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Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde men

Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 46 min

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Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Agora, faça sua(s) pergunta(s) O inconsciente e o ateísmo contemporâneo Em 4 de Agosto foi-nos repassada a seguinte carta de nossa leitora: “Dr. Iso, parabenizo-o bem como ao Jornal de Espirit- ismo, por terem uma Coluna dedicada a um tema tão interessante — psiquiatria e espiritismo — que para nós espíritas é muito pouco entendido.

Sou uma fã dos seus trabalhos que me esclarecem muito. Aproveito a oportunidade que o jornal me confere para solicitar ao respeitado espírita como médico psiquiatra e docente que escrevesse sobre o inconsciente e a sua ligação com a doutrina espírita”. FERNANDA DA SILVA, Santa Maria da Feira. Muito obrigado, caríssima FERNANDA, pelas palavras de incentivo ao jornal e, em particular, a nossa coluna; sinto-me feliz, pois alguns dos objectivos desta página começam a serem atingidos: o esclareci- mento e a interactividade com os leitores.

Bem, o tema proposto foi desenvolvido em boa parte de nosso livro Sexualidade & Afectividade (Editora DPL, São Paulo, Brasil, 2003). Não obstante, tentaremos dar uma ideia geral sobre o assunto, que é vasto, porque não caberiam detalhes no espaço de que dispomos (para aqueles que deseja- rem estudar o assunto, com mais minúcias, remeto-os ao nosso referido livro). Que é o inconsciente? A doutrina pansexualista de FREUD.

Segun- do SIGMUND FREUD (Moravia 1856-1939), o criador da psicanálise, o inconsciente seria o principal, quase único, determinante de todo o nosso psiquismo, normal e pa- tológico (doentio). Para ele, o inconsciente seria uma instância instintiva, pulsional, que apesar de seus conteúdos não estarem na consciência de maneira permanente, aí apareceriam frequentemente, sem que nos apercebêssemos da origem deles, e seriam capazes, eventualmente, de dirigir toda a nossa conduta, todo o nosso comporta- mento explícito.

O inconsciente apareceria em estado quase puro no sono, através dos sonhos, os quais, segundo FREUD, seriam nada mais do que realizações INCONSCIENTES de desejos... Actuariam na consciência duas instâncias básicas do Inconsciente: 1- o pré-consci- ente, originariamente descrito por PIERRE JANET como subconsciente, considerado por FREUD como pertencente também ao Inconsciente; 2- o Inconsciente, propria- mente dito, ou Inconsciente profundo...

O pré-consciente seria representado por aqueles conteúdos capazes de consciência; por exemplo: esqueço-me de uma pala- vra no meu discurso, estou com a palavra “na ponta da língua”, porém, não consigo lembrar-me dela naquele momento, por mais que me esforce. A seguir, desisto de me concentrar para buscar aquela palavra esquecida por mim... Então, espontanea- mente, a palavra vem à minha consciência, ou seja, ela foi capaz de consciência, isto é, estava no meu pré-consciente e passou para a consciência.

Já o Inconsciente, propriamente dito, o Inconsciente profundo, seria dinâmico, rep- resentado metapsicologicamente por três instâncias: o Id, o Ego e o Super-Ego... O Id seria a pulsão instintiva quase pura, indiferenciada, isto é, seria o animal feroz e libidinoso que existe em nós, que busca o prazer a qualquer preço, mesmo que acabe disfarçado, através de mecanismos de defesa ao passar para o Ego, instância mais ou menos consciente.

E o Super-ego seria a nossa censura moral, que interceptaria a actuação do Id, modulando-o, segundo as conveniências sociais. Um Super-ego muito rígido geraria conflitos, neuroses principal- mente. Assim, a nosso ver, uma das consequências deletérias para a sociedade foi a admissãoea adopção mundial das teses freudianas, levando-a a uma permissividade sexual e à violência desenfreada, sem precedentes, a partir do século XIX e que persiste até aos dias actuais, embora tenha sido útil para o entendimento da dinâmica do psiquismo em determinados casos individuais.

A Psicanálise leva a consequências práti- cas, às vezes, de libertação de conflitos neuróticos; mas, na maioria das vezes, de liberação sem freios dos instintos, pois seus princípios teóricos induzem as pessoas a que não controlem seus impulsos, gerando libertinagem e, muitas vezes, aumento da agressividade, não contida... É verdade que FREUD falava em sublimação dos instintos, através de actos socialmente admitidos na nossa Civilização...

Até obras de arte foram interpretadas como instintos sublimados, de forma determinista, fatalista. O melhor exemplo disso é a obra MONA LISA (LA GIOCONDA), de LEONARDO DA VINCI, interpretada por FREUD como resul- tante de conflitos de homossexualidade latente do autor, no entanto, DA VINCI era homossexual manifesto, e não latente... Assim, caríssima FERNANDA DA SILVA, o Inconsciente seria representado pelos instintos ancestrais no homem; desde a infância ele ir-se-ia diferenciando, tanto assim é que FREUD afirmou que as crianças são perversas polimorfas, isto é, enfatizou a sexualidade infantil, chegando mesmo a descrever as várias fases do desenvolvimen- to da líbido: oral, anal e fálica...

O conceito de Inconsciente está intimamente ligado ao conceito de líbido, ou seja, FREUD propôs uma doutrina pansexualista, isto é, atribuía tudo como proveniente da sexualidade, embora esta tivesse uma ampla acepção, em FREUD. Entretanto, acreditamos que isto seja um eufemismo usado por ele e seus seguidores, para justificar o injustificável radicalismo – a ideia da preeminência da sexualidade em todos os acontecimentos da vida.

Enfim, FREUD era ateu, confessadamente, e a sua teoria psicanalítica esconde em seu bojo este ateísmo e, portanto, a princi- pal causa do egoísmo e do materialismo desenfreados que nos acompanha até os dias actuais, desde meados do século XIX, principalmente, e foi exactamente neste século que surgiu a Doutrina dos Espíritos – o CONSOLADOR que JESUS prometeu pedir ao Pai; cumpriu a promessa... Ligação do inconsciente com o espiritismo Para nós, caríssima leitora, o inconsciente é o arquivado em nosso Espírito (e não no perispírito, como admitem alguns), ele é o repositório de vivências importantes de nossas vidas, que ficaram e ficarão indel- evelmente guardadas em nosso património mnémico, isto é, da memória, mas tais vivências não estão a todo momento per- passando a nossa consciência, não, como o Encaminhe a sua pergunta para: Dr.

ISO JORGE TEIXEIRA E-mail: isojorge@globo.com Ou pelo correio: Apartado 161 4711 – 910 BRAGAPORTUGAL admitia SIGMUND FREUD... Normalmente, somente conseguimos lembrar-nos do nosso passado naquilo que ele possui de importante para a nossa evolução espiritual e o porquê disto está explicitado na respos- ta à questão 392 de O Livro dos Espíritos, de ALLAN KARDEC. Epílogo Por tudo o que foi dito, caríssimos leitores, discordamos de alguns confrades que tentam misturar Psicanálise com Espiritismo e até com orientalismo, como na Psicologia de JUNG, por exemplo...

A concepção de Inconsciente, segundo a Psicanálise é, no fundo materialista e o orientalismo antigo é misticista, que não se coadunam com o verdadeiro Espiritismo. Não obstante, seria factível compatibilizar a a Psico(pato)logia e Psiquiatria com o Espiritismo? Poderia haver essa ligação? No meu modo de entender, SIM e, aliás, tratamos disso em nosso livro, acima citado, e ali dissemos: “(...) podemos compatibilizar a Psico(pato)logia e a Psiquiatria com o Espiritismo se levarmos em conta que a doença mental compro- mete o homem globalmente considerado, e este é um todo indivisível e o todo é ante- rior às partes; por isso, nem o psicologismo freudiano, nem o organicismo pragmático dos norte-americanos, nem o sociologismo utópico dos marxistas modernos, nenhum deles conseguiu compreender a pessoa humana “(op.

cit., p. 24). Amparados em FREUD, algumas pessoas negam os fenómenos espirituais, dizendo que são mecanismos inconscientes de de- fesa do Ego das pessoas problemáticas ou, então, negam por má-fé, levantando hipó- teses “parapsicológicas” absurdas unidas ao conceito indefensável de Inconsciente, no estilo freudiano (como ainda o faz o padre espanhol Oscar Quevedo, radicado no Bra- sil) para explicar fenómenos efectivamente causados por Espíritos desencarnados.

A nosso ver, FREUD e seus seguidores ortodoxos foram os principais responsáveis, do ponto de vista psicológico, pelo ateísmo contemporâneo e pela recrudescência do egoísmo e do materialismo da Humani- dade. Obrigado leitora pela sugestão do tema, um grande abraço e muita PAZ a todos. Texto: Dr. Iso Jorge Teixeira (CREMERJ: 52- 14472-7, Livre-docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Brasil).