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Ficha Técnica

Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 25 min

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Editorial FICHA TÉCNICA Jornal de Espiritismo Periódico Bimestral Director: Ulisses Lopes Editor: Jorge Gomes Maquetagem: www.loucomotiv.com Fotografia: Loucomotiv e Arquivo Tiragem: 2000 Exemplares Registado no Instituto da Comunicação Social com o n.º 124325 Depósito Legal: 201396/03 Administração e Redacção ADEP Rua do Espírito Santo, N.º 38, Cave Nogueira – 4710-144 BRAGA Assinaturas Jornal de Espiritismo Apartado 161 4711-910 BRAGA E-mail jornal@adeportugal.

org Conselho de Administração Noémia Margarido, Isaías Sousa Publicidade Apartado 161 4711-910 BRAGA pub@adeportugal.org Propriedade Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal NIPC 504 605 860 Apartado 161 4711-910 Braga E-mail: adep@adeportugal.org http://www.adeportugal.org Impressão Oficinas de S. José – Braga foto loucomotiv Os bichinhos discretos Um rectângulo relvado, uma bola para perseguir, 11 para cada lado à partida, e um homem geralmente de luto feito juiz: o árbitro… A bola andou no apogeu do seu medi- atismo por estes dias.

O talento de diversos jogadores e os técnicos de marketing arrastaram muitos a estender bandeiras nas janelas, nos seus automóveis e, por todo o lado, a imprensa lançou o olhar sobre a carreira da selecção nacional de futebol. Mas será preciso este tipo de fantasia para compensar a falta de auto-estima que a maior parte de nós apresenta? É com certeza um dos mecanismos psi- cológicos de sobrevivência que propicia es- timular a alegria de viver que uma profissão imposta e desajustada de uma vocação maior ou o mau uso do tempo livre não conseguem.

E depois há também experiências antigas sedimentadas no inconsciente que poten- ciam o entusiasmo com que quase toda a população da Terra abraça o campeonato do mundo de futebol. Sopradas do fundo do insconsciente vêm pulsões fortíssimas: «A minha equipa é o melhor grupo de guerreiros da minha nação e, para sobre- viver, tem de vencer os outros todos!». Acreditar na superioridade é meio caminho para enfrentar a luta e, quem sabe, não acaba mesmo em vitória?

No horizonte tribal era assim. Espíritos en- carnados e desencarnados misturavam-se no empenho de grupo para defesa do ter- ritório onde viviam com a família e os seus bens. Hoje, com um verniz de civilização, ainda há quem se passe para o outro lado diante da aflição da equipa com um ataque cardíaco ou, pelo menos, vivendo intensa- mente uma pressão emocional marcante. São as lutas do futebol, um grande negócio alimentado por milhões.

«Enquanto estão ali, não estão a fazer coisas piores», dizia-me alguém há uns anos. É ver- dade, mas é forçoso reparar que para uns sentirem o júbilo de ganhar outros sentem a tristeza de perder e, neste enquadramen- to, a alegria dos outros é indiferente desde que a da equipa e apoiantes se sustente. Onde fica fraternidade? Jesus deixou a ideia: «amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mes- mo». No porvir, o desporto deixaráonível dos combates violentos, passando a exercer a função social que hoje já deveria ter, de se democratizar na ocupação dos tempos livres de jovens e adultos, como técnica de manutenção do veículo físico com o qual passamos na Terra e como contributo para o bem-estar psicológico dos cidadãos.

A alegria de um convívio fraterno, de puro desportivismo, preencherá o espaço das paixões telúricas e, aí, sobrará de qualquer competição o respeito pelos adversários, em que nenhuma vitória poderá passar por batota, engano ou negociata. Até lá, não é caso para sofrimento, mas para diversão, caso aprecie o jogo da corrida atrás da bola no relvado. Isto, claro é só uma opinião, um ponto de vista entre uma miríade de outros tantos… Quanto à auto-estima, aprenda com a doutrina espírita, estudando a sua literatura riquíssima, e descubra a ciência de gostar de si mesmo sem ser narciso, pois só quem alcançar esse nível de lucidez será capaz de realmente amar o próximo.

Se tiver de jogar, deixamos um conselho que apli- camos a nós próprios: fuja de pisar a bola! Boa leitura. Texto: Jorge Gomesjorge.je@clix.pt Lembro-me de velha e valorosa árvore que conheci em minha primeira infância. Verde e forte, assemelhava-se a uma catedral na obra prodigiosa da natureza. Cheia de ninhos, era o palácio predilecto das aves canoras que, em suas frondes, trinavam felizes. Viajores exaustos encontravam à sua sombra, que protegia cristalina fonte, o reconforto e a paz, o repouso e o abrigo.

Lenhadores, de quando em quando, furtavam-lhe pedaços vivos e peregrinos in- gratos roubavam-lhe ramos preciosos para utilidades diversas. Tempestades terríveis caíam sobre ela, anualmente, oprimindo- -a e dilacerando-a, mas parecia refazer-se, sempre mais bela. Coriscos alcançaram-na em muitas ocasiões, mas a árvore ro- busta ressurgia, sublime. Ventanias furiosas, periodicamente, inclinavam-lhe a copa, decepando-lhe galhos vigorosos; a canícula demorada impunha-lhe pavorosa sede e a enxurrada costumava rodeá-la de pesados detritos...

O tronco, porém, sempre ador- nado de milhares e milhares de folhas ricas de seiva, parecia inabalável e invencível. Um dia, contudo, alguns bichinhos começaram a penetrá-la de modo imper- ceptível. Ninguém lhes conferiria qualquer significa- ção. Microscópicos, incolores, quase intangíveis, que mal poderiam trazer ao gigante do solo? Viajores e servos do campo não lhes identi- ficaram a presença. Mas os bichinhos multiplicaram-se, indefini- damente, invadiram as raízes e ganharam o coração da árvore vigorosa, devorando-o, pouco a pouco...

E o vegetal que superara as ameaças do céu e as tentações da Terra, em reduzido tempo, triste e emurchecido, transformava-se em lenho seco, destinado ao fogo. Assim também são muitas das associações respeitáveis, quando não se acautelam contra os perigos, aparentemente sem importância. São admiráveis na caridade e na resistência aos golpes do exterior. Supor- tam, com heroísmo e serenidade, estranhas provações e contundentes pedradas.

Afron- tam a calúnia e a maldade, a perseguiçãoeo menosprezo público, dentro de inalterá- vel paciência e indefinível força moral... Visitadas, entretanto, pelos vermes invisíveis da inveja ou do ciúme, da incompreensão ou da suspeita, depressa se perturbam e se desmantelam, incapazes de reconhecer que os melindres pessoais são parasitas destruidores das melhores organizações do espírito. Quando o “disse que disse” invade uma instituição, a intriga se incumbe de toldar a água viva do entendimento e da harmo- nia, aniquilando todas as sementes divinas do trabalho digno e do aperfeiçoamento espiritual.

Que fazer? Dentro de minha nova condição, apenas conheço um remédio: a nossa adaptação individual e colectiva à prática real do Evangelho do Cristo. Contra os corrosivos bichinhos do egoísmo degradante, usemos os antissépticos da Boa Nova. “Se alguém quiser alcançar comigo a luz divina da ressurreição — disse o Senhor — negue a si mesmo, tome a cruz dos próprios deveres, cada dia, e siga os meus passos.” Quando pudermos realizar essa caminhada, com esquecimento de nossas caruncho- sas susceptibilidades, estaremos fora do alcance dos sinistros micróbios da treva, imunizados e tranquilos em nosso próprio coração.