Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde men
Jornal de Espiritismo nº 14 · Janeiro 2006Página 47 min
Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Agora, faça sua(s) pergunta(s) Doenças da 3.ª Idade Alzheimer como exemplo Recebemos as seguintes indagações de uma leitora portuguesa, no dia 27 de Maio do ano passado através de e-mail: “Res- peitado doutor Iso Jorge Teixeira, gostaria de saber o que acontece com o espírito de uma pessoa que se encontra num estado de enorme debilidade como os idosos vítimas das doenças da idade como por exemplo a doença de Alzheimer: não falam, não reagem, não podem sair da cama, quase não têm movimentos, totalmente dependentes de terceiros.
O que o espírito tem a crescer em tal situação? E os seus familiares? Onde fica o seu espírito, mais perto do mundo espiritual ou mais perto do nosso? Porquê tanta dor? Rosa Maria, Santarém Encaminhe a sua pergunta para: Dr. ISO JORGE TEIXEIRA E-mail: isojorge@globo.com Ou pelo correio: Apartado 161 4711 – 910 BRAGAPORTUGAL A pergunta da leitora portuguesa é muito semelhante a que recebemos de uma leitora brasileira, a quem respondemos num artigo publicado na Internet, nos Portais TERRA ESPIRITUAL e PANORAMA ESPÍRITA.
A chamada 3 ª idade, em que se convencio- nou iniciar-se na idade de 65 anos, é muito propícia ao surgimento de doenças dege- nerativas cerebrais e, nestas, o protótipo é a chamada DOENÇA DE ALZHEIMER. Nesta doença, dentre outros sintomas, ocorre exactamente o que descreveu ROSA MARIA, numa fase mais avançada da doença... Definição e anotações sobre a psicopa- tologia da doença de ALZHEIMER O mal de Alzheimer, ou doença de AL- ZHEIMER, é um quadro demencial, ir- reversível, com solapamento progressivo, principalmente, da MEMÓRIA do paciente e de outras funções cognitivas (intelectuais).
É uma doença própria da chamada 3.ª idade, que em geral começa a partir dos 65 anos, mas há vários casos de início precoce, isto é, a partir dos 45 anos. Para entendermos bem as características e evolução dessa doença é preciso tentar explicar o que se denomina LEI DA RE- GRESSÃO MNÊMICA DE RIBOT... Segundo esta, quando uma pessoa apresenta uma alteração mnêmica (da memória) orgânica, primeiramente é comprometida a memória de fixação e memória de curto prazo, ou seja, a pessoa começa a se esquecer de acontecimentos ocorridos mais recente- mente e, com o progredir da doença, a memória para factos mais antigos também será deteriorada.
Outro aspecto da Lei de RIBOT é que as funções psíquicas mais complexas são afectadas, também, mais precocemente do que as funções mais simples. É por isso que, no início da doença de ALZHEIMER, o paci- ente costuma “perder-se” na via pública ou esquecer-se de factos dos mais corriqueiros, pois estando comprometida a memória recente, o paciente fica desorientado no tempo e no espaço; além disso, o paciente costuma apresentar alterações ético-sociais -- o pudor (que é uma função complexa) fica comprometido; consequentemente, não é raro indivíduos bem educados apresentarem sintomas como despir-se na frente de uma multidão de pessoas, não conseguindo ajuizar eticamente a sua conduta.
A propósito, certa vez, tratamos um pa- ciente com doença de ALZHEIMER cujo primeiro sintoma foi urinar em via pública, exibindo a genitália para os transeuntes, no entanto, era alguém com um passado de moral ilibada e muito responsável… Enfim, a doença de ALZHEIMER vai afectan- do, progressivamente, as funções corticais do paciente, pois o que acontece é que há uma ATROFIA DO CÉREBRO do paciente e, por isso mesmo, as funções cognitivas (intelectuais) e até motoras (de movimento) são deterioradas pela doença, irreversivel- mente, porque as células cerebrais não se regeneram, uma vez atrofiadas não são substituídas por outras, íntegras; por isso, diz-se que o tecido cerebral é “tecido nobre”, isto é, as células lesionadas não são substituídas.
Exactamente como a leitora ROSA MARIA afirmou em relação à parte física das pessoas afectadas por esta doença “não falam, não reagem, não podem sair da cama, quase não têm movimentos, totalmente dependentes de terceiros.” A nossa leitora gostaria de saber o que acon- tece com o espírito de uma pessoa que se encontra neste estado... Bem, vamos tentar responder. Visão espírita do mal de Alzheimer Na época do lançamento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS (OLE), de ALLAN KARDEC (1857), não se conhecia a fisiopatologia da doença de ALZHEIMER, por isso, a Codificação não se refere à doença especificamente, porém, podemos extrair algum conhecimento sobre o que acontece com o Espírito da pessoa com essa doença se analisarmos bem a resposta à questão 156 de OLE.
Assim, leiamos a questão 156 de OLE e a primeira parte da resposta: “A separação definitiva entre a alma e o corpo pode verificar-se antes da cessação completa da vida orgânica?”. “Na agonia, às vezes, a alma já deixou o corpo, que nada mais tem do que a vida orgânica (...)”. MORTE CORPORAL E ESPÍRITO O Espírito desliga-se definitivamente do corpo porque este está morto, mas não é o desligamento do Espírito que causa a morte do corpo Parece-nos que as doenças crónicas, especialmente as que prejudicam o funcionamento do cérebro, como é o caso da doença de ALZHEIMER, estando este deteriorado, ele não mais reagiria ao comando do espíritoa vida na doença de ALZHEIMER se resumiria, praticamente, à vida orgânica, vegetativa, “a alma já deixou o corpo”, embora não definitivamente, pois isto só ocorre na desencarnação...
A senhora poderia, talvez, argumentar que um corpo não poderia viver sem alma, o que não seria verdade... O que mantém a vida corporal é o “fluido” vital e não o espíri- to, a vida só se extingue pela exaustão dos órgãos e não pela ausência do espírito (cf. resp. à questão 68 de OLE). É preciso que se repita: o espírito desliga-se definitivamente do corpo porque este está morto, mas não é o desligamento do espírito que causa a morte do corpo...
Obviamente, ainda há uma ligação, muito ténue, entre o espírito e o corpo de uma pessoa com doença de ALZHEIMER, mas o rompimento de tal ligação só não é defini- tivo porque a pessoa ainda não desencar- nou, pois o espírito nada mais tem a fazer estando o cérebro sem NENHUM controlo seu... Sabemos que a alma se desprende do corpo, pouco a pouco, gradativamente, nas doenças orgânicas, crónicas (cf. se depreende da resposta à questão 155-A de OLE) e, num grau avançado da doença, acreditamos que a alma está quase total- mente liberta do corpo.
O que o espírito tem a crescer em tal situação? E os seus familiares? Parece-nos que isto irá depender não só da evolução espiritual da pessoa, como também do estágio evolutivo da doença, da demência. Quando as funções cogniti- vas (intelectuais) estão seriamente compro- metidas, a pessoa nada sente, isto é, não há nenhuma repercussão ESPIRITUAL do que se passa no corpo... Aliás, KARDEC afirmava mais ou menos isto, por outras palavras, quando disse que de nada adianta ser um bom violinista se o violino estiver danifica- do.
Como tocar boa música, nessa situação? Prezados leitores, o grande sofrimento na doença de ALZHEIMER é dos familiares e da sociedade, não é do paciente. É muito duro, às vezes desesperador mesmo, ver um ente querido, um ser humano, desconhecer os seus próprios parentes, não saber pronunci- ar o seu nome (na afasia motora) e, às vezes, nem reconhecer as coisas do ambiente (agnosia) e nem ter coordenação para os mais simples movimentos úteis, como vestir uma roupa (apraxia), certamente, como disse uma nossa leitora, pungentemente, sobre a mãe dela: ”é um sofrimento ver uma pessoa tão dinâmica ir definhando aos nos- sos olhos.
” Aí está: a doença de ALZHEIMER é uma PROVA, extremamente difícil para os famili- ares e exige muita resignação e muito amor e, antes de tudo, a certeza na imortalidade da alma e da sua individualidade após a morte e confiança na Providência Divina e aí está a “vantagem” de ser espírita, se é que assim podemos nos exprimir, porque a doutrina espírita é consoladora justamente porque nos dá essa CERTEZA (através de FACTOS positivos) nas respostas a questões existenciais que todos já fizeram algum dia: por que aqui estamos?
Para onde vamos? Por que sofremos? Enfim, ROSA MARIA, cuidemos muito bem de uma pessoa que se encontra em estado de grande debilidade, “vítima” das “doenças da idade”, embora acreditemos que não seja fácil, mas as dificuldades são postas na nossa vida para crescermos espiritualmente e, quem sabe, se este género de prova não foi solicitado pelo familiar antes de reencar- nar? A nosso ver, não há tanto sofrimento na pessoa com doença de ALZHEIMER, pois, praticamente ele não existe, e aí é que devemos agradecer à Providência Divina: na maioria das vezes o próprio paciente não percebe o seu comprometimento cognitivo, nem se dá conta de que a sua memória está gravemente comprometida.
Se a doente é um espírito com certa eleva- ção, deve estar a sentir-se melhor que o seu familiar, disto temos absoluta certeza, pois estando o espírito dela com uma tal eman- cipação, as coisas terrenas praticamente não a afectariam. A Consolação para os familiares, no caso, é a certeza na imortalidade da alma e de seu aperfeiçoamento nas existências plurais ante provas tão cáusticas... Disse o Mestre JESUS no Sermão do Monte: Bem-aventura- dos os aflitos, porque serão consolados...
