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Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 184 min
No final do ano em que foi publicado O Livro dos Espíritos, Allan Kardec sentiu necessidade de divulgar, explicar e ampliar a doutrina nascente, e ainda, de defendê-la da ignorância e da intolerância. Para tal finalidade criou a Revista Espírita, de periodicidade mensal.
No início, após dificuldades e dúvidas do seu financiamento e sucesso, pois contava com a ajuda financeira do sr. Tiedeman que não se concretizou, avançou só, com a ajuda dos Bons Espíritos.
Em Novembro de 1857 os Espíritos advertiramno do cuidado a ter com a qualidade do seu conteúdo, dizendo-lhe o seguinte a respeito do primeiro número, que seria de experiência: «Se for mal feito melhor seria que o não fizesses, porque a primeira impressão que causar poderá decidir de seu futuro. É preciso que seja dedicado, sobretudo no começo, a satisfazer a curiosidade. Deve conter tanto o sério como o agradável. O sério interessa aos homens de Ciência e o agradável distrai o vulgo.
» No dia 1 de Janeiro de 1858, sem ter dito nada a ninguém, Kardec fez aparecer o primeiro número da Revista, com o subtítulo de Jornal de Estudos Psicológicos, que viria a ter um sucesso que ultrapassou as suas expectativas. A partir desse primeiro número, o Codificador publicaria consecutivamente mais 135 números, correspondendo a onze anos e quatro meses de trabalho intensivo que nos oferece ao vivo toda a História do Espiritismo, no processo do seu desenvolvimento e sua propagação no século XIX, conforme nos informa o prof.
- EDICEL — EDITORA CULTURAL ESPIRITA LTDA.
Fig. 1 - Foina de rosto da 1º m português. Ano EDICEL de tradução do Or. Júlio Abreu Filho
da Doutrina e a estruturação do movimento espírita.Temos de ter presente que naquela época Kardec não dispunha das facilidades e comunidades que hoje a tecnologia nos oferece: o computador para processar os textos, o telefone para comunicações, a lânpada eléctrica para a iluminação da sala de trabalho e o automóvel para as deslocações rápidas. Kardec levantava-se às quatro horas da madrugada, para à luz frágil do candeeiro trabalhar sem descanso pela Humanidade.
Tinha de ler, separar e responder a centenas de cartas provenientes da França e dos mais diversos pontos do Globo. Tinha de sair em defesa da Doutrina, sem jamais ser agressivo ou maleducado. Tinha de redigir os livros da Codificação. Tinha de preparar as reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de que era o Presidente.
Por várias vezes procurou abdicar de algumas responsabilidades doutrinárias, para as entregar aos demais companheiros de ideal, mas os Espíritos impediram-no de o fazer, pois sabiam que não estariam à altura da tarefa, o que mais tarde se confirmou, após a sua partida em 31 de Março de 1869. Mas, o essencial da sua missão estava terminada. Não obstante a boa vontade dos seus continuadores, por falta de prudência, de maturidade espiritual, permitiram que a SPEE e a Revista fossem invadidas por questões que retardariam a implantação da Doutrina e dariam uma imagem deplorável à sociedade, designadamente às pessoas que não abdicam do raciocínio e do bom senso.
Verifiquemos o episódio das fotografias mistificadas de Espíritos que ficou conhecido pelo «Processo dos Espíritas»; a introdução gradual de doutrinas espiritualistas não espíritas; a aceitação da doutrina de Roustaing; a experimentação sistemática, dando primazia ao fenómeno em detrimento do consolo perante a dor, da educação moral e espiritual; etc.
Fig. 2 - Capa do primeiro fascículo, Janeiro de 1858. Primeira edição do IDE,
contribuíram, não obstante os trabalhos sérios de Léon Denis, Gabriel Delanne e Ernesto Bozzano, para o desaparecimento do Consolador em França e na Europa. Depois destes parêntesis, lembramos que a Revista organizada por Kardec, constitui um verdadeiro monumento de cultura e História do Espiritismo que até aos anos sessenta do século XX, ou seja, durante um século, era uma raridade bibliográfica, tanto no Brasil como em Portugal, estava apenas reservada ao conhecimento de alguns privilegiados que a possuíam no original francês, como nos lembra Herculano Pires.Hoje já podemos ler esse monumento do Espiritismo em três boas traduções:
1.ºJúlio Abreu Filhoeditora EDICELSão Paulo, SPdécada de 60 séc. XX; (Fig. 1) 2.ºSalvador Gentileeditora IDEAraras, SP - 1993/2001; (Fig. 2)
3.ºEvandro Noleto Bezerraeditora FEB Rio de Janeiro, RJ - 2004/2005. (Fig. 3) Esta obra deve fazer parte integrante de todas as bibliotecas das Instituições Espíritas, porque são fontes importantíssimas de estudo e consulta para preparação dos mais diversos trabalhos: palestras, artigos, livros. No próximo artigo iremos falar do livro que constitui o Índice Geral Remissivo da Revista Espírita, que constitui uma ferramenta indispensável para rapidamente, localizarmos e consultarmos o artigo, o assunto, a personagem, etc., que necessitamos para estudarmos ou fazermos qualquer trabalho que tenha por base a obra de Kardec e/ou a sua época.
Texto: Carlos Alberto Ferreira
Fia. 3 — Capa do primeiro volume, ano 1858, Terceira edição da FEB, 2004 o Notes

