Crónica A Bicicleta Azul O Curso Básico de Espiritismo é, sem dúvida
Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 153 min
de entre as várias tarefas que me tem sido facultado desempenhar no centro espírita, aquela que mais me apaixona. Sempre se recebe muito mais do que se dá e, o encontrar pessoas dispostas a apren- der connosco do pouco que sabemos, é extraordinário. Recordo o meu primeiro grupo desse curso, quando, ainda eu própria ensaiava os primeiros voos na área do conhecimento espírita.
Era uma aula de apresentação de tema… lição bem estudada, passos vacilantes, alguma insegurança no manipular do retro- projector…e uma emoção enorme que me envolvia, vá-se lá saber porquê. No final da aula abeira-se um aluno, mais novo do que eu e que só conheci ali no centro, jeito meio tímido, que me pergunta, quase hesitante, se o meu filho falecido, na altura ainda não havia um ano, possuíra uma bicicleta azul. Fiquei surpresa, situação patética…eu não sabia.
E foi o que lhe respondi, o que, de algum modo, o desconcertou. Acrescentei então que me lembrava de duas bicicletas na sua curta vida: uma vermelha, ou com bastante vermelho, a da sua infância, outra maior, a da adolescência, quanto à cor… O Jorge (era o nome do aluno), ficou meio parado e pareceu-me que estaria na hora de lhe perguntar o motivo de tal inquérito que me pareceu descabido naquele final de aula. Reparei então que desdobrava um papelito que segurava na mão, meio trémula, e onde estavam escritas duas palavras – BICICLETA AZUL.
Recordei a bicicleta – estava lá, no telheiro da lenha, pendurada, velha, sem a roda da frente que repousava noutro lado; tivera, decerto, outra cor que me parecia ser preta, só que, «engenhocas» como era o dono, resolveu pintá-la de prateado, coisas de rapazes! Então o Jorge contou-me o que se passara naquela aula e que eu não vira. Disse-me o seguinte: «Por detrás de si, e durante quase todo o tempo da aula, esteve um jovem (descreveu o meu filho ao pormenor), alto, delgado, que debruçava o rosto sobre o seu ombro.
A determinada altura veio junto de mim e disse: «Vais dizer à minha mãe que a amo muito». Resolvi então pedir-lhe que me desse mais algum sinal, algo de particular entre mãe e filho, de modo a que o recado pudesse ter mais credibilidade. Ele concordou e disse: «Fala-lhe de uma bicicleta azul de que eu gostava muito.» E ali estava na minha frente algo a que não poderia dar resposta – eu não sabia a cor da bicicleta, mas prometi verificar.
Quanto aos sentimentos, sinceramente, não consigo descrever. No entanto, ficou-me uma certa tristeza – é que me parecia que a bicicleta era preta… Só na manhã seguinte pude ir junto da bicicleta, o que, confesso, fiz com certa emoção. Estava uma manhã de chuva, fria, dirigi-me ao telheiro e lá estava ela…prateada, sem a roda da frente… Porém, fora com a roda no lugar que o dono a tinha pintado e, quando desmonta- da, lá ficaram as pontas do encaixe…imagi- nem….
azulinhas! Estava sozinha na altura, trouxe a bicicleta para a claridade e, à chuva, peguei numa faca e raspei um pouco da tinta; era azul, de um azul forte, lindo! Como me pareceu linda aquela bicicleta, Santo Deus! Confesso que chorei, chorei de um modo sentido e profundo, talvez porque pela primeira vez, chorava por algo que não sabia descrever e me transcendia. Quanto à mensagem, tenho a certeza que se aplica a todas as mães do mundo e, por isso mesmo, aqui lhes fica com todo o amor de mãe.
