Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde men
Jornal de Espiritismo nº 16 · Maio 2006Página 46 min
Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Agora, faça sua(s) pergunta(s) Gémeos siameses Tentativa de interpretação espírita num caso raro de “Irmãs Siamesas” – “Craniopagus parasiticus” No dia 28 de Maio recebemos o seguinte mail sobre raro caso médico e indagações com- plexas do ponto de vista espiritual: “M.M. [o leitor colocou o nome da pessoa] nasceu a 30 de Março de 2004 com uma deficiência rara, a «Craniopagus parasiticus», que acontece quando um embrião começa a dividir-se para formar gémeos idênticos mas não completa o processo, deixando no útero um bebé por desenvolver.
A essa criança egípcia amputaram uma das duas cabeças com que nasceu, tornando-se única sobrevivente em 10 casos semelhantes em todo o mundo. O Dr. Iso Jorge Teixeira poderia explicar estes casos à luz da doutrina espírita? Duas ca- beças, dois espíritos? Porquê? O que os espíritos, neste caso em particular, terão para evoluir?” JOSÉ MAGALHÃES – Braga. Nas perguntas do leitor, muito teríamos de argumentar para respondê-las, pois há uma série de distorções da Doutrina dos Espíri- tos, relacionadas com o assunto, que vêm se perpetuando em no movimento espírita.
Mas vamos sintetizar as nossas ideias no espaço que nos é reservado... Gémeas siamesas – Classificação dos casos de teratologia em gémeos. A palavra siamês provém do caso descrito de anormali- dade anatómica acusada em gémeos, que nasceram acoplados, unidos um ao outro... Este caso ocorreu em Sião, actual Tailândia, em 1811. A partir de então, convencionou-se chamar gémeos siameses a tais casos de “teratolo- gia”, isto é, de seres humanos “monstruosos”, duplos, ligados pela cabeça, pelo tórax, pelo osso esterno, etc.
Assim, do ponto de vista médico, tais anormalidades corporais são classificadas no interessante capítulo da embriologia chamado “teratologia” em: 1- “Monstros” de eixos corporais paralelos” (teratópagos); 2- “Monstros” em forma de Y; 3- “Monstros” em forma de Y invertido; 4- “Monstros” parasitários. No 1.º caso, há a subclassificação, depen- dendo das partes do corpo acopladas, unidas: a- toracópagos – ligados pelo tórax; b- esternópagos ou xifópagos propria- mente ditos – ligados pelo osso esterno, no apêndice xifóide deste; c- céfalo-toracópa- gos – ligados pela cabeçaetórax; d- metópagos – ligados pela face; e- pigópa- gos – ligados pelo dorso.
No 2o. caso, em forma de Y, há uma bifur- cação a partir de certa região do eixo do corpo, com duas cabeças, dois troncos, para um par de pernas. No 3.º caso, em forma de Y invertido, há uma cabeça e tronco e pares de membros duplos. E, finalmente, no 4.º caso, no qual nos con- centraremos aqui neste trabalhoo grupo dos “PARASITÁRIOS”, um dos indivíduos é atrofiado e “parasita” o outro (“autosita”), que, em geral, é bem desenvolvido e pro- porcionado.
O gémeo “parasita” está subdesenvolvido, como bem relatou o leitor José Magalhães, isto é, num dos gémeos não é completado o processo embrionário... Há casos em que só existe uma cabeça “parasita” inserida na cabeça (“autosita”) do gémeo desenvolvido. No caso relatado pelo leitor, além da cabeça “parasita”, há um esboço de tronco em M.M. (ver figuras)... Explicação médica dos casos de gémeos siameses. Como temos dito, há confrades que tudo querem explicar através do Espírito, esquecem-se de que temos um corpo e, alguns, sem o mínimo de formação médica, arriscam-se a escrever e palestrar sobre o que não conhecem – medicina.
Um desses confrades, do qual omitiremos o nome por motivos óbvios, chega a dizer a seguinte barbaridade do ponto de vista da Lógica Formal: “Os médicos explicam as causas, mas não respondem o porquê”! Há algumas dúvidas, do ponto de vista médico, das causas desses casos de terato- logia em gémeos. No caso de “Craniopagus parasiticus” o que parece ocorrer é que haveria um comprometimento da perfusão sanguínea a um dos gémeos unidos, e foi observado através da detecção de HIPO- PLASIA (desenvolvimento incompleto) DAS ARTÉRIAS UMBILICAIS...
Enfim, faltando sangue para o desenvolvimento embrio- nário de um dos fetos, este ficaria incom- pleto, daí a anomalia, a “monstruosidade”, a teratologia... “Duas cabeças, dois Espíritos? Porquê?” As perguntas do leitor são instigantes e com- plexas para serem respondidas, no entanto, há confrades que as responderiam sem ne- nhuma sustentação científica e doutrinária, assim: “(...) a justiça divina encontra, nesta situação de siamesas, a alternativa de colocá-las NUM SÓ CORPO a fim de que, necessitando uma da outra para viver e desenvolver suas actividades (...)
Ora, há erros grosseiros na tese, acima. Em primeiro lugar, ‘UM SÓ CORPO” não pode abrigar “dois Espíritos”; além disso, não está demonstrado, cientificamente, que gémeas siamesas “necessitem uma da outra para viver”... No caso, específico, de M.M., a gémea “parasita” é que necessitaria da outra para viver e a outra (“autosita”) em nada ne- cessita da “parasita” para viver e sobreviver... Haveria, então, dois Espíritos?
A resposta, neste caso específico de Craniopagus para- siticus, é bem mais difícil do que em outros casos de gémeos siameses... O que define, fundamentalmente, a presen- ça do Espírito em um corpo, encarnado, é o Princípio Inteligente, pois “um corpo pode viver sem inteligência, mas a inteligência só pode manifestar-se por órgãos materi- ais através da “união com o espírito”, pois ela “dá inteligência à matéria animalizada” [cf.
resposta à questão 71 de O Livro dos Espíritos (OLE)]. Haveria no gémeo “parasita” a presença da inteligência? Parece-nos que a resposta é NÃO... E aqui é que há uma grande confusão no movimento espírita em relação às conexões entre “vida” e “Es- pírito”. Repetiremos aqui o que dissemos alhures: o que dá vida a um corpo é o “princípio vital”, que tem sua fonte na “MA- TÉRIA universal” (cf. resposta à questão 67 de OLE) e não o Espírito, e o caso do gémeo “parasita” de M.
M. parece-nos um exemplo disso... Porém, poderiam argumentar: se há um corpo, haveria um Espírito!.... A nosso ver, não! Em resposta à questão 356 de OLE, referente aos natimortos, a Espiritualidade Superior diz: “Sim, há as que JAMAIS tiveram um Espírito destinado aos seus corpos; nada devia cumprir-se nele.(...)”. Assim, caros leitores, respondemos à última pergunta do leitor: o corpo “parasita” de M.M. não terá nada para evoluir, nada devia cumprir-se nele, sua vida é meramente VEGETATIVA, aliás, FOI vegetativa, porque M.
M. foi submetida a cirurgia e foi extirpada a “cabeça parasitária”... MOB e DOB. Tem sido explicado por alguns confrades que o perispírito modelaria o corpo, como se aquele fosse uma forma... Já nos posicionamos contrariamente, nesta coluna, em relação a essa tese fatalista. O que nos parece é que haja uma DIRECTRIZ Organizadora Biológica (DOB), espiritual, e não perispiritual! Não obstante, o corpo procede do corpo (cf.
parte da resp. à questão 207 de OLE) e é através de anoma- lias embrionárias, no caso, provocado por hipoplasia das artérias umbilicais, que se irá formar o gémeo anómalo, parasita, sem Princípio Inteligente e, portanto, sem Espírito. Quando nascem gémeos siameses, com cabeças duplas, bem proporcionadas, obviamente, haveria dois Espíritos, mas com DOIS CORPOS e não um somente!... No caso de craniopagus parasiticus não!
Haveria UM SÓ ESPÍRITO, com um corpo quase normal e outra cabeça (e um esboço de tronco no caso de M.M.), sem Espírito. Por que afirma- mos isto? Porque a cabeça “parasita” não deu sinais de Inteligência, somente piscava os olhos e esboçava outros movimentos automáticos, nada mais... Razões espíritas para o caso de M.M. Bem, alguns confrades interpretam os casos de “gémeos siameses” como tendo sido esses Espíritos “inimigos em vidas anteriores” e que teriam sido colocados “juntos”, “num mesmo corpo” para a reconciliação...
Baseados em quê, tais confrades afirmam isto? Em informes mediúnicos, sem con- cordância universal dos espíritos? Basea- dos em “fisiologia” dos “chacras”, sem base científica? No caso específico de M.M., a única razão espiritual para a ocorrência da anomalia é uma PROVA para os pais, conforme pode- mos depreender da resposta à questão 356 de OLE, “in fine”... Poderiam contra-argu- mentar que a gémea “parasita” não nasceu morta...
É verdade, mas do ponto de vista espiritual a gémea “parasita” de M.M. não teria condição de sobreviver e, além disso, a sobrevida dos gémeos siameses, EM GERAL, é muito curta... Por que DEUS permite casos, assim, tão extravagantes e dolorosos? As obras do Criador muitas vezes são “INCOMPLETAS” e isso pertence aos desígnios de DEUS e ninguém é chamado a julgar. Leiamos isso num trecho da resposta da Espiritualidade Maior à questão 360 de OLE: “(...)
Por que não respeitar as obras da criação, que, às vezes, são INCOMPLETAS, pela vontade do Criador? Isso pertence aos seus desígnios, que ninguém é chamado a julgar.
