Entrevista NeyPrietoPeres:roteiroportuguês Começando nas Jornadas do O
Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 77 min
Entrevista NeyPrietoPeres:roteiroportuguês Começando nas Jornadas do Oeste, em Óbidos, e seguindo para a cidade do Porto, partindo para a região do Algarve e ter- minando em Lisboa, Ney Prieto Peres fez palestras e seminários, deixando o perfume do conhecimento espírita onde passou. Fizemos algumas perguntas ao amigo de Hernâni Guimarães Andrade. Como analisa a sua participação nas Jornadas Espíritas de Óbidos? Ney Prieto Peres — Apesar de os organiza- dores não serem profissionais, o evento foi realizado com todo o esmero, cum- primento de horários, temas e expositores bem escolhidos, os assuntos foram tratados adequadamente e num nível de excelente qualidade.
Sentimo-nos realmente enrique- cidos com a oportunidade de estar nestas jornadas. Gostei, diria, de todos os trabalhos, não re- gistei nenhum conflito com o conheci- mento doutrinário espírita, pelo contrário escutámos abordagens que nos estimulam a enfoques diferentes e a reforçar os pos- tulados da doutrina. Eventos desse quilate enriquecem-nos. Acho que isto é uma amostra e um modelo que poderia muito bem ser adoptado com maior amplitude, não apenas em Portugal, estendendo-se além da fronteira por Espanha e, porque não, na Europa como um todo?
Também no Brasil trabalhos desta ordem são de grande interesse, e temos participado nalguns deles. Vê-se que há interfaces coe- rentes com o conhecimento da doutrina dos espíritos, o que a nosso ver fortalece a universalidade dos ensinos dos espíritos. Estas jornadas foram um sucesso em todos os sentidos, inclusive a técnica da infor- mática, da abertura e do fecho, na homena- gem feita a Hernâni Guimarães Andrade, que sensibilizou a todos, particularmente a nós, feita com técnica e beleza, dentro do tema das jornadas «Reencarnação: Mito ou Realidade?
». O convívio e o sentimento de afectividade entre todos foram excelen- tes. Sou grato por ter participado nestas jornadas. Conheceu bem Hernâni Guimarães An- drade: estranha que haja portugueses a valorizarem-no tanto? NPP — Hernâni, pelo convívio que tivemos com ele, em 40 anos, desde que chega- mos a São Paulo, Brasil, em 1961, sempre demonstrou carinho por Portugal. O reconhecimento deste país irmão pelo trabalho de Hernâni Guimarães Andrade é natural, pois trata-se de uma fonte de con- hecimento que não tivemos o alcance de melhor absorver em toda a sua profundi- dade.
Ele é um espírito grandioso, por esse lado humano que sempre manifestava. Os nossos irmãos do meio espírita português registaram e prestigiaram a pessoa do eng. º Andrade antes de tudo, para além da sua contribuição notável na área da investiga- ção dos fenómenos espirituais. Há uma Revolução do Espírito no mundo? NPP — Exactamente, Jorge. Era esse o tema que gostaria de abordar. Não podemos ver a doutrina espírita como apartada da evolução, da tomada de consciência planetária que vem acontecendo historica- mente.
Estamos inseridos num movimento de crescente consciencialização, que vem acontecendo em todas as áreas da activi- dade humana: na área social, na área das ciências aplicadas, da psicologia, da física, essa que é a grande propulsora de todas as outras ciências. Há uma relação importante entre todas elas e o conhecimento espírita. Há que considerar os aportes da física quântica, a contribuição de Ian Stevenson nas pesqui- sas da reencarnaçãoea sua interconexão com a biologia.
Mas além disso, precisamos também de estar informados e acompa- nhar o que outros movimentos, até inde- pendentemente de conotações religiosas, estão a ocorrer no mundo inteiro. Estamos a referir-nos por exemplo, ao Dalai Lama, que tem realizado um movimento muito além de divulgar o conhecimento do budismo tibetano. Principalmente propa- gando o compromisso que todos temos com a ética e com a moral, independente- mente da crença religiosa.
Esse líder budista reflecte um trabalho consigo mesmo, de desenvolvimento espiritual a ponto de irradiar, onde vai, uma onda de interesse e estímulo para as pessoas. Ele reúne plateias de qualquer cor religiosa, toca em profun- didade, em síntese é o que fazia o mestre de todos os tempos, Jesus. Ele tocava nos seres humanos, estimulava esse amor pelo Criador. Jesus tocava as pessoas no sentido de que despertassem para o bem, para a caridade, para o amor ao próximo, a solida- riedade no atendimento principalmente aos doentes.
Entre estes personagens, queremos incluir aqui, além da madre Teresa de Calcutá, o mineiro Chico Xavier, em Uberaba, que sempre atendeu criaturas de qualquer tipo ou religião, que sentiam nele um irmão, uma alma aberta, um coração fraterno. Quem teve a oportunidade feliz de estar com o Chico, no Grupo Espírita da Prece, percebia ao sair de lá, como que renovados e banhados por uma irradiação suave, pois vínhamos leves, soltos e predispostos às coisas espirituais.
Este tipo de mudança está a acontecer em diversas áreas e o Espiritismo faz parte desse planeamento espiritual global, não pode ausentar-se dessa missão de desper- tar consciências para o bem, para a ética, para o respeito, para a moral. São desafios a serem atingidos, que trans- formarão com o tempo esta paisagem tão sombria a invadir o nosso mundo em regiões de conflitos de toda a ordem. As criaturas estão como que perdidas.
Quem poderá, senão a essência do Cristo, pelo conhecimento que a doutrina nos faz perceber, levar a essa proposta de autoapri- moramento? A doutrina é uma fonte ainda desconhecida em termos de colectividade planetária. Podemos vislumbrar o seu potencial se soubermos, como seus seguidores, viven- ciá-la nos nossos corações. Não tenhamos dúvidas da assertiva de Kardec: «Com o Espiritismo a humanidade entrará numa nova fase: a do progresso moral que lhe é consequência inevitável».
Estamos ainda longe de viver essa afirmação em termos amplos, dependerá sem dúvida da nossa atitude, na exemplificação da vivência do Espiritismo. Então para nós, seus seguidores, a doutrina é uma grande proposta que precisa, de for- ma consistente, ser concretizada nos nossos corações. Daí estaremos ajudando muito mais pelo exemplo, pela atitude, pelo com- portamento do que pelo conhecimento de que já somos amplamente detentores.
A parte experimental de investigação da doutrina espírita é de menor signifi- cado? NPP — Absolutamente. Vamos referir-nos de novo a Hernâni Guimarães Andrade, um homem que dedicou a sua vida, aos traba- lhos de experimentação logo após ingres- sar aos 16 anos na doutrina. Ele era antes de tudo uma pessoa afável, que jamais levan- tou uma palavra grosseira ou comentário prejudicial a qualquer indivíduo. Foi em determinadas épocas criticado, mas jamais se revoltou ou guardou rancor em relação a qualquer pessoa.
Ele tinha uma conduta ética e moral, como de uma criatura que batalhava pelo seu autoaprimoramento. Não há conflito entre um trabalho de pesquisa, de experimentação científica, e de respeito ao próximo, de vivência do conhecimento espiritual. Com a comprovação através da experimen- tação dos dados levantados — referimo- -nos principalmente nos casos estudados das evidências da reencarnação — refor- çam-se os postulados espíritas, abordados e investigados por conhecidos autores, por ordem cronológica: Banerjee na Índia, Ian Stevenson nos EUA e, entre outros no mundo inteiro, também incluímos o tra- balho de Hernâni Guimarães Andrade.
A investigação contribui para alicerçar a nossa convicção, porém mais importante ainda é identificar em nós as heranças do passado que se apresentam como reminis- cências e tendências na nossa perso- nalidade e que precisam ser entendidas e transformadas. Essa área de investigação conduz-nos claramente a um trabalho connosco próprios. É um dos temas que vamos comentar no nosso roteiro por Portugal. As “Vidas Passadas no Contexto Diário” reflectem-se na nossa maneira de ser, de reagir, estão muito presentes em nós.
No dizer de Edith Fiore, uma pioneira na terapia regressiva a vivências passadas, como é mais conhecida: “Não há sequer um aspecto do nosso carácter que não encon- tre um momento histórico nas nossas vidas pregressas onde teve sua origem”. Então somos, como diz Hernâni Guimarães An- drade, “causa e efeito de nós mesmos”. Nós construímos esse carácter, somos quem responde pela nossa maneira de ser. Quando introduzimos o conhecimento da reencarnação no reconhecimento desses aspectos da nossa personalidade, e rea- lizamos os reparos e as mudanças, não há dúvida que a contribuição científica, experi- mental, atinge o objectivo maior de levar as pessoas a melhor se conhecerem.
Quer deixar uma mensagem aos espíri- tas portugueses? NPP — A minha mensagem é de muito carinho. Quero-vos dizer a todos os irmãos que seguem a doutrina espírita, ou os seus simpatizantes, ou os que dela se venham a aproximar, que somos eternamente agra- decidos por termos recebido dos irmãos portugueses que nos descobriram a índole afectiva, de sentimento, que fizeram e que constituem para nós uma contribuição valiosa na formação do povo brasileiro.
Esse agradecimento já o fez Emmanuel, o padre Manuel da Nóbrega da história do Brasil, que transmitiu os conhecimentos cristãos aos nossos indígenas. Gostaríamos sim de dizer aos portugueses que a riqueza espiritual de Portugal é muito grande e importante para a Europa e para o mundo. Então essa sensibilidade e essa índole já amadurecida do povo português é que poderá alimentar, nessa carência mundial de valores, outros povos, não só de fala portuguesa como também de fala hispânica, sem querer deixar de lado os anglo-saxões e as demais culturas da humanidade.
Diria de todo o coração: tomemos consciência do papel que temos a realizar, que temos o potencial de realizar, dando- -nos as mãos, trabalhando com tolerância, perdoando as divergências ou diferenças entre nós, não deixando que o nosso orgulho nos afaste dessa missão que todos temos, e principalmente pelo exemplo, pelo esforço de renovação que podemos realizar, contribuirmos de forma mais efec- tiva para a melhoria do planeta como um todo.
A transformação do mundo começa em cada um de nós. Agradeço a todos os companheiros de Por- tugal que se empenharam na programação destes 10 dias de roteiro, no qual viemos trazer o nosso carinho, o afecto, e o amor que sentimos por este país e pelos com- panheiros que militam nas tarefas espíritas. Muito obrigado pela oportunidade. Texto e fotos: Jorge Gomes jorge.je@clix.
