saúde Estudos psico(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à lu
Jornal de Espiritismo nº 10 · 2005Página 47 min
Estudos psico(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Façajáa(s) sua(s) pergunta(s)!
Clonagem: os embriões congelados têm espírito?
Recebemos uma mensagem de um leitor português, que faz parte da Associação Cultural Cristã Espírita, em Oliveira de Azeméis; disse-me ele, em 31 de janeiro de 2005: "Bom dia. Saudações especiais. Gosto muito de ler seus artigos de Saúde, no jornal de espiritismo, de Portugal. Gostaria de ficar mais esclarecido sobre o tema da clonagem. Principalmente naquela dos embriões congelados para fins terapêuticos ou outros... Todos sabemos que a ligação do espírito ao corpo se dá na concepção, união espermatozóide com o óvulo. Nessas experiências de embriões existe algum espírito atribuído aquele embrião? Em relação à doença de Alzheimer, o espírito fica como no coma, parcialmente liberto?"
Joaquim FigueiredoSanta Maria da Feira, Portugal.
Respondemos, preliminarmente, ao Leitor, agradecendo o seu interesse pelo «Jornal de Espiritismo» e, em particular, pela nossa página. Bem, o tema CLONAGEM é polémico, porque envolve aspectos considerados controversos, principalmente, científicos, éticos e espirituais. Não obstante, a controvérsia do ponto de vista espírita ainda existe, porque, a nosso ver, há distorção da Doutrina dos Espíritos por alguns confrades e confreiras, talvez, por leitura desatenta das obras da Codificação, de ALLAN KARDEC.
Que é clonagem? A palavra clone tem origem etimológica gregaklónque significa broto, ramo. O clone é um ser vivo, que tem a mesma constituição genética de outro; é o "broto" da planta que, ao ser destacado, pode desenvolver-se como a planta-mãe. De acordo com os microbiólogos, o termo clone é aplicado a uma população de microrganismos geneticamente idênticos. Nos animais, inclusive no Homem, pode ocorrer um processo de clonagem natural, que leva à formação de gémeos "idênticos".
É preciso ressaltar que no clone natural humanoos gémeossão idênticos no genótipo, isto é, com características corporais semelhantes, mas o fenótipo será diferente, pois dependerá de condições ambientais (inclusive socioculturais) diversas, além disso, os espíritos são diversos nos clones humanos naturais. A ovelha Dolly, primeiro mamífero clonado de célula somática. Naturalmente, a maioria dos organismos desenvolve-se da união de um do sexo masculino com outro do sexo feminino (reprodução sexuada), ou seja, um espermatozóide que contém n cromossomas fecundando um óvulo, também com n cromossomas, dando origem a um indivíduo com 2n cromossomas.
A clonagem de animais foi realizada cientificamente pela primeira vez em 1952, com girinos, embriões de sapos, por ROBERT BRIGGS e THOMAS KING... É importante destacarmos que antes de 1952, a clonagem em vegetais foi amplamente realizada, sem nenhuma repercussão internacional maior, apesar de se tratar de seres vivos, também... Porquê? A nosso ver, porque os vegetais não têm alma, quase todos concordam, entretanto, alguns espíritas distorcem o que os Espíritos Superiores disseram, claramente, na obra «O Livro dos Espíritos» (OLE), de ALLAN KARDEC, nas respostas às questões 71, 136-A, 585 (incluindo-se o comentário de KARDEC), 586, 587, 588, e permanecem num pieguismo e num falso evangelismo.
Mas voltemos ao nosso breve histórico: Em 1970 clonaram embriões de ratos. Bem antes de DOLLY, em 1979, foram clonados embriões de ovelhas e, em 1980, embriões de gado. A partir de então, este tipo de clonagem penetra como tecnologia avançada em veterinária e reprodução pecuária.
A ovelha DOLLY foi o primeiro mamífero clonado por transferência nuclear de células somáticas, isto é, com 2n cromossomas do indivíduo original, ou seja, de uma célula da glândula mamária de uma ovelha de 5-6 anos denominada BELLINDA, da raça Finn Dorset.
A clonagem da ovelha DOLLY produziu grandes debates internacionais, principalmente, sobre a possibilidade de clonagem humana artificial e a chamada "eutanásia" dos embriões, além da criação de "monstros"...
É preciso que se ressalte que ao falar-se de
"clonagem humana", hoje, referimo-nos à modalidade reprodutiva , que produz bebés como cópias físicas de seres já existentes (clonagem natural) e a clonagem terapêutica, que elabora embriões humanos, que são congelados, com a finalidade de fabricar tecidos orgânicos diversos, tratar infertilidade, etc...
As células-tronco, também chamadas por alguns de "sementes da vida", estariam presentes nos primeiros 14 dias do desenvolvimento embrionário. Por serem células indiferenciadas, estão sendo utilizadas em alguns países para tratamento da doença de Parkinson, diabetes, músculo cardíaco enfartado, etc., com resultados promissores. Porém, ao serem retiradas as células-tronco de embriões, estes ficam danificados, transformam-se num "amontoado de tecidos", como teria dito o prof. JAN WILMUT...
A primeira pergunta do nosso leitor Joaquim Figueiredo é: "Nessas experiências de embriões existe algum espírito atribuído aquele embrião?", bem, é o que tentaremos responder, a seguir. Em que momento se une o espírito ao corpo? O sr. Figueiredo afirma como tácito que "a ligação do espírito ao corpo se dá na concepção, união do espermatozóide com o óvulo"... Isto é parcialmente verdadeiro, pois a união do espírito ao corpo "começa na concepção", mas só "se completa no momento do nascimento", como foi revelado pelos Espíritos Superiores na resposta à questão 344 de «O Livro dos Espíritos», "ab initio"...
Além disso, essa união NÃO É DEFINITIVA (cf. se depreende da resposta à questão 345 de OLE), pois tais laços "fluídicos" são muito "FRÁGEIS" (cf. explicitado na mesma resposta da questão 345 de OLE). Portanto, Leitores, não conseguimos conceber que um embrião permaneça congelado, nos seus primeiros 14 dias, e um espírito ali permaneça ligado a ele nestas condições! E há até uma classe de espíritas, contrários a tais experiências, que dizem que "o espírito sofreria muito, pois ficaria congelado"!
Ora, espírito não é líquido para ser congelado e, muito menos matéria!...
Não obstante, o Leitor ou Leitora poderia argumentar: «E se aquele embrião for implantado no útero de uma mulher e vingar, ele teria um espírito?». Responderíamos: «Obviamente, sim, se nascer vivo, sem dúvida!». O que desejamos argumentar é que a Providência Divina a tudo provê; o espírito será atraído para o feto por poderosas forças, cuja natureza ainda desconhecemos... Alguns falam em força "magnética"... É possível, mas o facto é que tal força é DESCONHECIDA cientificamente. A propósito, lemos no item 18, capítulo 11, do livro «A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo», de ALLAN KARDEC:
"Quando o Espírito etem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que a expansão do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atrai por uma força irresistível [o grifo é nosso], desde o momento da concepção. À medida que o gérmen se desenvolve, o laço de encurta. Sob a influência do princípio vito-material do gérmen, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em formação(...)'
Outros diriam: «Mas, a estrutura do feto não é determinada pelo perispírito, através do Modelo Organizador Biológico (MOB), e, portanto, antecede a formação do embrião?!».
fosse matéria. Sim, o perispírito é semimaterial, mas a matéria aqui é quintessenciada... O que me parece é que haja uma Directriz Organizadora Biológica (DOB), através de uma força ainda desconhecida por nós, seres humanos ainda imperfeitos, até porque desconhecemos como nasce o espírito! A propósito, na resposta à questão 78 de OLE, a Espiritualidade Superior enfatiza para KARDEC, e para nós: "(...) mas quando e como cada um de nós foi feito, eu te repito, ninguém o sabe, isso é um mistério.”
Os embriões e os clones têm alma?
Respondendo, em síntese, diremos: os clones humanos naturais (gémeos), obviamente, têm alma, já os clones humanos artificiais teriam uma alma latente, isto é, haveria uma ligação "fluídica" do espírito àquele ser que deverá nascer, pois aquele que já estiver, de antemão, previsto pela Providência Divina para não nascer, o Espírito ali não estará ou abandonará aquele corpo (ou aquele feto)... Aqui, a situação seria análoga aos natimortos, assim, na questão 356 de OLE é perguntado e respondido: «Há crianças natimortas que não foram destinadas à encarnação de um Espírito?
Sim, há as que jamais tiveram um espírito destinado aos seus corpos: nada devia cumprir-se nele. É somente pelos pais que essa criança nasce». A resposta a essa pergunta é fundamental para entendermos que o que dá vida a um corpo é o "fluido vital" e não o espírito. Conhecemos vários casos de vida vegetativa de vários seres humanos, sem que necessariamente ali exista um espírito. À propósito, leia-se nosso artigo A SUBLIMIDADE DA MORTE («Jornal de Espiritismo», Jan.
º/Fevereiro 2005, Coluna SAUDE, p.4). Alguns confrades poderiam argumentar: «Mas, se no futuro os factos vierem a demonstrar que a teoria do MOB está correcta? Responderíamos nós, como o célebre dramaturgo brasileiro NELSON RODRIGUES: «Pior para os factos!» Parafraseando ALLAN KARDEC: as fantasias científicas de hoje podem ser uma realidade amanhã, antes que chegue o amanhã, fiquemos com a realidade de hoje!
Respondendo à segunda pergunta do nosso leitor, em relação à doença de ALZHEIMER, se o espírito ficaria como no coma, parcialmente liberto, diremos que a situação é ligeiramente diferente da anterior (no embrião), pois o espírito precisaria, eventualmente, de concluir suas PROVAS, e o desprendimento mais ou menos rápido irá depender da elevação intelectual e moral do espírito. A este respeito, os comentários de KARDEC sobre a resposta da questão 155-A de OLE, quase "in fine", são esclarecedores: "(...) Por outro lado, a actividade intelectual e moral, a elevação dos pensamentos, operam um começo de desprendimento, MESMO DURANTE A VIDA CORPOREA e quando a morte chega, é quase instantânea".
A doença de ALZHEIMER é um quadro demencial, irreversível, com solapamento progressivo da memória e outras funções cognitivas da pessoa, é uma doença de evolução crónica. ALZHEIMER é uma prova duríssima, cáustica para os familiares, mas também pode ser prova e expiação para o doente; contudo, em todos os casos, parece-me, o espírito estará parcialmente liberto do corpo, semelhantemente ao coma, concordamos com o Leitor e agradecemos-lhe perguntas tão pertinentes e interessantes para o nosso estudo doutrinário.

