Saúde A bioética e o paradigma espírita O progresso científico faz cre
Jornal de Espiritismo nº 14 · Janeiro 2006Página 57 min
Saúde A bioética e o paradigma espírita O progresso científico faz crer que estamos a romper as fronteiras do impossível e a ousadia dos cientistas parece atropelar a ficção e provocar uma rotura no mito da criação. A cada nova descoberta que nos surpreende ficamos com a impressão de que estamos a ir longe demais e o sistema de travagem parece que ficou fora do nosso alcance. Cada descoberta, no entanto, revela o paradoxo que expõe com mais ênfase as nossas contradições: o que passamos a saber demonstra com mais força o que ainda não sabemos.
Identificamos as subpartículas da matéria, a sua equivalência com a energia e dis- secamos um feixe de luz em ondas e em “quantas” de energia. Desconhecemos, porém, qual é a essência da energia, de onde provém a matéria que nos impres- siona e não temos ainda a menor noção dos fundamentos do Universo. Dissecamos a célula, recombinamos a sua química, traduzimos o seu código reprodu- tor e ousamos alterar o abecedário gené- tico.
Podemos fazer cópias de qualquer forma de vida e dotá-la de aparências ou aptidões previamente escolhidas. Desco- nhecemos porém qual é a essência que produz a vida e de onde provém essa força que dá vida às células. Não temos a menor noção dos fundamentos que nos apontam qual é a origem da vida. Os aparelhos de ultra-som permitem-nos “ver” a criança dentro do útero em três dimensões. Podemos identificar os seus defeitos estruturais confirmando preco- cemente a existência de malformações fetais.
A biópsia das células da cavidade amniótica dentro do útero dá-nos um registo de identidade da criança bem antes dela nascer. Ficam assim, os pais eomédico com a possibilidade de decidir sobre o ónus de continuar ou não a gestação de uma criança que se apresentará com paralisias ou retardamento pela vida toda. Precisamos de saber, porém, se interromper esta vida não significa perturbar o desenrolar de uma outra vida que transcende as expressões da matéria, para a qual a deformação física faz parte das suas necessidades.
Não há como fazermos esta pergunta a esta criança antes que ela venha ao mundo, mas sabemos que as que estão entre nós, mesmo ferindo as suas pernas quando tentam caminhar, contorcendo as suas mãos quando tentam escrever ou mastigando as palavras quando tentam falar, estas, mesmo assim, querem viver. E, se possível, de mãos dadas com as suas mães. Os meios de cultura, os microscópios e os delicados instrumentos de manipulação das células permitiram-nos lidar com o óvulo e o espermatozóide com a mesma facilidade com que Mendel combinou as flores e as ervilhas do seu jardim.
As cores das ervilhas e das flores podem variar com a mesma facilidade com que podemos esco- lher o sexo, a cor da pele e a cor dos olhos para as nossas crianças. Estes filhos, porém, não trazem consigo, a certeza da felicidade, do respeito à vida ou a obediência aos pais quando estes souberam apenas fornecer o material genético que a reprodução as- sistida facilitou. Precisamos de esclarecer se antecedendo a forma física não existe um ser transcendente cujas qualidades e ap- tidões nos são inteiramente desconhecidas.
Os equipamentos médicos de respiração assistida prolongam a vida de milhares de pacientes que a UTI teima em salvar. Os transplantes de órgãos dão ao paciente a oportunidade de um renascer na jornada da vida. Os imunossupressores controlam a rejeição nos transplantados e reduzem as respostas indesejáveis em inúmeras doenças nas quais a imunologia está a esclarecer a causa. Aplicações que atingem directamente o sistema nervoso estão a controlar dores terríveis que incomodam os pacientes com cancro.
Estes progressos todos, porém, não conseguirão nunca solu- cionar o dilema da morte e do sofrimento que às vezes a antecede. Por outro lado, estes recursos que aliviam e prolongam a vida, podem, com a mesma competência, ser postos à disposição para decidir a data da morte ou a interrupção do sofrimento. O recurso da tecnologia veste a toga de juiz no médico que não sabe ver um sentido purificador de almas quando a dor crucifica ou se torna incontrolável.
Precisamos saber se aliviar o sofrimento físico não precipita um compromisso maior ou se compromete um resgate que estaremos adiando. O homem está acostumado a usar a sua inteligência para fragmentar os seus problemas e com isto poder dominá-los. Hoje, a extensão do nosso conhecimento permite-nos perceber que esta separação “despedaça o complexo do mundo em fragmentos desconjuntados”, fracciona um problema específico, mas cria um dilema gigantesco pela repercussão no todo.
Este modelo de fragmentaçãoea competência tecnológica que ele proporcionou não são suficientes para resolver as contradições do nosso mundo interior. Temos de rever as nossas posições éticas com argumentos que extrapolem os limites e o alcance da ciência. Principalmente, porque nos falta responder àquelas perguntas essenciais que esclareçam quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nos dias de hoje estes dilemas parecem serem inadiáveis.
Os dilemas da ética de hoje empurraram precipitadamente para o aborto que descarta a criança malformada; a eutanásia que apressa a morte pressupondo alívio do sofrimento; a gestação de crianças sem vínculo afectivo com os pais; a manipulação genética que poderá escolher a aparência física; a vida psicossocial do organismo completo, em contraposição à vida biológi- ca de meia dúzia de células embrionárias fecundadas em laboratório.
Parece que não nos damos conta de estarmos a esticar ou a cortar o fio da “teia da vida”. Em 1857 Allan Kardec codificou uma doutrina de bases científicas, filosóficas e religiosas. Entre os seus princípios afirma- -se que a fé tem de se submeter ao critério de racionalidade. Os seus enunciados científicos não se prendem às amarras de uma ciência que só consiga enxergar o mundo material que impressiona os nossos limitados sentidos.
As suas verdades estão sujeitas ao progresso humano que a própria ciência tende a promover. O seu conteúdo foi fornecido por Espíri- tos que acompanham e promovem o desenvolvimento da Humanidade. Eles afirmaram que somos todos almas imortais que ocupamos provisoriamente um corpo físico que nos permite viver experiências que, de simples e ignorantes, nos tornarão sábios e puros de coração. Este processo de evolução faz-se numa série incontável de reencarnações que se processam na Terra e em outros planos da criação divina.
Esta doutrina revela-nos que o aborto destrói a vida biológica e impede a reen- carnação do espírito que habita este corpo desde a fecundação, comprometendo a sua evolução espiritual. A eutanásia adia o resgate e a reparação de débitos contraídos pelo espírito, cujo corpo sofre para possibilitar sua redenção. Isto não significa evitar meios de aliviar a dor ou o sofrimento, mas de impedir que se utilize a morte como recurso terapêutico.
Cada um recebe ao reencarnar o corpo mais adequado às suas necessidades espiri- tuais. A manipulação genética visando os benefícios e as dificuldades que este corpo venha a manifestar são estabelecidas por entidades espirituais que zelam pelo nosso progresso. A evolução do conhecimento humano vai possibilitar que o médico- cientista participe e favoreça as nossas possibilidades físicas, mas jamais nos livrará dos compromissos cármicos que os nossos débitos pretéritos impõem como conta a pagar em nosso próprio benefício.
A nossa vinculação familiar já esteve ligada ao sobrenome ou aos títulos de nobreza. Hoje, está determinada pelos laços matri- moniais ou pela paternidade reconhecida no ADN. As técnicas de reprodução estão desmontando todos estes vínculos físicos, carnais, mas não conseguirão separar-nos dos compromissos que deixámos de cum- prir diante de irmãos de outras vidas, que mais cedo ou mais tarde, cruzarão nosso caminho, atraídos pela vibração que as algemas da culpa ou os laços de amor nos impulsionarem.
Ensinam os Espíritos que a reencarnação tem início no momento da fecundação através de processos complexos que exigem a “regressão” do corpo espiritual do reencarnante, a ordenação do património genético que ele vai receber e a conjun- ção de forças de atracção exercidas pelos futuros pais. Estes instrutores espirituais nos anteciparam premonitoriamente que a fecundaçãoeo desenvolvimento do em- brião pode ocorrer sem a presença de um espírito assumindo este corpo.
Este facto pode permitir-nos imaginar que a fecunda- ção em laboratório ocorre desprovida de um espírito nas suas células e a gravidez só será bem sucedida quando a conjunção de diversos factores ligados a participação de um espírito e a conjunção de vibrações dos pais promoverem a sintonia desta união. Quando Allan Kardec perguntou aos Espíri- tos, qual o nosso maior direito, eles respon- deram que é o direito de viver.
A vida é a maior expressão da criação de Deus. Ainda não temos alcance suficiente para com- preender a extensão da criação divina que expressa vida em tudo que existe. Os Espíri- tos, no entanto, ensinaram que o princípio inteligente deverá percorrer toda jornada de evolução, do átomo ao arcanjo. Texto: Nubor Orlando Facure, médico, di- rector do Instituto do Cérebro de Campi- nas, ex-professor titular de Neurocirurgia da UNICAMP.
