Opinião Terá o profeta razão?
Jornal de Espiritismo nº 16 · Maio 2006Página 129 min
Em Outubro de 1935, Edgar Cayce, conhecido como “o profeta adormecido”, teve uma revelação. Em sonhos, ele viu como os sobreviventes da Atlântida construíram, no Egipto, o complexo de Gizé, com as suas pirâmides e a Esfinge, para criarem, ali, uma grande biblioteca que guardasse todos os seus conhecimentos, receando que o passar do tempo apagasse a sua fabulosa cultura. Ele afirmou: “Será descoberta uma sala antiga com documentos históricos no lugar onde a linha da sombra e da luz cai entre as patas da Esfinge” (1).
A Esfinge, a que os egípcios chamavam hor em aket, “o horizonte de Horus”, um vigilante leão com a cabeça de homem, é a maior e a mais famosa estátua do mundo antigo. Ela está situada junto às descomu- nais pirâmides, e a sua aparente simpli- cidade continua a ocultar uma série de segredos por esclarecer. Os egiptólogos mais ortodoxos atribuem a sua paternidade ao faraó Quéfren (que governou o Egipto entre 2520 a 2494 a.
C. e que também mandou construir a segunda maior pirâmide de Gizé). Contudo, as provas ainda não são absolutamente conclusivas. Ao contrário do que seria expectável, encontram-se, ao longo do tempo, muito poucas referências à Esfinge. Nem no Antigo nem no Médio Império ela é re- ferenciada. O primeiro texto que a refere é uma estela erigida por Tutmósis IV no ano de 1410 a.C. e que se encontra nas patas dianteiras do monumento.
Dois séculos depois, aparece uma inscrição de Ramsés II (também junto à parte dianteira do monu- mento), demonstrando que nessa época a estátua era bem cuidada e que tinha um grande valor, tanto religioso como ritual. Heródoto(2) nem sequer a menciona nas suas descrições do Egipto, do que se pode deduzir que a estátua já estaria esquecida ou enterrada nas areias do deserto (o que aconteceu recorrentemente). Os romanos levantaram ao seu redor um pequeno muro para resguardá-la dos ventos do Sara.
Em 333 d.C. a religião cristã tornou-se na única permitida no Egipto. A partir daí, são aban- donados, ou destruídos, todos os templos e reminiscências dos cultos pagãos. (p.108) No princípio da década de 1990, Toma Dobecki, um sismólogo da Universidade de Houston, chegou ao Egipto a pedido do investigador John Anthony West. Depois de realizar uma série de testes à Esfinge, comprovou que a sua construção foi realizada em várias etapas (como já o havia demonstrado o geólogo Robert Schoch, da Universidade de Boston).
O seu estudo comprovou que sob a enigmática estátua existiam vários túneis ainda por escavar, além de uma grande sala rectangular que se encontra por debaixo das patas da Esfinge. Pablo de Jevenois(3), investigador e dip- lomata, escreveu que, numa reunião em que esteve presente, em 1988, na Casa de Chicago, no Cairo, o arqueólogo Zahi Ha- wass, o actual secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades, contou que, numa tarde em que trabalhava à volta da Esfinge, um dos trabalhadores se aproxi- mou, dizendo-lhe que não queria morrer sem antes revelar-lhe uma entrada oculta que levava ao interior da Esfinge.
O homem contou-lhe que, na sua infância, era hábito acompanhar, muitas vezes, o avô até à estátua. Do alto da estátua para onde subia, observava o avô procurando uma pedra que só ele conhecia. Hawass já tinha inspeccionado a Esfinge de 1977 a 1978 e durante todos os meses precedentes daquele mesmo ano, sem ter encontrado nada de especial. Seguiu o fellah (trabalhador) até à parte traseira da Esfinge. Depois de procurar, apareceu uma pedra móvel.
Retirou-a, encontrando uma abertura quadrada que dava acesso a uma passagem que desaparecia no interior da imensa estátua. Ali encontraram uma sandália de criança. No centro da enorme massa de pedra, a passagem curvava-se formando um poço. A partir dali era impos- sível avançar devido à inundação pela água freática. Esta descoberta passou quase desper- cebida, apesar de dar razão a Auguste Mariette que procurou salas subterrâneas por debaixo da Esfinge, crendo tê-las visto gravadas numa grande estela de Tutmósis IV, quando escreveu: “É muito possível que nalguma parte do ventre deste monstro exista uma cripta, gruta ou capela subter- rânea, talvez uma tumba.
” Mais tarde sir Gaston Maspero também procurou uma câmara subterrânea e uma passagem que a uniria à Grande Pirâmide. Terá o profeta razão? Encontram-se nas obras espíritas algumas referências que dêem suporte documental a esta revelação? O Espírito Emmanuel, pela psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, no livro “A Caminho da Luz”, confirma, baseado no que “rezam as tradições do mundo es- piritual”, que “os egípcios traziam consigo uma ciência que a evolução da época não comportava”.
Escreve ele: “Aqueles grandes mestres da antiguidade foram, então, compelidos a recolher o acervo de suas tradições e de suas lembranças no ambi- ente reservado dos templos, mediante os mais terríveis compromissos dos iniciados nos seus mistérios. Os conhecimentos profundos ficaram circunscritos ao círculo dos mais graduados sacerdotes da época, observando-se o máximo cuidado no pro- blema da iniciação. (…) Os sábios egípcios conheciam perfeitamente a inoportuni- dade das grandes revelações espirituais naquela fase do progresso terrestre (…).
” (4) Adiante Emmanuel escreve: “Aquelas almas exiladas [de Capela], que as mais interes- santes características espirituais singula- rizam, conheceram, em tempo, que o seu degredo na Terra atingia o fim. Impulsion- ados pelas forças do Alto, os círculos iniciáti- cos sugerem a construção das grandes pirâmides, que ficariam como a sua mensa- gem eterna para as futuras civilizações do orbe. Esses grandiosos monumentos teriam duas finalidades simultâneas: re- presentariam os mais sagrados templos de estudo e iniciação, ao mesmo tempo que constituiriam, para os pósteros, um livro do passado, com as mais singulares profecias em face das obscuridades do porvir.
(…) As pirâmides revelam os mais extraordinários conhecimentos daquele conjunto de Espíri- tos estudiosos das verdades da Vida. A par desses conhecimentos, encontram-se ali os roteiros futuros da Humanidade terrestre.” (5) Ora, o profeta refere objectivamente que “será encontrada uma sala com documen- tos históricos”. Pensamos que ele não se refere especificamente às “revelações espiri- tuais” acima enunciadas por Emmanuel.
A existirem documentos, serão, certamente, supomos nós, registos referentes à história do Egipto (ou da humanidade) que se sabe, por várias fontes, terem realmente existido nos templos. Contudo, à luz do que afirma o Espírito Emmanuel, a visão do profeta parece conter uma incorrecção. Ele afirma que “os con- strutores do complexo de Gize, com as suas pirâmides e a Esfinge, eram os sobreviven- tes da Atlântida”. Ora, Emmanuel escreve que os espíritos exilados de Capela “em sua maioria, esta- beleceram-se na Ásia [mais precisamente na região do Pamir], de onde atravessaram o istmo do Suez para a África, encami- nhando-se igualmente para a longínqua Atlântida, de que várias regiões da América guardam assinalados vestígios” (6).
Escreve adiante: “Entre as raças negra e amarela, bem como entre os grandes agrupamentos primitivos da Lemúria, da Atlântida e de outras regiões que ficaram imprecisas no acervo de conhecimentos dos povos, os exilados da Capela trabalharam proficua- mente (…)” (7). Parece ser bastante claro que esta migra- ção em particular, no passado longínquo, se deu no sentido da Ásia para a Atlântida e não ao inverso, como a visão do profeta sugere.
Além disso, Emmanuel considera que “dentre os Espíritos degredados na Terra, os que constituíram a civilização egípcia foram os que mais se destacaram na prática do Bem e no culto da Verdade” (8). Eles, sim, “traziam consigo uma ciência que a evolução da época não comportava” e, conhecendo atempadamente o fim do seu degredo, trabalharam para deixar uma mensagem aos futuros. Assim, o que parece mais provável e mais lógico, à luz deste raciocínio, é que os egípcios tenham tido, certamente, co- nhecimento das mutações geológicas que determinaram o fim da Atlântida.
Esse facto terá coincidido, pensamos nós, com a descrição que Emmanuel faz adiante quando escreve: “(…) novos fenómenos geológicos abalam a vida do globo. (…) E dessas convulsões físicas do orbe surgem renovações que definem o Mediterrâneo e o Mar do Norte, fixando-se os limites da acção daqueles núcleos de operários da evolução colectiva” (9). É provável, sim, que alguns sobreviventes da Atlântida tenham alcançado o Egipto.
Esse parece ser também o sentido da mais antiga referência ao “mito” da Atlântida e que está registado nas obras “Timeu” e “Crítias” de Platão. Segundo esses diálogos, um dos homens mais sábios da Grécia, Sólon, teria viajado ao Egipto. Na cidade de Saís, no delta do rio Nilo, terá contactado com os sábios sacerdotes egípcios. A propósito do nascimento da Grécia, Sólon terá ouvido uma história extraordinária de que os gregos haviam sido os protagonistas e que teria acontecido, segundo os registos guardados nos templos egípcios, 9000 anos antestempo consideravelmente distante para a jovem “ciência” dos gregos.
Perante a surpresa de Sólon, o velho sacerdote ter- -lhe-á dito: “Foi na nossa terra que se con- servaram as mais antigas tradições [relativas à ciência do passado]. (…) Tudo o que se faz de belo, grande ou notável, quer na tua terra como aqui, ou noutro país de que ou- vimos falar, encontra-se aqui registado por escrito nos nossos templos desde tempos imemoriais, e assim se conservou” (10). Nessa história, os gregos, em inferioridade numérica, apesar da defecção de muitos dos seus aliados, pela sua coragem, terão vencido o formidável poder da Atlântida, mantendo a liberdade de todos os po- vos do Mediterrâneo.
“Mas nos tempos seguintes, houve tremores de terra e inundações extraordinárias e, no espaço de um dia e de uma noite nefastos, todos os vossos combatentes foram tragados de uma só vez pela terra, e a Ilha Atlântida, também desapareceu mergulhando nas águas” (11). Não é pois provável que os sobreviventes desta catástrofe (trata-se do colapso súbito e dramático de toda uma civilização) tivessem as condições necessárias (respeitando a cronologia) para erguer as pirâmides cerca de seis mil anos depois.
É também o que depreendemos da leitura de Emmanuel. Excluída a hipótese atlante, lembramos que houve, de facto, registos escritos, muito pre- cisos e minuciosos, à guarda dos sacerdotes nos templos. Lembramos, por exemplo, que Mâneton, escrivão da corte e sacerdote, no reinado de Ptolomeu II Filadelfo (c. 280 a.C.) compilou uma história do próprio país, denominada Aegytiaca, recorrendo aos arquivos dos templos, que chegou até nós através de alguns fragmentos citados por outros escritores (12).
Nessa lista das dinastias do Egipto ele abarca um espaço entre 5178 a 5329 anos, o que, apesar das prováveis incorrecções, é de facto notável. Com a decadência da civilização egípcia e o passar do tempo, muitos documentos preciosos perderam-se para sempre. Terão alguns desses documentos históricos ficado ocultos, à guarda da Esfinge, esperando a oportunidade de serem redescobertos um dia? Só o futuro nos poderá dizer se o profeta tinha ou não razão.
Texto: Reinaldo Barros 1. VALLEJO, Juan Jesús. SEGREDOS DO EGITO. Capítulo sétimo: “A esfinge, o leão adormecido”. Universo dos Livros, São Paulo. 1ª Edição. 2002. 2. HERÓDOTOHistoriador grego (Halicarnasso, c. 484 a.C. – Túrios, c. 420 a.C.) Efectuou grandes viagens na Ásia, África e Europa. Em Atenas foi grande amigo de Péricles e Sófocles. As suas Histórias, a principal fonte para o estudo das guerras médicas, põem em realce a oposição entre o mundo bárbaro (Egípcios, Medos e Per- sas) e a civilização grega.
In: Nova Enciclopédia Larousse. Ed. Círculo de Leitores. Vol. 12. 1998. 3. Confira com o texto de Pablo de Juvenois (dip- lomata, investigador e membro da The Egyptian Society of South Africa) “O Enigma de Kéops”, publicado na revista espanhola “La Aventura de la Historia” n.º 83, de Setembro de 2005. 4. XAVIER, Francisco Cândido. A CAMINHO DA LUZ, pelo Espírito Emmanuel. Edição da Federação Espírita Brasileira. Brasil.
1980. 10ª Edição. Pág. 42 – 43. 5. Op. Cit. Pág. 46 – 47. 6. Op. cit. pág. 37. 7. Op. cit. pág. 40. 8. Op. cit. pág. 41. 9. Op. cit. pág.60. 10. PLATÃO. DIÁLOGOS IV. Publicações Europa-América. S/ data de edição. Pág. 257. 11. Op. cit. pág. 258-259. 12. MELLA, Federico A. Arborio. O EGITO DOS FARAÓS. Hemus Editora Ldª. 3ª Ed. Brasil. 1998. Pág.
