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Opinião Tem cuidado do seu burrinho?

Jornal de Espiritismo nº 16 · Maio 2006Página 73 min

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Um dia, já há alguns anos, ouvi Divaldo Franco contar uma breve história que, talvez pelo contexto em que esteve inserida, me marcou e fixei. foto loucomotiv Disse ele: «A determinada altura da vida, Francisco de Assis, muito dedicado à natureza e aos animais, passou a descuidar um pouco o seu próprio corpo; aligeirava as refeições, dormia pouco, enfim…esquecia- -se de si. Mas, Francisco tinha um amigo que um dia lhe disse: - Sabe, eu ando preocupado com uma pes- soa que conheço.

Francisco quis saber o motivo de tal preo- cupação, pelo que o outro continuou: - Ele tem um burrinho, velho, alquebrado, quase cego; acontece que o martiriza, esquece-se dele, não o alimenta a horas certas, não lhe cuida das feridas e o burrinho sofre! Francisco pediu-lhe então que trouxesse até ali o dono do burro pois gostaria de o alertar para a injustiça que praticava e o mal que dali poderia advir se não mudasse de atitude.

Então o amigo concluiu: - Pois é, mas a verdade é que o amigo de que falei é o senhor…quanto ao burrinho, é o seu próprio corpo que vejo quase esque- cido de cuidados…!». Guardei a história. Há pouco tempo, precisei de cuidados de enfermagem no Posto Médico da minha freguesia, lugar sossegado, de gente simples. Um dia em que não havia médico e estava sozinha no Posto com a enfermeira, ela descobriu que havia algo no fundo da ferida que precisaria ser retirado com pinça… mas podia doer…; animei-a – afinal não estávamos assim tão sozinhas, estavam pelo menos, quatro pessoas: eu, ela e os nossos guias.

Ela ficou a olhar, decididamente não estava à espera de tamanho «descaramento»… Aproveitei o impasse para lhe ir dizendo que tenho muita confiança no meu guia espiritual e que, portanto, era para avançar, porque ele sabe que eu preciso do meu corpo. Novo impacto vibratório! E avancei, aproveitando, mais uma vez, a aragem que soprava. - A senhora enfermeira sabe a história do burrinho de Francisco de Assis? Não sabia (ora ainda bem!)

Contei-lha; ela sorriu; não sei o que pensou, mas imagino! Saí do Posto onde a enfermeira ficou só, para arrumar material, suponho, e fechar a porta. Era sexta-feira. Nessa noite a palestra no centro espírita em que colaboro era da minha responsabilidade. Ao meu lado um companheiro de trabalho que, de vez em quando tomava notas (muitas vezes acontece – algo que é preciso corrigir ou melhorar, tom de voz, etc.) As mulheres são curiosas, a gente sabe, e, no final da palestra, que não tinha nada a ver com «burros», sempre abrimos um es- paço para perguntas e respostas.

Logo que pude passei ao meu colega de mesa a resposta a uma pergunta e, sorrateiramente, deitei o rabo do olho aos rabiscos que ele tinha na frente, um deles dizia assim: - Mãe, não te esqueças de cuidar bem do teu «burrinho». Hélder Fiquei parada; desta vez a aragem atingiu- -me a mim! Eu nunca tinha contado a história do burrinho a ninguém no centro, muito menos o que se passara naquela manhã; perguntara na altura a Divaldo Franco se estaria narrada em algum livro; resposta negativa!

Perguntei ao médium porque escrevera aquilo? Ele disse que não tinha ideia, ia perguntar-me se eu sabia o que significava tal coisa pois lhe parecera a despropósito… ( a mim, não). O Hélder, meu filho, faleceu há cerca de oito anos, tinha 21; era um jovem alegre que deixou traçada no coração da mãe a rota que a levou à doutrina espírita. Afinal, naquela manhã, no Posto Médico da aldeia, a mais de 15 quilómetros dali, havia mais alguém do que os guias de uma mãe espírita e de uma doce enfermeira que teve a paciência de a ouvir.

Texto: Amélia Reisamélia.v.reis@gmail.