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opinião Homossexualidade Conclusões simplistas, pesquisas psicológicas

Jornal de Espiritismo nº 12 · 2005Página 115 min

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Conclusões simplistas, pesquisas psicológicas ou indagações da esfera científica ainda não explicam com êxito as causas da homossexualidade. Mas os princípios do Espiritismo trazem um importante contributo...

Homossexualidade. Uns riem perante o problema, zombam; os mais ousados batem; outros permanecem na dúvida. Enfermidade? Moda? Achaque que contagia?

Protagonista de uma história real nos meandros deste conceito de relacionamento humano e sob pseudónimo, Estrela relatanos a sua vida. Deixa transparecer retalhos de vivências complexas e do sofrimento que “carregou” até à descoberta do pensamento espírita. Afirma que nem tudo decorre com a normalidade a que aspira, mas está em paz consigo mesma e com a sociedade que demora em aceitar a sua

Estrela é adulta. Tem trinta e três anos. E mãe de uma adolescente de dez. Corajosa e segura, sabe que a Doutrina Espírita não a condena. Por isso, afirma: “quero ser eu a contar a minha história, porque é uma coisa minha”, contrariamente à posição tomada pela mãe que, por ignorância, “contou a toda a gente que a filha era amante de uma amiga”. Com esta postura, “posso ajudar alguém a ser mais feliz”, afirma.

Pelos oito anos dá conta de “alguma anormalidade no relacionamento com as outras miúdas”. Sente atracção pelo mesmo sexo. Também “via as outras crianças a gostar de rapazes e eu não”, assevera. Contudo, a adolescência é uma fase conturbada, onde muitas emoções afloram e, aos catorze anos, tenta o namoro com rapazes “para ver o que se passava”. Uma vez mais a mecânica sexual falha e, aos dezasseis, já não pode negar a si mesma os sentimentos “traumáticos” que a dominam. É, então, que um passeio “aproxima-a” de uma amiga da mãe, três anos mais velha. Está deveras apaixonada por ela. Recebe e

envia inúmeras cartas, mas interroga-se: “será que ela me ama, por amizade? Sentirá o mesmo que eu?” Durante dois anos o romance acontece.

A inibição é maior e a rejeição do grupo de ami%os e, particularmente, da família também. A sociedade aponta o dedo, obrigando-a a encontrar-se às escondidas com a companheira. De preferência na terra natal daquela. Sente-se culpada. Sai de casa. Busca a ?e]icidade, ainda que por caminhos intrincados do mundo material. Mas só tem dezassete anos ...

Não obstante, vive um período de exaltação da sensualidade, até ao limite de a companheira a “magoar muito”. “Fui trocada por um homem”, refere. A partir daí, “cada uma para seu lado”.

A conjugação efectiva dos elementos biológicos quebra pela raiz e a estrutura vital debilita-se. Desiludida e fracassada na relação, “entrei no mundo do álcool” e "só não entrei no mundo da droga porque tinha muitos amigos que me ajudaram imenso”, assegura Estrela.

A humanidade desenvolve-se em torno de várias verdades e, para superar forças, começa a “acompanhar com homens”. “Uma semana com um, outra semana com outro”. Pretende esquivar-se à realidade que vive, até que ... surge o casamento ... “porque também queria fugir”. Casando, “ia esquecer tudo que eu era”, confirma a interlocutora.

Durante oito anos de relação conjugal, nunca “traí o meu marido, nem com homens, nem com mulheres”, assegura Estrela. “Esforcei-me por corresponder às exigências próprias de uma relação a dois”, mas “fui acusada de infidelidade”. O nascimento de uma filha traz novas esperanças mas, graças aos maus tratos que recebe, o pensamento “voa” para longe do lar, preso a criaturas do mesmo sexo. Mais propriamente à imagem da mulher que “povoou” o seu Eassado.

A culpa martirizaa mais e mais ... “Porquê comigo?” O motor da relação já não é o prazer de estarem juntos. A carga de valores negativos redobra e a vida não tem mais sentido. “Quero matar-me”, pensava constantemente, face às persistentes acusações de adultério, indiferença e escândalos provocados pelo cônjuge.

“És igual a qualquer pessoa, apenas tens que te aceitar a ti própria”, terá sido a frase “mágica”de libertação proferida pela psicóloga da filha e que contribuiu para a tomada de decisão que se impunhaa separação do marido. E novo regresso ao seio dos progenitores.

O tempo vai passando... Entretanto, a resposta a um anúncio coloca no caminho de Estrela uma nova esperança. Uma criatura espírita que “comunga dos mesmos sentimentos” é nova chama para o seu

“triste viver”, mas também fonte de importantes repercussões individuais, familiares e sociais. Está desempregada. E expulsa da habitação própria, que dividia com os pais. Então, mais corajosa do que nunca, procura outros lugares. Enfrenta a realidade, demonstrando que a homossexualidade não impede a realização pessoal. Desta vez, não vai permitir qualquer interferência no pequeno círculo onde as três pessoas envolvidas ultrapassam a barreira social, vivendo em conjunto e desfrutando amorosamente do prazer de estarem juntas.

Pela mão da companheira, deixa-se conduzir ao Centro Espírita, que a acolhe e equilibra. É o segundo lar. Agora todas sabem que a filosofia espírita “não possui a característica de censurar quaisquer actos”. Pelo contrário, estuda e “compreende a origem dos problemas humanos”, ao mesmo tempo que esclarece e não condena.

O estudo do pensamento espírita recuperou-lhe o apreço pelas pequenas coisas da vida. Entende a sua mediunidade como um estado natural do ser humano. Compreende o sexo como fonte permanente de energia para realizações construtivas. Sabe que todas as respostas estão dentro de si mesma. Que os homossexuais, homens ou mulheres, são criaturas que “revivem do perispírito as suas reminiscências de condicionamentos anteriores”.

Encontrou o “equilíbrio e o perdão para os familiares”, nomeadamente os pais e o ex-marido. “Sei que ninguém teve culpa”, porque “não conhecem as leis espirituais”, assegura. O conforto das verdades que agora experimenta condu-la à autenticidade da sua condição. “Aceito-me permanentemente como sou”, declara Estrela, reconhecendo que está em constante mutação. Ama e sente-se amada. A prece, o Evangelho e a vontade trazemlhe novos prazeres.

Novas compensações. O corpo e o espírito estão harmonizados face a uma “ possível” expiação de abusos e desregramentos do passado, mas a certeza de vidas futuras, numa outra condição, consola-a. Acima de tudo, percebe que, enfermidade ou desequilíbrio, comportamento imoral ou moda passageira, a sociedade satisfaz-se em caluniar e maldizer, não contribuindo em nada para apoiar aqueles que, como elas, enfrentam o “problema” da homossexualidade.

Hoje, melhor do que nunca, sabe que, acima de tudo, lhe compete “tratar de forma evolutiva a sua sexualidade”, através das experiências a que o espírito se impõe e que o tempo existe para nos dar tempo para fazermos escolhas.

Texto: Eugénia Rodrigues. Foto: José Braga

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