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Opinião A respeito dos valores da liberdade Ao desprezar a divina mora

Jornal de Espiritismo nº 16 · Maio 2006Página 85 min

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Opinião A respeito dos valores da liberdade Ao desprezar a divina moral do Amigo de Nazaré, a nova sociedade advoga-se em autora do seu próprio destino, ao mesmo tempo que se desdobra em preocupantes interroga- ções que não concorrem para o progressivo desenvolvimento espiritual a que a consciência humana deve aspirar. foto loucomotiv PUBLICIDADE PUBLICIDADE Em 25 de Abril de 1974, um punhado de militares derrubou o regime conservador e ditatorial que durante 48 anos orientou os passos do povo português.

Volvidos 32 anos sobre a Revolução dos Cravos, as transformações são visíveis, porém, importa estar atento aos inconformados. Quem consulta a página da Associação 25 de Abril toma conhecimento das palavras do presidente da Direcção, general Vasco Lourenço, acerca do papel das Forças Arma- das como “corpos” organizados e vocaciona- dos para o controlo da legalidade e defesa dos direitos dos cidadãos, podendo ainda ser “um elemento libertador dos povos”.

Ainda nesse sítio da Internet e relativa- mente à declaração de promoção do 1º. Congresso da Democracia Portuguesa, datada de 2 de Fevereiro de 2004, aquela associação enumera as melhorias opera- das em Portugal, passados 30 anos sobre a Revolução – o “tempo de uma geração” – tendo em conta o “documento fundador do estado democrático”, o «Programa “dos três D” do MFA (Democracia, Desenvolvi- mento e Descolonização)».

Em contraparti- da, alega que “muito estará ainda por fazer” e que, entre outras questões, “faltará por certo saber para onde vamos”. Como pequena ajuda a esta incerteza que, apesar de respeitar ao ano de 2004 ainda permanece actual, diremos que, queira- mos ou não, o mundo está em constante progresso. A Natureza evolui sempre, o que nos obriga a repetida auto-observação dos valores, das ideias e das crenças que alimentamos.

Mesmo optando por ficar num “casulo”, a vida impulsionar-nos-á de forma invariável e natural para a frente, para o encontro com a perfeição. Entretanto, é bom que sejam revistos alguns tópicos que caracterizam uma das mais importantes ca- pacidades humanas: a liberdade. Mas, para que esta delicada “flor” cresça e floresça abundantemente, não se olvide a premên- cia de a atender e educar com a maior atenção, tendo presente que o estado de liberdade do sujeito é proporcional ao grau de amadurecimento espiritual já alcançado.

Fases de maturidade Ao longo do seu percurso, o ser humano calcorreia estágios diversos ao encontro da estrutura psicológica adequada à batalha que trava constantemente na percepção das realizações que o seu livre-arbítrio vai traçando. Como qualquer recém-nascido, ele deverá aprender através de palavras e, sobretudo, de exemplos a entender a moral como “arte” de usar bem da liberdade ou, melhor dizendo, como arte de educar a liberdade.

A formação moral trará não só os conhecimentos necessários, mas também os costumes, os hábitos e as regras que lhe permitem viver bem, mas sob o condicio- nalismo de que todos necessitamos “uns dos outros, os pequenos como os grandes”, como nos dizem os espíritos superiores na resposta à questão 825, de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec. Evidentemente que a moral pressupõe preceitos que entendemos como negativos: “Não faças …”, mas também preceitos positivos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, o grande horizonte da existência humana.

Ao deixar o escalão de criança ima- tura, os condicionalismos impostos pela Moral, como por exemplo a liberdade sob condições, passam a fazer parte das “regras do jogo” da vida sobre a Terra, através da voz da consciência. Todos sabemos que as obrigações não são apetecíveis, pelo menos no início e que exigem decidir entre o dever (de fora) e o gosto (de dentro), a fim de encontrar o equilíbrio da balança indicadora do clima de paz social, mas as escolhas são momentos da existência em que nos confrontamos com o bem e o mal.

À hora de escolher são postas à prova as nossas ânsias de plenitude para um pro- jecto de amor onde, dilatada a capacidade de conhecimento dos princípios morais, o bem e o dever se confundem, em grande beleza e fortaleza de carácter. Se não educarmos a liberdade, fazendo ouvir a voz dos deveres que ressoa das consciências límpidas, não saberemos exercitá-la em prol do país que somos e da família cósmica a que pertencemos.

Neste combate criam-se vínculos de conduta muito fortes que destroem barreiras e modificam a nossa existência. Sabemos que a Parábola dos Talentos, pro- ferida por Jesus, preconiza que cada indi- víduo tem os seus condicionalismos e, por conseguinte, graus de liberdade diferentes, mas é bom reter o facto de que “a liberdade de consciência é uma das características da verdadeira civilização e do progresso”, conforme a resposta à questão 837, do livro da Codificação já referenciado.

Egoísmo, orgulho, vaidade, inveja, preguiça e tantas outras paixões humanas abrem profundas brechas no uso da liberdade como recurso inteligente e força divina, necessitando o homem do hábito de impor a si próprio medidas justas, de natureza ra- cional e equilibrada. Este costume disciplina os sentimentos e protege a liberdade. Evidências a considerar A nossa liberdade não é absoluta. Senão, vejamos. Quando reencarnámos, o planeta já existia, com as suas leis e com os diversi- ficados seres que o habitavam.

Não somos os donos deste espaço cósmico que o Criador nos vai cedendo. Somos limitados pela própria Natureza. Chegámos à Terra “na condição de um peregrino necessitado de aconchego e socorro”, como nos lembra Emmanuel (Espírito), através da psicografia de Francisco Cândido Xavier. Não podemos voar, como os pássaros, ou nadar nas profundezas do mar, como os peixes, sem apetrechos auxiliares. Temos ainda limita- ções particulares como o tempo demar- cado de cada encarnação, as circunstân- cias de origem, cidade, família, colegas e vizinhos, um imenso campo para exercitar a nossa liberdade e criar costumes que dêem um estilo nobre à nossa vida.

Sem demagogias e atendendo às questões 843 e 844 de «O Livro dos Espíritos», já citado, a criatura humana “tem a liberdade de pensar, tem a de agir” desde que “haja liberdade de fazer”, mas ponderando não invadir o “território” do seu semelhante. O país não carecerá de outros ritmos que não sejam os da prudência e da sensatez no controlo das paixões desenfreadas que podem aproximar os seus habitantes da “natureza animal”, afastando-os da “natureza espiritual”.

E interiorizar que a Moral é o fio condutor de uma segurança sem fronteiras onde a “cela do ego”, as pálidas honrarias e os sucessos efémeros não coabitam com a legitimidade de escolher decisões, palavras ou actos que não ultrapassem os direitos do próprio ou os dos outros.