Ade-rj
Jornal de Espiritismo nº 14 · Janeiro 2006Página 105 min
Entrevista Malformações e Espiritismo Américo Domingos Nunes Filho é médico pediatra, dos mais ilustres investigadores sobre fetos e crianças com deformações, escritor, expositor espírita, vice-presidente da ADE-RJ – Associação de Divulgadores do Espiritismo do Estado do Rio de Ja- neiro, membro honorário da AME PORTO – Associação Médico-Espírita da Área Metropolitana do Porto, fundador e presi- dente da AME-RIO – Associação Médico-Espírita do Estado do Rio de Janeiro –, onde concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Espiritismo.
Contou-nos que estava a fazer um par- to e que o recém-nascido surgiu, apa- rentemente hígido, parecendo sadio, quando reparou que o bebé nascera sem os globos oculares, portanto desprovido da visão. O que sentiu? Américo Domingos Nunes Filho – Na época, ainda estudante de medicina e não espírita, fiquei revoltado com Deus. Ensimesmado em graves lucubrações, reflectia: “Por que o Pai, artífice maior do Cosmos, cria a desarmonia?
”. Muitas dúvidas surgiam, confrontando a minha crença reli- giosa, então dogmática, com o que estava observando racionalmente. Naquele instante, pensava como a Divin- dade se me apresentava injusta, dando vida a criaturas deficientes, ao lado de outras normais. Uns, portando malformações, e outros saudáveis. A ultrapassada teologia dogmática propaga que todos os seres terrenos são descenden- tes de Adão e possuidores de apenas uma existência física.
Assim sendo, deveriam todos os filhos de Deus nascer com as mes- mas atribulações, sem o estabelecimento de diferença ou distinção entre as pessoas. Seria extremamente injusto alguém passar por uma aflição muito intensa, por causa do deslize de um antepassado, chamado Adão, ao qual nem chegou a conhecer. Também sem fundamento que os sofrimentos dos descendentes do “primeiro homem” sejam diferentes, alguns nascendo aleijados, outros cegos e a maior parte das nativi- dades verificando-se com recém-nascidos normais.
Como médico pediatra viu malforma- ções. Numa delas, o bebé não tinha órgão sexual. Como abordou os pais do recém-nascido? A.D.N.F – Procurei transmitir muita calma, tentando amenizar a intensa ansiedade vivida pelos genitores, que intentavam, através do meu atendimento médico, solução para o doloroso caso. Encaminhei o paciente para a cirurgia, para eliminação urgente da urina através da exteriorização da uretra, sabendo que não havia a pos- sibilidade de qualquer outro procedimento, inclusive transplante ou colocação de uma prótese peniana.
Como explicar estes dois casos vividos por si, à luz da doutrina espírita? A.D.N.F – A aclaração sensata provém da doutrina das vidas sucessivas ou palingé- nese, por ser a única que preenche o vazio da alma humana à procura de um esclare- cimento a respeito de si mesma. Quem é o homem? O que faz na Terra? Qual é o seu porvir? Sem o princípio da pluralidade das existên- cias nunca se entenderá o porquê de todas as coisas.
O Espiritismo é fé raciocinada. De imediato, o profitente da doutrina consoladora de Jesus, codificada pelo sábio francês, Allan Kardec, questionará dos que negam a reen- carnação a causa espiritual do nascimento de seres monstruosos, alguns vindo ao mundo, sem cérebro (anencéfalos), outros trazendo, já no berço, deficiências mentais. Sem a doutrina palingenésica, Deus parece, ao olhar perquiridor, muito pouco criativo; inclusive, parecendo lembrar uma vulgar personalidade sadomasoquista, divertindo- se ao formar seres sem nenhuma possibili- dade de crescimento evolutivo espiritual.
Afinal, para que, então, Deus cria a im- perfeição? Certamente, os dogmáticos religiosos tentarão uma resposta, baseada no chamado pecado original, dizendo que o sofrimento entrou no mundo por causa do erro do primeiro homem, Adão. Outros alegarão “mistério”, ou então, “não se pode discutir os desígnios divinos”. Cada ser se encontra sintonizado em de- terminada faixa evolutiva espiritual. Os que aceitam a reencarnação são aqueles que raciocinam, perscrutando as dissemelhan- ças da vida humana sob a óptica do amor, sabendo que não há favoritismo no mundo, sendo o espírito o artífice do seu cresci- mento e evolução.
Jesus disse: “Eu tenho muitas coisas para vos ensinar, mas não podeis compreender agora”. Felizmente, chegou o momento do conhecimento da verdade que o Conso- lador prometido por Jesus (Espiritismo) revela. O Mestre, em sua sublime estada na Terra, ensinou a divina Lei de Causa e Efeito: “Se o teu olho te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti. Melhor entrares na vida sem o olho”. “Eis que já estás curado. Não erres mais para que não te suceda coisa pior.
” “Embainha a tua espada, pois todos os que lançarem mão da espada, pela espada perecerão.” Quando é plasmada no corpo físico a lesão que estava situada no espírito, a cura acontece, já que o remorso não existe mais. Não estará mais o ser vivenciando o que fez de errado no passado, porquanto conseguiu resgatar o que o afligia. Passa agora a lembrar do sofrimento que o levou à desencarnação, apagando a lembrança do remorso aterrorizante anterior.
Antes, o comportamento era de algoz, depois do resgate o ser apresenta-se como vítima. Uma só existência física é insuficiente para o espírito assenhorear-se do alfabeto cósmico e, principalmente, para elaborar as primeiras linhas da escrita do Universo. Na verdade, o homem, outorgado por Deus como ser imortal, é herdeiro do Infinito. A reencarnação representa, em todos os sentidos, uma dádiva dos céus, sempre mi- sericordiosa, concedendo preciosas opor- tunidades para a aquisição das experiências, em todo o transcurso da evolução.
O que é um feto acárdico? A.D.N.F – A questão 356 de O Livro dos Espíritos (OLE) afirma que pode haver formação de corpos que jamais tiveram um espírito destinado, desenvolvendo-se, apenas, segundo as leis biológicas, porém não sobrevivem (natimortos). A questão 136 (a) de OLE ensina que a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica. Contudo, a vida orgânica pode animar um corpo sem alma. A questão 136 (b) de OLE enfatiza que o corpo físico desprovido de alma cor- responde à simples massa de carne sem inteligência, em nada se comparando com um homem.
Na área médica, não há dúvidas de que, juntamente com outros natimortos sem aparência humana, o feto acárdico se en- quadra nesses sublimes ensinos da espiritu- alidade superior. Conhecia apenas o assunto, através do manuseio de obras especializadas, até que obtive a oportunidade de ter o meu próprio material e constatei que ele não era porta- dor de órgãos, apresentando-se completa- mente oco. Publiquei minhas pesquisas, na Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, São Paulo, em Outubro de 1997, seguindo- se logo após várias edições.
Depois, foi igualmente inserida, na França, em matéria de capa do 1.º número do relançamento da Revista Espírita, criada por Kardec. Tratou-se de um facto marcante, provando que a codificação espírita está actualizadís- sima, ressaltando a afirmativa de Kardec de que a revelação espírita é caracterizada por sua origem divina, pela sua inicia- tiva pertencente aos espíritos e pela sua elaboração, consequente fruto do trabalho do homem (“A Génese”, cap.
I, n.13). A propósito, estou, no momento, empenhado nas pesquisas, relacionadas com o tema cé- lulas-tronco e suas implicações doutrinárias e, com muita alegria, a minha fonte de consultas é “O Livro dos Espíritos”, a par com o progresso científico, embora tenha vindo a lume, em meados do século XIX. * O que é um feto anencéfalo? A.D.N.F – Trata-se de recém-nascido malformado, apresentando vestígios de cérebro.
