Entrevista Humberto Vasconcelos: livro sobre Peixotinho O professor Hu
Jornal de Espiritismo nº 16 · Maio 2006Página 97 min
Entrevista Humberto Vasconcelos: livro sobre Peixotinho O professor Humberto Vasconcelos* define-se nas suas próprias palavras como pai de seis filhos, avô de 13 netos, marido de uma resignada mulher que o tolera há perto de 46 anos. Quem o ouvisse falar … Como nasceu a ideia de escrever um livro sobre Peixotinho? H. V. – A ideia brotou da necessidade de apresentar à comunidade espírita brasileira e ao movimento espírita de forma geral o mais primoroso empreendimento do médium: o de ter-se construído espírita e cristão, por sua imensa capacidade de su- perar-se, de exercitar uma humildade quase santa, de construir sua vida dentro de um modelo de simplicidade e dedicação digno de converter-se em exemplo para todos nós.
Isto, mais do que ter sido portador de dons mediúnicos atípicos, que excediam os formatos documentados na literatura especializada, funcionou como motivação maior para o livro. Como seu genro, tive o ensejo de conviver com o médium, de sorte que os testemunhos que fiz constar da obra foram todos, de certa forma, confirmados pelos anos de relacionamento directo com o próprio médium, sua mulher Baby, seus filhos e um número expressivo de amigos e companheiros espíritas, que ele coleccio- nou ao longo de sua curta vida.
O centenário do grande médium está sendo comemorado de que forma? H. V. – O nosso intento era o de simples- mente converter o ano de 2005 no Ano do Centenário de Peixotinho no âmbito exclu- sivo da casa espírita que leva seu nome, a Fraternidade Espírita Francisco Peixoto Lins (Peixotinho), localizada na cidade do Recife e hoje presidida por um de seus netos, André Luís Peixoto e Vasconcelos. Mas o movimento ganhou o Brasil.
Logo logo chegou ao conhecimento da comunidade espírita do Estado do Ceará, onde nasceu o médium, e se expandiu pelo Brasil afora: Macaé, onde os fenómenos começaram a ser regularmente produzidos, a cidade do Rio de Janeiro, onde trabalhou o médium por muitos anos e assim em quase todo o país. Hoje, podemos relacionar cerca de 60 eventos, entre palestras, seminários, grupos de estudos, realizados em diversas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo, Pernambuco e Ceará.
As comemorações do centenário não se expandiram mais por falta de condições de atendermos a uma agenda mais intensa. No principal evento do Recife, instalamos o Memorial Peixotinho, anexo ao Centro de Documentação Espírita de Pernambuco, que se converterá em mais um centro de estudos e documentação da doutrina espírita entre nós. O facto de ser genro desse gigante da mediunidade tem sido importante na sua vida? H. V.
– Sem dúvida, por vários aspectos. Em primeiro lugar pela responsabilidade que esta condição acarreta (muito se pedirá a quem muito recebeu). Na educação dos nossos filhos, esse parentesco sempre foi mencionado, para que também eles sen- tissem o peso da herança e pudessem tudo fazer para honrá-la. Hoje tenho a felicidade de ver os netos já de certa forma impregnados deste mesmo sentido: o bisavô não é um retrato na parede ou numa galeria de notáveis, mas um exemplo a ser seguido.
Os aspectos secundários decorrem desse principal: o conhecimento, o teste- munho, o dever. Considerando o tríplice aspecto da doutrina espírita, qual o ramo que mais interesse lhe desperta? H. V. – Como se pode perceber de meu tumultuado currículo, tenho formação hu- manística. Minhas incursões universitárias deram-se na área de Letras e de Direito, em- bora me tenha profissionalizado apenas na primeira. A segunda serviu-me apenas para legitimar minhas acções como servidor do Poder Judiciário.
Logo, o aspecto científico da Doutrina, mais ligado às ciências exactas, ainda que muito interesse me desperte, não poderia constituir minha principal opção. Sou fascinado pelo aspecto filosófico e pelo religioso. Como professor de uma disciplina intitulada Literatura Universal, começava minha incursão no mundo da Literatura pela Bíblia, com ênfase naturalmente no Evangelho de Jesus. Era jubiloso para mim revelar aos jovens estudantes os primores do Evangelho, aplicando aos textos as téc- nicas de interpretação que eles utilizavam na construção do conhecimento das obras literárias mais importantes já produzidas pelo génio humano.
Em todos eles espero ter deixado uma sementinha que há de ter fortalecido sua fé e adornado sua perso- nalidade como homens de bem. Há coisa melhor? A criação da Fraternidade Espírita Pei- xotinho nasceu como homenagem ao médium ou pela necessidade de mais um espaço de divulgação da doutrina e atendimento aos necessitados? H. V. – A Fraternidade foi uma extensão de nosso Culto Evangélico no Lar. Nas ime- diações da nossa casa, no Bairro da Boa Viagem, no Recife, não havia casas espíritas e muitos amigos passaram a frequentar o nosso culto doméstico, que foi, por assim dizer, institucionalizado na hoje Fraterni- dade Peixotinho.
Construída sob a égide de Peixotinho, não poderia deixar de ser um pouso para os necessitados, como, aliás, sempre foi o lar do médium, quanto encarnado, sob a batuta de sua Baby, mãe de seus filhos e guardiã intimorata de sua acção mediúnica. Criou também uma gráfica, isso também fez parte da necessidade de expansão da Doutrina? H. V. – Nossa Editora (DOXA EDITORA E SERVIÇOS CULTURAIS) é um dos resultados de minha bibliofilia.
Confesso que nela pensei como um braço da Fraternidade, com a esperança de que viesse a contribuir para a manutenção dos serviços sociais que empreendemos junto à população carente que se aglomera em habitações improvisadas no entorno da instituição. No Peixotinho (como é conhecida a Fraterni- dade), temos assistência alimentar diária, assistência médica, assistência escolar, cursos profissionalizantes, iniciação musical, além, naturalmente, das acções inerentes a um núcleo de actividades espiritistas.
Não contamos com subvenções oficiais e de certa forma até fugimos disso, para que seja preservada a nossa imprescindível autono- mia. Mas devo confessar que até hoje muito modesta, quase nula, tem sido a ajuda financeira da DOXA ao Peixotinho. Fazer li- vros é coisa cara; vender livros é coisa difícil; vender livros espíritas a espíritas, ao menos entre nós, mais difícil ainda. Não temos a pretensão de concorrer com as editoras mais consolidadas.
A nossa casa espírita divulga de forma intensa a literatura produ- zida pela Federação Espírita Brasileira, com ênfase nas obras da codificação e aquelas que decorreram da notável contribuição de Chico Xavier; e de outras editoras do porte da Alvorada, dirigida pelo nosso Divaldo Franco. À DOXA cabe um papel suplemen- tar, procurando aproveitar a contribuição que de nenhuma forma poderia interessar a esses empreendimentos maiores.
Quando pensa visitar Portugal como palestrante? H. V. – Tenho um grande débito com Portu- gal. Audaciosamente, fiz incursões profun- das na alma portuguesa, dedicando-me ao cultivo da língua e da cultura lusitana: Camões e todos os quinhentistas; Bernardes e Vieira e todos os principais seiscentistas; os neoclássicos do século XVIII, os românti- cos do século XIX e a retumbante geração capitaneada por Eça, Ramalho Ortigão, o notabilíssimo Antero de Quental, até o nosso Fernando Pessoa.
Mas não conheço o território português. Aliás, não sou um bom viajante. Prefiro “viajar” na minha biblioteca. A minha aventura europeia deu-se em breve curso que frequentei em Paris e, na oportunidade, evitei estender a minha via- gem a Portugal, porque teria de fazê-lo por tempo muito curto. Hoje, dispensado de compromissos oficiais ligados à profissão, mais entregue aos labores da editora e do movimento espírita, projecto para breve uma estada em Portugal.
Veja que me refiro a uma estada, não simples passagem. Aí, então, espero ser tolerado entre os irmãos portugueses por alguns meses, pro- vavelmente. Se me concederem brechas, estarei nas casas espíritas oferecendo meu modesto testemunho de beneficiário dessa extraordinária doutrina. Quer deixar uma mensagem aos leitores do «Jornal do Espiritismo»? H. V. – Sinto-me compelido a plagiar Pes- soa: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”.
Pessoa desbravou novos horizon- tes, concedendo em ampliar os horizontes da língua portuguesa para muito além da Taprobana, indicada como extremo oriental da aventura expansionista do século XVI. Pessoa aventurou-se pelo território da alma, talvez ensinando ao mundo que há uma expansão a ser trabalhada por todos nós, na dimensão do espírito. O Espiritismo nos conduz a essa dimensão. Vale a pena insistir. Os avanços mais visíveis são pequenos, mas, assim mesmo, são compensadores.
Portugal tem uma contribuição nova a ofe- recer à velha Europa académica, esmagada pelos dogmatismos da “ciência oficial” e da “religião dominante”. Afinal, não é à toa que se é porto e porta, cais de Europa, por onde se entra e por onde se sai. * Dividiu sua actividade profissional em três áreas: a educação – conseguindo escalar alguns degraus chegou a professor univer- sitário; foi secretário de Educação e Cultura da cidade do Recife e secretário-adjunto de Educação e Cultura do Estado de Pernam- buco; membro do Conselho Estadual de Educação de Pernambuco; professor de diversos cursos superiores e médios, na área da Língua e Literatura Portuguesa, Teoria da ComunicaçãoeLíngua Latina.
A sua outra área de actuação foi a da comunicação, tendo chegado a director do Núcleo de TelevisãoeRádio da Universidade Federal de Pernambuco, do Departamento de Tele- comunicações de Pernambuco e da Tele- visão Tropical, emissora estatal de televisão. Foi provisionado como jornalista. A terceira faceta profissional foi na área do Poder Ju- diciário Federal, tendo feito carreira na área administrativa de dois Tribunais Federais: o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco, do qual chegou a ser assessor da Presidên- cia e director-geral e o Tribunal Regional Federal da 5.
ª Região, onde ocupou uma Di- rectoria de Divisão. Foi professor de Direito Eleitoral na Escola Superior de Magistratura de Pernambuco.
