Pedido de Esclarecimento
Jornal de Espiritismo nº 15 · Março 2006Página 44 min
Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Agora, faça sua(s) pergunta(s) Transtorno de déficit da atenção / hiperactividade No dia 27 de Maio de 2005 recebemos o seguinte e-mail, com o assunto PEDIDO DE ESCLARECIMENTO: “Dúvida: Tenho um filho com 8 anos que sofre de hiperactividade. Está sendo acompanhado por uma psiquiatra que lhe receitou ritalina. Será que este problema de hiperactividade é hereditário ou poderá ser provocado pelo facto de ser filho de pais separados?
“Será que tem a ver com algum “carma” de vidas passadas? Também gostaria de saber se não seria melhor levar o meu filho a um centro espírita (embora talvez seja um pouco complicado, pois ele não pára quieto muito tempo no mesmo lugar) para tomar passes e água fluidificada, e talvez a sessões de desobsessão. Será que ele deve con- tinuar a medicação? Tenho lido muita coisa negativa a respeito da Ritalina... Aguardo resposta.
Obrigado.” - CARIBERTO. Respondemos, preliminarmente, ao leitor e ele voltou a escrever-nos, dizendo dentre outras coisas: “Caro Dr. Iso Jorge: Antes de mais muito obrigado por aceitar publicar este tema no Jornal de Espiritismo, (...) Permita-me apenas discordar do seguinte: afirmou que sendo eu passista posso dar passes em minha própria residência. Isso quanto a mim e de acordo com o que aprendi no curso de passes que frequentei é totalmente errado e pode até ser preju- dicial para o “paciente”.
De facto aquilo que aprendi é que o passe somente deve ser dado no centro espírita e sempre no dia e hora em que é habitual. Desculpe se estou errado e mais uma vez muito obrigado pelo seu esclarecimento.” - CARIBERTO – Porto – Portugal. O tema solicitado é extremamente impor- tante, tanto do ponto de vista “médico” quanto do ponto de vista “social” e “espiri- tual”... Prevalência, conceito e possíveis causas do Transtorno Hiperactivo.
Segundo o pediatra Dietrich Schultz o Transtorno Hiperactivo, hoje, “é diagnosticado num número signifi- cativamente maior de pacientes: de acordo com a rigidez dos critérios utilizados, a frequência do diagnóstico pode variar entre 1% e 15%! “. Segundo G. J. BALLONE (2003) “a prevalência do Déficit de Atenção e Hiperactividade está entre 3% e 5% em cri- anças em idade escolar e costuma ser mais comum em meninos do que em meninas.
Em adolescentes de 12 a 14 anos, pode ser encontrado numa prevalência de 5,8%.” Além da frequência relativamente alta, o tema envolve algumas polémicas médicas, principalmente quanto à etiologia, isto é, a(s) causa(s) e, há quase quatro décadas, um autor chegou a dizer, satiricamente, que a disfunção cerebral mínima constituía a “confusão neurológica máxima” (GOMES, A .R. Minimal cerebral dysfunction (maximal neurological confusion) – (Clin.
Ped. 6:589, 1967). Hoje, parafraseando este autor, dire- mos nós: A DISFUNÇÃO CEREBRAL MÍNIMA É A IGNORÂNCIA NEUROLÓGICA MÁXIMA; porque, desconhece-se DETALHES das causas. Em consequência, várias denominações foram propostas para o distúrbio e hoje a expressão “disfunção cerebral mínima” não é mais usada. Disfunção cerebral mínima? Lesão cerebral mínima? Transtorno de dé- ficit de atenção / hiperactividade (TDAH) ou Transtorno hipercinético (TH)?
O Manual de Diagnóstico e Estatística (DSM) da Associa- ção Psiquiátrica Americana (APA), em sua 4ª edição, o DSM-IV de 1994, vigente, de- nominou o transtorno como Transtorno de déficit de atenção / hiperactividade (TDAH). A Classificação Internacional de Doenças e do Comportamento, da Organização Mun- dial de Saúde, na sua 10ª. Edição, a CID – 10, classificou-o como Transtorno Hipercinético (TH). Quadro clínico do TDAH ou TC.
O DSM-IV assim caracteriza o “Transtorno de Déficit de Atenção / Hiperactividade”, em dois grupos: (1) INATENÇÃO: Pelo menos seis sintomas de inatenção devem persistir pelo menos por 6 meses em grau desadaptativo e inconsistente com o nível de desenvolvi- mento; (2)- HIPERACTIVIDADEIMPUL- SIVIDADE: Pelo menos seis sintomas de hiperactividade e impulsividade devem persistir por pelo menos 6 meses, em grau desadaptativo ou inconsistente com o nível de desenvolvimento da criança.
Os sintomas devem estar presentes antes dos 7 anos de idade. Enfim, são crianças extremamente inqui- etas, com atenção dispersa e impulsivas, e o diagnóstico baseia-se, a nosso ver, no exagero do componente psicomotor e por isso, concordamos com a CID-10, quando denomina o distúrbio como “Transtorno Hipercinético” (TH). Além disso, o paciente com transtorno hipercinético apresenta, frequentemente, alterações no electroencefalograma (EEG), embora não seja a regra.
Para complicar ainda mais o problema, muitas vezes, o TH se associa com “deficiência mental”, “epilep- sia” e até com “autismo infantil” - o caso do filho do sr. CARIBERTO parece NÃO apresen- tar associação com outros distúrbios... Aspectos Fisiopatológicos do TH – O factor “genético”. O TH caracteriza-se, a nosso ver, fundamentalmente, por uma alteração funcional do cérebro como um todo, há uma “excitação” da “formação reticular”, uma região do cérebro responsável pelo despertar, pela “vigília” (ver ESQUEMA DO ENCÉFALO).
Isso pode ser comprovado por alterações electroencefalográficas frequen- tes nestes pacientes; muitos, além da dis- função, são epilépticos, isto é, apresentam alterações electroencefalográficas especí- ficas, enquanto que o TH revela alterações inespecíficas, frequentemente ondas sharp, que são ondas reveladoras de sofrimento cerebral. Enfim, não há dúvida de que o TH é um quadro predominantemente orgâni- co-cerebral, físico...
Estudos recentes sugerem que no Transtor- no Hipercinético (TH) haja uma transmissão “genética” da doença, embora não se saiba precisamente como. Um estudo realizado na Colômbia (cf. MAURICIO ARCOS – BUR- GOS. “Discriminación de factores geneticos en el déficit de atención (DDA)”, in site da Internet, 29/01/00, op. cit.) concluiu que “existe um gene maior que explica mais de 99,9% da variância do genótipo DDA” e que este gene é de “características dominantes e co-dominantes e tem uma penetrância de 30%.
