrás, uma senhora de idade trouxe mesmo um
leque, e dá-lhe que fazer... A música de fundo continua a ouvir-se baixinho, misturada com a sonoridade da ventoinha.
Chega D. Luísa e mais uma senhora, o que perfaz 11 pessoas, estando os homens em minoria: apenas três. Isabel aproveita e resume as conclusões entretanto obtidas,
Humberto fala, sotaque do Norte indisfarçável. Ao fazer anotações perco o fio à meada...
A pequenina já leu o livro e brinca com os dedos em contas imaginárias, em sossego. Chega-se ao ponto 5 do capítulo, lido por D. Luísa. Findo o parágrafo, explana por suas palavras o conteúdo. Leninha dá uma achega: “Algures dizia que há os que mesmo vendo não acreditam”. Diz ainda que gostava de ver “os fenómenos mediúnicos, pois em quase todas as famílias há alguém que teve uma dessas experiências”. As pálpebras da pequenina fecham, bochechas descansadas nos braços cruzados. Súbito, pega no livro, endireita-se e usa-o como leque.
“Porque se não se tem objectivos e sonhos, a vida perde sentido...”, diz Leninha, preocupada com a organização da sua vida. Já se reflecte, de repente, sobre a vida familiar da jovem, trazida ali por ela própria. D. Joaquina, livro nas mãos, sempre bem-disposta, ouve a coordenadora, já a concluir: “Devemos ocupar a mente com ideias construtivas. E também útil ouvir opiniões diferentes, embora a decisão seja do próprio”. Depois Humberto coloca uma pergunta, com pausas em busca das melhores palavras: “ Aos olhos da doutrina espírita, qual é a explicação para um indivíduo ao mesmo nível mas em situações diferentes ser vulnerável e
noutras não o ser?” . Isabel responde que a vida interior é diferente da vida exterior, ou seja, às vezes aquilo que nos parecem situações diferentes não são tão diferentes como isso, sobretudo se interiormente reagirmos de forma idêntica.
Leninha aproveita: “E as mudanças de humor?”. Isabel afirma que “situações diferentes podem despertar humores diferentes”., Leninha explica melhor algumas das suas dificuldades, possivelmente de ordem mediúnica, e diz que quer resolvê-las. Isabel destaca a vantagem de se detectar essas situações a tempo, antes
que se agravem. Alguém, na sala, acentua: “Não nos podemos deixar ir abaixo!”.
Adiante já se fala que “não é só nas reuniões mediúnicas que pode ocorrer envolvimento de espíritos desencarnados, isso acontece também no dia-a-dia. Se nós estivéssemos aflitos não bateríamos a qualquer porta à procura de ajuda?”,
Aí Leninha realça: “Mas porquê a minha porta?”, Todos sorriem. Isabel sublinha que “ao longo do estudo de “O Livro dos Médiuns” podemos explorar todos estes aspectos. Porque é assim: se alguém gosta muito de mim, e após a morte continua a mesma individualidade, não vai deixar de gostar de mim só por estar no plano espiritual. Contudo, as evocações não devem ser feitas” porque pode acontecer que o espírito evocado esteja ocupado ou não possa simplesmente dar resposta por diversos motivos.
A hora de término da reunião dispara no relógio da parede: 22h00. O clima fraterno favorece o fecho da sessão com uma prece. Nínguém se quer levantar, o que significa que os presentes se sentem bem ou esperam ainda algo mais. Umas quatro pessoas pedem que lhe seja aplicado um passe magnético, que é dado na sala ao lado. Duas jovens ainda ficam a conversar em particular com duas pessoas que fazem atendimento, Apesar do calor naquela cidade abarrotada de turistas, a atmosfera enche-se de amor e de esperança.
* Primeira Parte de “O Livro dos Médiuns”, Noções Preliminares, Capítulo 1, Existem espíritos?, Ponto 3. Apontamentos relativos à reunião de segunda-feira, 21h00, do passado dia 7 de Agosto de 2000.
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O espiritismo é uma doutrina que assenta no seguinte tripé: filosofia, ciência e moral. O seu alicerce reside nos factos. Estes, contudo, geralmente convertem-se com o tempo em histórias contadas de boca em boca. Por falta de hábito, inúmeros detalhesque poderiam ter sido já pesquisados numa grande diversidade de casos ocorridos com mais gente do que se poderia imaginar à partidaperdem-se e com
eles um excelente material de estudo.
Ainda assim, respeitados parâmetros de fidedignidade, consegue-se recolher, na melhor fonte, relatos interessantes a partir directamente dos protagonistas. E material que sai do baú discreto da família e que «não há interesse em divulgar», ouvimos.
Mas a amizade faz com que o relato avance. Neste caso, espelha-se a perplexidade de quem tem faculdade mediúnica de vidência, sem saber, e num consultório, sem perceber como, vê o pai desencarnado do próprio médico, que dá informações à médium (que nem sabe que o é, nessa altura), que o filho, estupefacto, confirma...
Fizemos questão de trocar nomes, pois temos o compromisso com a pessoa entrevistada de não a expor. O texto é directamente extraído da gravação, sem que tenha recebido qualquer tratamento transformador.
Maria era então uma jovem, hoje uma senhora, já mãe. Conta uma das muitas passagens da sua vida, quando já tinha faculdades mediúnicas ostensivas e não sabia. Nessa época, não tendo bem noção do que se passava com ela, sentia-se perturbada. Apenas se equilibrou, disse-nos, pouco a pouco depois de começar a educar essa sensibilidade. Eis o discurso directo:
Maria - (...) Passados dois dias, durante os quais não me consegui levantar, fui lá com uma certa ansiedade de falar com o Sr. Dr. porque eu queria ainda ir ao salão de cabeleireira atender duas clientes (eram clientes muito boas, daquelas que me faziam falta, pois
O médico tinha sempre muitos clientes. Cheguei ao consultório e perguntei à empregada se o Sr. Dr. iria demorar a atenderme. Eu vi o consultório cheio de gente à espera. A menina diz-me que só tem uma pessoa. Quando olhei, verifiquei que havia várias. Uma senhora levantou-se e diz-me: Eu doulhe a vez. Esta era a verdadeira entre as outras todas.
— Não notava nenhuma semelhança entre as pessoas que viu à espera da consulta e a que lhe deu a vez?
MariaNão; era tudo igual. Aos meus olhos era tudo igual. Pensei então que não ia demorar-me muito. Saiu uma senhora da consulta e entro eu. Comecei a conversar com o Sr. Dr. e tal, e expliquei-lhe logo a situação: Sr. Doutor, então não é que eu continuo louca! Fiz os tratamentos e verifico... eu cheguei, perguntei, dizem-me que a sala só tem uma pessoa à espera e eu vejo em redor várias pessoas que estão para ser atendidas. O médico levanta-se, abre a porta, olha e diz: Só está uma. Respondo: Então é o que digo: continuo louca!
Lembro-me que fiquei profundamente triste, e até sem vontade de ir ao salão atender as tais clientes.
Estava assim bastante em baixo de forma. O médico estava a começar a preparar os papéis e vi, de repente, entrar do lado da porta um senhor de cabelos brancos, com um ar fino, muito distinto, e eu, ao olhar para ele, acheio tão parecido com o médico que olhei para
um e para o outro. E disse para comigo: são tão parecidos! Têm traços tão semelhantes entre j Olhava para o idoso, que sorria, calmamente. Disse ao médico: Sr. Doutor, fui louca lá fora e estou a ser agora louca cá dentro... porque vai a entrar agora um senhor de cabelos brancos com uma postura muito fina, e é muito parecido com o senhor doutor. Ele parou. Olhou para mim. Continuei: Com uns cabelos grisalhos, aquele grisalho muito bem tratado, um homem muito bonito.
Eomédico perguntou: Como está vestido? Respondi: Fato cinzento com risca branca. O idoso distinto entretanto faz um gesto e vejo o colete. Digo: Tem uma risca maior, não corresponde à risca de fora (as riscas são iguais, mas mais longas, não são iguais). O médico empalidecia... Continuei: Traz também uma gravata do casamento (fez questão de o afirmar). E de cetim, penso, uma gravata brilhante, muito bonita. Diz o Doutor, curioso: Consegue ver-lhe as mãos?
Não, não consigo. Vejo só o tronco até ao começo da calça, mas não vejo mais nada. E ele diz: Não consegue ver as mãos? Afirmo: Não, assim não consigo. E o senhor entretantoque estava a escutar, com certezapõe uma mão pousada sobre o outro braço (a entrevistada faz o gesto) como se estivesse assim com os braços dobrados. O médico pergunta: Tem alguma coisa nas mãos? Exprimo o que vejo: Sim, não tem os dois dedos pequenos de uma das mãos.
Frisa ele: Mas não tem mesmo? Declaro: Não, não tem. E tem um bocadinho mais cortado na mão. Insiste o esculápio: Mas verifique bem, por favor. Não tem? Não, e acho que foi num acidente, tinha os dedos mas agora não tem, digo. O Doutor ficou constrangido. Concluo: Então senhor doutor, eu estou mesmo maluca! Disse-me ele: Não, não está. Não tenho resposta para isso, mas efectivamente louca não está. Porque essa pessoa é o meu pai, que faleceu há pouco tempo e teve um acidente um tempo antes do falecimento dele.
Lembro-me que esta situação disparou um turbilhão de pensamentos na minha cabeça. Então que é que se passa? Mas o que é isto? Que resposta é esta? Eu queria saber mais. Diz o meu médico: Não sei. Mas vir cá não precisa de vir mais. Vai tomar os calmantes para ficar mais calma, não entrar tão facilmente em conflitos. Fiquei com essa medicamentação e nunca mais fui ao Sr. Dr,, ele disse que a solução para o meu problema não era com ele.
Nessa altura deveria ter 23 ou 24 anos. Aos 27 nasceu a minha filha. Hoje desapareceram as sensações de mal-estar.
