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entrevista Dora Incontri: pedagogia espírita Dora Incontri é jornalist

Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 77 min

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Dora Incontri: pedagogia espírita

Dora Incontri é jornalista de formação. Investigadora e escritora, tem dedicado a sua vida ao ensino. Mestra, doutora e pósdoutorada em Filosofia da Educação pela USPUniversidade de São Paulo -, é ainda fundadora da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e directora da Editora Comenius na cidade de Bragança Paulista — São Paulo, onde nos recebeu e concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Espiritismo.

Como prof. doutora e coordenadora do primeiro curso de pós-graduação lato sensu de Pedagogia Espírita jamais efectuado numa universidade, contando ainda com um vasto corpo docente na Universidade Santa Cecília, da cidade de Santos, São Paulo, Brasil, como vê este momento histórico?

Dora Incontri — Foi uma luta imensa para chegarmos até aqui, mas considero realmente um marco histórico este curso, pois pela primeira vez adentramos uma instituição académica pelas portas da frente, oferecendo um curso, com reconhecimento do Ministério da Educação. O espiritismo precisa sair dos guetos fechados dos centros para inserirse na cultura contemporânea, oferecendo a alternativa sólida da sua proposta. E a Universidade ainda é o local privilegiado para isso!

O que é uma pedagogia espírita?

D.I. — Costumo sempre começar por dizer o que a pedagogia espírita não é, antes de dizer o que ela é. Não se trata de uma proposta de educação sectária, doutrinante, que pretenda formatar a cabeça de quem quer que seja, numa catequese espírita, à moda jesuítica do passado. O espiritismo em si mesmo respeita a liberdade de consciência e não é proselitista, conforme alertava Kardec. Trata-se, ao invés, primeiro, de um resgate pedagógico do espiritismo — isto é, entendemos e praticamos melhor a doutrina espírita se a entendemos e praticamos como proposta educacional que é.

Segundo, tratase do impacto conceitual e metodológico que o espiritismo provoca na ciência e na prática da educação. A partir do ponto de vista de que a criança é um ser reencarnado, de que o ser humano é interexistente, como dizia Herculano Pires, de que a meta da vida é um processo de educação permanente com vistas à eternidade, muda-se a nossa perspectiva do para quê e como educar... A quem se destina?

D.I. — A pedagogia espírita destina-se a qualquer pessoa. Não poderá haver uma proposta de educação que seja exclusiva de um grupo, de uma classe... Não se tratando de uma proposta sectária, podemos aplicá-la na relação com qualquer ser humano. Apenas, o educador, este sim, precisa estar embebido da cosmovisão espírita, porque é dela que derivam os princípios fundamentais da Pedagogia Espírita. E que princípios são esses?

D.I. — Didacticamente, costumo enfeixá-los numa tríade: a liberdade, a acçãoeo amor. A aprendizagem de facto, tanto intelectual quanto moral, só se dá num processo de construção autónoma do indivíduo. Esteja ele criança, adolescente, jovem, maduro, velho, encarnado ou desencarnado, o espírito é sempre livre, dono de si mesmo, responsável pela sua própria evolução. Outros poderão ajudá-lo, orientá-lo, influenciá-lo, estimulá-lo, mas ele deverá tomar a si mesmo nas mãos e cumprir o que o Espírito da Verdade recomendava: “tomai vossa dócil argila nas mãos”, “vós sois os artífices da vossa imortalidade”.

Essa liberdade que todos nós temos, outorgada pela Divindade, nos é dada Jjustamente para agirmos e na acção experimentarmos o bem e o mal, para termos o mérito e a responsabilidade dos nossos actos. Assim, em todos os níveis de aprendizagem — seja aprendendo uma virtude moral, uma fórmula de matemática, uma profissão, ou qualquer coisa que contribua no aperfeiçoamento do nosso espírito, só aprendemos realmente na prática e nunca apenas em teoria.

isso, grandes pedagogos como Comenius, Rousseau, Pestalozzi, pregavam a educação activa. Vemos, pois, que o grande desafio da educação e, portanto, do educador é conquistar a vontade livre do educando para uma acção voluntária no bem... Mas como despertar (sem impor) essa vontade? Aí entra o terceiro princípio da pedagogia espírita: o amor. Só o amor toca a essência divina da alma, acordando-a para o impulso evolutivo.

Como interpreta a relação Educador/Educando? D.I. — E justamente desta relação afectiva entre educador e educando que nasce o processo pedagógico. Não é à toa que Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai. Pai é quem ama e educa. À relação que o próprio Cristo estabeleceu com a Humanidade, sendo ele o Mestre dos mestres, é uma relação de amor, de doação total, de entrega e de sacrifício. Apenas um amor farto e profundo consegue mover as vontades anestesiadas, dormentes, para que elas se engajem na lei da evolução.

O educador não é, assim, aquele que exerce um poder de coação, de imposição e modelação, mas o que renuncia a todos os poderes, para apenas se doar, exemplificar e contagiar o educando. E quanto menos impõe, menos poder quer, menos exercita o autoritarismo, mais poder de facto possui — o poder da autoridade moral e de tocar o outro.

Como propõe a educação moral, intelectual e estética?

D.I. — Sempre pela prática. Não se aprende a ter virtudes ouvindo belos sermões. Não se aprendem as disciplinas (como até hoje se faz na escola) olhando o professor a explicar no quadro. E preciso aprender fazendo. E por isso que todo o processo de educação deve ter espaço para a acção livre, em que o educando produza coisas: pesquisas, debates, relatórios, observações, teatro, textos, multimédia, filmes, obras de arte...

seja o que for. Todo o aprendizado deve resultar numa produção. E toda a produção deve ter um elemento estético. Já dizia Platão da identidade ontológica entre o Bem e o Belo. Deve-se habituar a criatura a buscar a perfeição, a beleza, a harmonia em tudo. E da educação mediúnica?

D.I. — Bom, aí, já tenho de quebrar alguns tabus reinantes no movimento espírita (pelo menos no brasileiro). Assim como para o desenvolvimento de qualquer outra pontencialidade do ser, a prática e a liberdade são essenciais e são completamente antipedagógicos os cursos apostilados, com passos iniciáticos.

Em primeiro lugar, a pessoa não se torna médium, ela é médium. Precisa de aprender a controlar o fenómeno, a direccioná-lo para o bem, etc. À educação mediúnica é a aprendizagem teórica e prática de como se conduzir uma mediunidade que Já está à flor da pele. Por isso, é absurdo fazer a pessoa esperar anos, fazendo cursinhos, para só depois poder se exercitar. Nessa altura, a mediunidade já se embotou.

Outro tabu a ser quebrado no movimento espírita e não o faço em meu nome, mas era Kardec que pensava e agia assim, é a questão das idades. As grandes mediunidades começam cedo, geralmente na adolescência, às vezes até na infância. Então, não se pode esperar que o adolescente e o jovem façam anos de cursos, como muitos centros aqui propõem, para depois darem vazão à sua mediunidade. Lembremo-nos que O Livro dos

Espíritos foi ditado através das duas meninas Boudin, uma de 14 outra de 16 anos. Nesse sentido, conto minha própria experiência: aos 11 comecei a psicografar, aos 14 li sozinha, de cabo a rabo, O Livro dos Médiuns e, aos 15, sentei-me à mesa mediúnica e comecei a receber espíritos, sob a orientação de Herculano Pires. O desenvolvimento trem de ser natural, sem formalidades. É preciso estudar sim, e muito e sempre. Mas o estudo só faz sentido com a prática. Senão, daqui a pouco, aliás já o querem alguns, teremos um espiritismo sem espíritos.

Qual a importância da família numa Educação Integral?

D.I. — A família é essencial no processo da educação. Mas é preciso resgatar algo perdido neste mundo do trabalho desgastante e escravizante do neoliberalismo global: a vida privada, a vida em família. As pessoas hoje não têm mais tempo para estar com o outro. E o principal de uma educação equilibrada é ter tempo para estar com os filhos, para conversar, brincar, contar histórias, observar as tendências positivas e negativas dos espíritos que vieram até nós...

Educar dá trabalho: muito diálogo, muita atenção, muitas noites sem dormir. Digo sempre que há dois extremos a serem evitados na educação em família, que são aliás os mais comuns. O primeiro é o do “faça o que eu mando senão vais ver o que te acontece”. O segundo é “faz o que quiseres, contanto que não me aborreças”. O primeiro é o modelo autoritário, o segundo é o do indiferentismo. Nenhum dos dois é educação. A educação não é nem um condicionamento à obediência, nem um laissez-faire.

É orientar sem impor, doar sem exigir, mas estar presente o tempo inteiro, com amor intenso e preocupação, mas sem sufocar...

D.I. — As escolas deveriam ser o local privilegiado do desenvolvimento integral da criança. Mas para que isto de facto ocorresse, seria preciso uma reformulação total do seu funcionamento. Já desde o ambiente — cadeiras e quadros negros, sem verdes e coloridos —, deveria ser substituído por algo estimulante. Salas ambientes, ambiente marcado pela natureza, computadores, salas de teatro, música, laboratórios etc. De seguida, o ensino fragmentado,

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